Virtude e perdão

Texto escrito por Rui Gomes Carneiro.

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Meu início dos estudos das paixões

Estávamos para começar um grupo de estudos do Sermão da Montanha, e nossos planos envolviam iniciar com as paixões, utilizando-se do livro “Paixões da Alma”, de René Descartes. Foi então que deparei-me , por recomendação do casal de amigos de estudos de Londrina, Miguel e a Rosana, com uma serie de áudios que tratavam de paixões e das virtudes, na visão de Descartes e de Allan Kardec, todos eles comentados em gravações pelo Professor Cosme Massi e um grupo de estudiosos. Fiquei impressionado com o conteúdo e resolvi transcrever algumas aulas, para transformar em um livro, com título provisório “Virtude: um entender espírita”, o qual, quem sabe?, venha um dia a ser publicado.

Meu início no IDEAK

Conheci o Cosme e sua esposa Lilian, e pelo trabalho incansável do casal e de outros membros do IDEAK, pela seriedade e relevância do trabalho no Espiritismo, associei-me ao Instituto de Divulgação Espírita Allan Kardec (IDEAK), e agora eis-me aqui, blogueiro, quem diria! Mas a vida tem dessas boas surpresas. 

O sonho de escrever um livro sobre as virtudes e o perdão

Para meu primeiro texto num blog, escolhi um capítulo de um projeto de livro físico que estou escrevendo, “Virtude e Perdão”. Todos os trechos das obras de Allan Kardec foram retirados do site KARDECPEDIA, uma plataforma fantástica das obras de Kardec, com todas suas obras, incluindo os doze volumes da Revista Espírita. Facilitou uma enormidade, pois essa plataforma permite buscas relacionadas ao tema que se está estudando, buscas cruzadas. Estou estudando perdão, tenho todas as referências sobre perdão em todas as obras de Kardec. Maravilha! Só clicar no “Buscas Relacionadas”.

Meu texto original está escrito na forma de diálogos, na esperança de tornar o tema de leitura mais amena, ocorridos em imaginário grupo de estudos coordenado por um  imaginário professor Augusto. Partilho com vocês um trecho deste meu futuro livro. Espero que seja útil para o leitor.

Uma parte do meu projeto de livro:

Sobre a Virtude e o Perdão

“Augusto, após breve conversa informal com o grupo, recomeçou o estudo:

            – Vamos analisar um pouco o perdão, essa virtude tão importante para nossa paz, tranquilidade e alegria. Para organizarmos nossa discussão vamos analisar três situações: quando Deus nos perdoa, quando nós perdoamos alguém e quando nós nos perdoamos. Como vocês entendem o perdão de Deus, aquele “Perdoai as nossas ofensas…” do Pai Nosso?

            As opiniões foram se sucedendo: arrependimento, remorso, inferno, purgatório, justiça divina, entre outras. Augusto, vendo a dificuldade para o grupo compreender o assunto, interveio:

            – Vamos entender racionalmente, como preconiza nosso mestre Kardec. Para isso, vamos começar pela questão 661 de “O Livro dos Espíritos.”

661. Poderemos utilmente pedir a Deus que perdoe as nossas faltas? “Deus sabe discernir o bem do mal; a prece não esconde as faltas. Aquele que a Deus pede perdão de suas faltas só o obtém mudando de proceder. As boas ações são a melhor prece, porque os atos valem mais que as palavras.”

Os Espíritos deixam claro que só se obtém o perdão de Deus mudando o proceder. Uma pessoa pode se arrepender de coisas que fez sem mudar seus valores; arrepende-se por medo, por exemplo, porque pode ser preso por algo errado que fez, ou pela possibilidade de uma multa por infringir lei de trânsito. Não é esse arrependimento que conta para Deus, por que esse só tem interesse!  E para Deus o que importa é o arrependimento por ter contrariado as leis divinas, por ter agido contra a moral. Nesse caso, a pessoa toma consciência de que errou contra Deus e o que ela sente não é medo, mas uma dor profunda, que muitas vezes parece não ter fim. É chegado, então, o momento de agir para reparar o mal que se fez, e introjetar em sua alma os valores que não permitirão que torne a cometer os mesmos erros. Isso traz paz para à alma; certo que a história não acabou, Deus precisa ver para crer (risos), então essa pessoa vai passar por situações semelhantes às que a fizeram errar, para que prove que de fato adquiriu valores novos em relação a essas situações.

E, ao dizer na questão 661 que Deus sabe distinguir o bem do mal, e que a prece não esconde as faltas, fica também claro que o perdão virá com o proceder de acordo com as leis divinas, como consta na questão 30 de “O Livro dos Espíritos”

30. Como se pode distinguir o bem do mal?
“O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus; fazer o mal é infringi-la.”

E para não deixar dúvidas quanto a o que Deus espera de nós, os Espíritos complementam na questão 632:

632. Estando sujeito ao erro, não pode o homem enganar-se na apreciação do bem e do mal, e crer que pratica o bem quando em realidade pratica o mal?
“Jesus disse: vede o que quereríeis que vos fizessem ou não vos fizessem. Tudo se resume nisso. Não vos enganareis.”

Tudo muito simples, não é? Deus quer que nos comportemos de acordo com as suas Leis, que estão nos ensinamentos de Jesus, e aí teremos seu perdão. Mas temos um problema bem grande agora: e quem morreu sem ter clareza disso? Aliás, quantos conseguem compreender essa verdade, nesse nosso mundão todo atrapalhado? Sem perdão divino, como fica o destino da imensa maioria dos seres humanos? Todos para o inferno para queimar eternamente?  Vejamos a questão 171 de “O Livro dos Espíritos”

171. Em que se funda o dogma da reencarnação?
“Na justiça de Deus e na revelação, pois incessantemente repetimos: o bom pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento. Não te diz a razão que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorarem-se? Não são filhos de Deus todos os homens? Só entre os egoístas se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão.”

Todos os Espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. Sua justiça, porém, lhes concede realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova.

Não obraria Deus com equidade, nem de acordo com a Sua bondade, se condenasse para sempre os que talvez hajam encontrado, oriundos do próprio meio onde foram colocados e alheios à vontade que os animava, obstáculos ao seu melhoramento. Se a sorte do homem se fixasse irrevogavelmente depois da morte, não seria uma única a balança em que Deus pesa as ações de todas as criaturas e não haveria imparcialidade no tratamento que a todas dispensa.

A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à ideia que formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam. 

O homem que tem consciência da sua inferioridade haure consoladora esperança na doutrina da reencarnação. Se crê na justiça de Deus, não pode contar que venha a achar-se, para sempre, em pé de igualdade com os que mais fizeram do que ele. Sustem-no, porém, e lhe reanima a coragem a ideia de que aquela inferioridade não o deserda eternamente do supremo bem e que, mediante novos esforços, dado lhe será conquistá-lo. Quem é que, ao cabo da sua carreira, não deplora haver tão tarde ganhado uma experiência de que já não mais pode tirar proveito? Entretanto, essa experiência tardia não fica perdida; o Espírito a utilizará em nova existência.

Vejam, continua Augusto: “…o bom pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento”, ou seja, não há condenação eterna, não há inferno para todo o sempre.

            – Mas o que é essa porta para o arrependimento, que sempre está aberta para todos?

            – Diz-nos Kardec: “Todos os Espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. Sua justiça, porém, lhes concede realizar, em novas existênciaso que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova”. Ou seja, a porta para o desenvolvimento espiritual é uma nova existência, a reencarnação, quando poderá superar suas deficiências, e reparar o mal que tenha feito anteriormente.

Augusto respira profundamente, e prossegue:

            – Kardec continua: “A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à ideia que formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações”. Está claro que um dos objetivos das reencarnações é  permitir aos homens o desenvolvimento moral até sua plenitude, o que seria impossível em uma encarnação só. Percebam, o que era confuso tornou-se muito claro. O perdão de Deus é oferecer uma nova oportunidade de resgatarmos nossos erros, de desenvolvermos virtudes que substituam nossos vícios, e para isso oferece-nos novas reencarnações.

            – Mas e se após o erro a pessoa se arrepende de fato, antes da morte?

            – Essa questão do arrependimento veremos melhor depois, mas, se ela se arrependeu de fato, não precisará mais expiar para aprender, lembrando que expiação é sofrimento e dor, que são instrumentos para despertar na alma a consciência de que errou e causou sofrimentos a alguém. O arrependimento, no entanto, não livra a alma do sofrimento pelo mal feito, pois a consciência do pecador só estará tranquila de fato após a provação e, principalmente, a reparação. Na provação o indivíduo mostra que realmente aprendeu, que introjetou valores novos em sua alma, e que esses novos valores estão determinando novo comportamento, mais moralizado que o anterior, se ele passa pela situação com paciência e resignação. Sem esquecer que expiação e provação podem acontecer na mesma vida em que se cometeu o erro, não sendo necessário esperar nova reencarnação.

            Augusto prossegue, após breve pausa:

           – De novo Kardec esclarece: “Se crê na justiça de Deus, não pode contar que venha a achar-se, para sempre, em pé de igualdade com os que mais fizeram do que ele. Sustem-no, porém, e lhe reanima a coragem a ideia de que aquela inferioridade não o deserda eternamente do supremo bem e que, mediante novos esforços, dado lhe será conquistá-lo.” Ou seja, nenhum Espírito Imperfeito ficará para sempre nessa situação, em condição de inferioridade em relação aos que já evoluíram mais, pois poderá evoluir em novas encarnações, restabelecendo a igualdade que existira anteriormente, antes de se entregar às inutilidades da vida material obcecadamente.

            – Então Deus sempre oferece novas vidas para provarmos que estamos crescendo moralmente?

            – Sim, Deus não passa uma borracha em nossos erros por que nos arrependemos, ele oferece a oportunidade de aprendermos a fazer certo na mesma encarnação ou em outras vidas. É de reencarnação em reencarnação que crescemos, também, intelectualmente, em conhecimentos; e esses novos conhecimentos vão permitindo que nos desenvolvamos também moralmente. E dessa forma vamos, de vida em vida, caminhando para o estado de Espíritos Bons, quando encontraremos a felicidade plena. É simples, não acham? Uma só encarnação não seria suficiente para desenvolvermos a virtude e atingirmos o conhecimento de tudo. Então vamos aprendendo devagar, de reencarnação em reencarnação, um tanto de coisas novas, um tanto de reparações, outro tanto de provas e de expiações. Começamos pelo Jardim da Infância, passamos pelo Grupo Escolar, depois o Ginásio, o Científico e finalmente a Faculdade. E ainda ficam faltando o mestrado, doutorado, e quantos Pós-doutorado quiser fazer, pois sempre será possível aprender mais.

            Risos generalizados na sala revelam a paz e alegria no ambiente.

            – Augusto, você é tão atualizado nas coisas do conhecimento, mas Grupo Escolar, Ginásio, Científico?  Que tal Ensino Fundamental e Segundo Grau?

            – Certo, mas não se apeguem às palavras, concentrem-se no conteúdo. Muita gente acaba não aprendendo por seu apego demasiado à letra, mais valorizada que o ensinamento contido na frase.

            – Quero fazer uma pergunta sobre desenvolvimento de virtudes. E se a pessoa se mantém com seus vícios em todas as encarnações?

            – Em cada reencarnação ele vai trazer as consequências acumuladas de seus erros, as condições de vida vão ficando cada vez mais difíceis e o sofrimento cada vez maior, até que ele se curve ante a vontade de Deus, que quer que todos seus filhos sejam felizes e convivam em paz com seus semelhantes. Lembram-se do texto de Paulo em O Livro dos Espíritos, item 1009, sobre o castigo?  Vamos ver um trecho aqui na Kardecpedia:

Quem é, com efeito, o culpado? É aquele que, por um desvio, por um falso movimento da alma, se afasta do objetivo da criação, que consiste no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo arquétipo humano, pelo Homem Deus, por Jesus Cristo. 

“Que é o castigo? A consequência natural, derivada desse falso movimento; uma certa soma de dores necessária a desgostá-lo da sua deformidade, pela experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma e a buscar o porto de salvação. O castigo só tem por fim a reabilitação, a redenção. Querê-lo eterno, por uma falta não eterna, é negar-lhe toda a razão de ser.

            – O Espiritismo acaba com os mistérios das religiões, não é?

            – Não temos isso de mistério no Espiritismo. Quando ainda não estamos preparados para saber determinada coisa, isso é dito com franqueza pelos Espíritos, com colocações como: “Vocês ainda não tem condições intelectuais ou morais para entender”; “Seu vocabulário é muito pobre para explicarmos”, etc. Se aceitarmos que só temos uma encarnação, não dá para entender a Justiça Divina.

            Augusto folheou algumas anotações, e prosseguiu.

            – Vamos ver um pouco mais de perdão? O texto a seguir foi ditado pelo Espírito Simeão, que faz uma reflexão sobre ensinamento de Jesus. Vocês podem encontra-lo em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, Capítulo X – Bem-aventurados os que são misericordiosos – Instruções dos Espíritos – Perdão das Ofensas – item 14

14. “Quantas vezes perdoarei a meu irmão? Perdoar-lhe-eis, não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes”. Aí tendes um dos ensinos de Jesus que mais vos devem percutir a inteligência e mais alto falar ao coração. Confrontai essas palavras de misericórdia com a oração tão simples, tão resumida e tão grande em suas aspirações, que ensinou a seus discípulos, e o mesmo pensamento se vos deparará sempre. Ele, o justo por excelência, responde a Pedro: perdoarás, mas ilimitadamente; perdoarás cada ofensa tantas vezes quantas ela te for feita; ensinarás a teus irmãos esse esquecimento de si mesmo, que torna uma criatura invulnerável ao ataque, aos maus procedimentos e às injúrias; serás brando e humilde de coração, sem medir a tua mansuetude; farás, enfim, o que desejas que o Pai celestial por ti faça. Não está ele a te perdoar frequentemente? Conta porventura às vezes que o seu perdão desce a te apagar as faltas?

Prestai, pois, ouvidos a essa resposta de Jesus e, como Pedro, aplicai-a a vós mesmos. Perdoai, usai de indulgência, sede caridosos, generosos, pródigos até do vosso amor. Dai, que o Senhor vos restituirá; perdoai, que o Senhor vos perdoará; abaixai-vos, que o Senhor vos elevará; humilhai-vos, que o Senhor fará vos assenteis à sua direita.

Ide, meus bem-amados, estudai e comentai estas palavras que vos dirijo da parte d’Aquele que, do alto dos esplendores celestes, vos tem sempre sob as suas vistas e prossegue com amor na tarefa ingrata a que deu começo faz dezoito séculos. Perdoai aos vossos irmãos, como precisais que se vos perdoe. Se seus atos pessoalmente vos prejudicaram, mais um motivo aí tendes para serdes indulgentes, porquanto o mérito do perdão é proporcionado à gravidade do mal. Nenhum merecimento teríeis em relevar os agravos dos vossos irmãos, desde que não passassem de simples arranhões.

Espíritas, jamais vos esqueçais de que, tanto por palavras, como por atos, o perdão das injúrias não deve ser um termo vão. Pois que vos dizeis espíritas, sede-o. Olvidai o mal que vos hajam feito e não penseis senão numa coisa: no bem que podeis fazer. Aquele que enveredou por esse caminho não tem que se afastar daí, ainda que por pensamento, uma vez que sois responsáveis pelos vossos pensamentos, os quais todos Deus conhece. Cuidai, portanto, de os expungir de todo sentimento de rancor. Deus sabe o que demora no fundo do coração de cada um de seus filhos. Feliz, pois, daquele que pode todas as noites adormecer, dizendo: Nada tenho contra o meu próximo. – Simeão. (Bordéus, 1862.)

Primeiro Jesus diz a Pedro que devemos perdoar quantas vezes a ofensa nos for feita, e aí o Espírito Simeão completa: “ensinarás a teus irmãos esse esquecimento de si mesmo, que torna uma criatura invulnerável ao ataque, aos maus procedimentos e às injúrias; serás brando e humilde de coração, sem medir a tua mansuetude; farás, enfim, o que desejas que o Pai celestial por ti faça. Não está ele a te perdoar frequentemente? Conta porventura as vezes que o seu perdão desce a te apagar as faltas?” Para Simeão, o nosso Mestre maior não ensina perdoar quantas vezes formos ofendidos, ele vai muito mais longe, ele diz quantas vezes a ofensa for feita, para deixar claro que o que precisamos é não nos ofender. Vai muito fundo, mandando-nos ensinar o esquecimento de nós mesmos, ou seja, não deixarmos que nossos interesses e o nosso orgulho nos determinem o comportamento; sejam humildes, nos ensina, esqueçam de si mesmos, sejam brandos, compreendam e aceitem o estágio moral do outro. . Diz ele “-Perdoai, usai de indulgência, sede caridosos, generosos, pródigos até do vosso amor. Dai, que o Senhor vos restituirá; perdoai, que o Senhor vos perdoará; abaixai-vos, que o Senhor vos elevará; humilhai-vos, que o Senhor fará vos assenteis à sua direita” Mas o que Jesus está nos mostrando? Que para perdoar temos que ser virtuosos. Não perdoaremos, ou seja, não deixaremos de nos ofender se formos orgulhosos, egoístas, raivosos, apegados, ciumentos, etc. O perdão exige virtudes. E Simeão conclui: “Olvidai o mal que vos hajam feito e não penseis senão numa coisa: no bem que podeis fazer.” Notem que Simeão diz “não penseis senão numa coisa”. É o homem vivendo apenas para fazer o bem, ou seja, apenas com desejos do bem, e pensamentos no bem.

            – E quando estivermos vivendo assim, também seremos perdoados por Deus, não é?

            – Não haverá o que ser perdoado, pois viveremos plenamente de acordo com as leis divinas. Perdoar e ser perdoado são faces da mesma moeda, fazem parte de um mesmo processo. Conquistado um, tem-se o outro.

            – Então é necessário ser virtuoso para perdoar e ser perdoado?

            – É interessante lembrarmos de Descartes: “faça sempre a melhor escolha”, ou seja, dê o melhor que você tem. Deus verá isso, e não exigirá mais do que você pode dar. Deus é justo, e sempre estará nos dando novas reencarnações para nosso crescimento, para que possamos fazer melhores escolhas. E não nos imporá expiações injustas.

            Augusto reflete um pouco, e segue:

            – O desenvolvimento espiritual é um processo em que os vícios vão sendo substituídos pelas virtudes, enfraquecendo as emoções ruins e tornando mais frequentes as boas, com o que as ofensas vão se tornando menos sentidas por nós. E esse processo culminará fatalmente em não sermos mais ofendidos, porque não seremos mais suscetíveis às ofensas. Esse processo exige, é claro, que perdoemos antes, para sermos perdoados depois, como colocou Jesus: “…perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”

            – Simeão termina com uma frase muito elucidativa, prossegue Augusto: “Feliz, pois, daquele que pode todas as noites adormecer, dizendo: Nada tenho contra o meu próximo.” Não é incrível? É felicidade não ter nada contra ninguém, ou seja, ter perdoado todos que o ofenderam. A consciência está tranquila, não existe nenhuma mágoa, nenhum melindre, nem raiva, desejo de vingança, nada tira a paz dessa alma. É feliz por ter perdoado. Nada importa o que o outro pensa e sente por ele, ele está tranquilo porque perdoou.

            – Se a pessoa não perdoa não consegue ficar em paz, não é? Fica se corroendo, basta lembrar-se do fato ou da pessoa para se irritar e perder a tranquilidade. É por isso que dizem que sentir raiva é beber o veneno esperando que o outro morra, não é?

            – Sim, não perdoar é carregar o fato e o sentimento ruim que este gerou consigo mesmo. A pessoa não se livra desse sentimento, que acaba por atormentá-lo e o torna vítima de si mesmo.

            – Para continuarmos esse estudo de perdão, prosseguiu o Professor, não poderíamos deixar de citar Paulo de Tarso, esse grande apóstolo do Cristo, no texto de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, Capítulo X – Bem-aventurados os que são misericordiosos – Instruções dos Espíritos, Perdão das ofensas,  item 15:

15. Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si próprio; perdoar aos amigos é dar-lhes uma prova de amizade; perdoar as ofensas é mostrar-se melhor do que era. Perdoai, pois, meus amigos, a fim de que Deus vos perdoe, porquanto, se fordes duros, exigentes, inflexíveis, se usardes de rigor até por uma ofensa leve, como querereis que Deus esqueça de que cada dia maior necessidade tendes de indulgência? Oh! ai daquele que diz: “Nunca perdoarei”, pois pronuncia a sua própria condenação.

Quem sabe, aliás, se, descendo ao fundo de vós mesmos, não reconhecereis que fostes o agressor? Quem sabe se, nessa luta que começa por uma alfinetada e acaba por uma ruptura, não fostes quem atirou o primeiro golpe, se vos não escapou alguma palavra injuriosa, se não procedestes com toda a moderação necessária? Sem dúvida, o vosso adversário andou mal em se mostrar excessivamente suscetível; razão de mais para serdes indulgentes e para não vos tornardes merecedores da invectiva que lhe lançastes. Admitamos que, em dada circunstância, fostes realmente ofendido: quem dirá que não envenenastes as coisas por meio de represálias e que não fizestes degenerasse em querela grave o que houvera podido cair facilmente no olvido? Se de vós dependia impedir as consequências do fato e não as impedistes, sois culpados. Admitamos, finalmente, que de nenhuma censura vos reconheceis merecedores: mostrai-vos clementes e com isso só fareis que o vosso mérito cresça.

Mas, há duas maneiras bem diferentes de perdoar: há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem, com referência ao seu adversário: “Eu lhe perdoo”, mas, interiormente, alegram-se com o mal que lhe advém, comentando que ele tem o que merece. Quantos não dizem: “Perdoo” e acrescentam: “mas, não me reconciliarei nunca; não quero tornar a vê-lo em toda a minha vida.” Será esse o perdão, segundo o Evangelho? Não; o perdão verdadeiro, o perdão cristão é aquele que lança um véu sobre o passado; esse o único que vos será levado em conta, visto que Deus não se satisfaz com as aparências. Ele sonda o recesso do coração e os mais secretos pensamentos. Ninguém se lhe impõe por meio de vãs palavras e de simulacros. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é peculiar às grandes almas; o rancor é sempre sinal de baixeza e de inferioridade. Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais pelos atos do que pelas palavras. – Paulo, apóstolo. (Lião,1861.)

           – Que frase maravilhosa: “Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si próprio…”. Já vimos anteriormente que perdoar plenamente quem nos ofende exige que sejamos virtuosos, pois precisaremos ter vencido o orgulho, o egoísmo, a arrogância e outros vícios que nos mantém na inferioridade espiritual. E Paulo diz que o ato de perdoar nos torna melhores do que éramos, ou seja, auxilia-nos no desenvolvimento de valores superiores, da virtude.

            – Acredito que perdoar também desocupa a cabeça e a alma!

            – Sim, vimos isso há pouco, e você coloca bem. Uma alma ocupada com a raiva não pode se ocupar com boas ações, com caridade, com o amor. Por isso o perdão nos liberta da prisão dos maus pensamentos, estimulando o desenvolvimento de outras virtudes. É claro que não conseguiremos perdoar plenamente em um estalar de dedos, mas, como já vimos, conforme vamos desenvolvendo as virtudes o perdão também vai sendo desenvolvido, até se tornar pleno com a grande virtude que o indivíduo conquista de não poder ser ofendido.

            -Perdoar é esquecer a ofensa, então?

            – É, se tomarmos esquecer como não sentir raiva ou outro sentimento ruim ao lembrar-se do indivíduo ou do fato. Não podemos compreender esquecer como limpar da memória, pois tudo está gravado no Espírito. Lembre-se do que vimos, dito por Simeão: perdoar é esquecer de si mesmo, ou seja, ser humilde e não se sentir ofendido, compreendendo e aceitando as possibilidades do ofensor.

            – Parece que as conclusões sempre chegam aos mesmos pontos!!!!

            – Sim, virtudes, o único caminho para nos tornarmos Espíritos Bons e sermos felizes para valer. Mas o grande trabalhador do Cristo afirma que o perdão verdadeiro, o perdão cristão, é aquele que lança um véu sobre o passado, ou seja, o passado não incomodará mais, estará esquecido, não afetará mais os pensamentos, os sentimentos, os desejos. E frisa que só esse perdão, que parte de uma alma sem maldade e amorosa, será aceito por Deus, visto que Ele não se satisfaz com as aparências. Deus enxerga nossos valores íntimos, não podemos enganá-lo com comportamentos forçados e falsos. Não adianta fingir, Deus tem um “espião” muito eficiente em nossas almas, a nossa consciência. Se estamos perdoando só de lábios, nosso coração nos delatará à consciência, e nosso segredo terá sido revelado ao Pai do Céu.

            – Esse texto de Paulo é um tratado!!!

            – É um texto fantástico! E Paulo encerra a mensagem assim: “O esquecimento completo e absoluto das ofensas é peculiar às grandes almas; o rancor é sempre sinal de baixeza e de inferioridade. Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais pelos atos do que pelas palavras”, reafirmando a necessidade de sermos virtuosos para nos sairmos bem nessa interação perdoar e ser perdoado.

            – Acho que entendi: vamos aprendendo a perdoar conforme nos desenvolvemos moralmente, pois nos ofendemos menos, até que não nos sentiremos agredidos e então não teremos o que perdoar, ou seja, estaremos perdoando plenamente. Mas como podemos nos fortalecer para essa guerra contra os vícios?

            Augusto continuou:

 – Perdoar o inimigo é o máximo que se pode ter em termos de perdão. Vamos um pouco além nesse tema? Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” > Capítulo XII – Amai os vossos inimigos – Retribuir o mal com o bem,  temos no item 1:

1. Aprendestes que foi dito: “Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos inimigos.” Eu, porém, vos digo: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos. – Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?” (S. Mateus, 5:43 a 47.)

– “Digo-vos que, se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus.” (S. MATEUS, 5:20.)

Nesse item 1 é Jesus quem nos fala da importância de perdoar, ressaltando sua importância para nos tornarmos melhores que os demais pecadores. “Sois o sal da terra”, assim o nosso Mestre querido qualificou os virtuosos. Sois diferentes, porque sabeis amar. E o perdão ao inimigo é o auge da caridade, como afirma Kardec, no item 3 da obra em análise.

3. Se o amor do próximo constitui o princípio da caridade, amar os inimigos é a mais sublime aplicação desse princípio, porquanto a posse de tal virtude representa uma das maiores vitórias alcançadas contra o egoísmo e o orgulho.

            – Muito interessante; o amor ao próximo constitui o princípio da caridade, ou seja, estaremos no início da caridade quando já amarmos o próximo. E a gente pensa que isso é a caridade, não é mesmo?

            – Estou muito surpreso!  É terrível dizer isso, mas o que mais o Espiritismo quer da gente?

            Augusto explicou:

– Quer que atinjamos o auge da caridade, ou como diz Kardec, a mais sublime aplicação do princípio da caridade, que é o amor ao inimigo.

            – Perdoar quem nos ofende já é difícil, agora, perdoar o inimigo, aquele que quer acabar com a gente, não é utopia? Como amá-lo, ter por ele os mesmos sentimentos que temos por uma pessoa querida?

            – Concordo com você, mas vamos entender direito esse amar ao inimigo, buscando luz no “Evangelho Segundo o Espiritismo”, com Kardec comentando ainda no mesmo item 3:

3 – Amar os inimigos não é, portanto, ter-lhes uma afeição que não está na natureza, visto que o contato de um inimigo nos faz bater o coração de modo muito diverso do seu bater, ao contato de um amigo. Amar os inimigos é não lhes guardar ódio, nem rancor, nem desejos de vingança; é perdoar-lhes, sem pensamento oculto e sem condições, o mal que nos causem; é não opor nenhum obstáculo à reconciliação com eles; é desejar-lhes o bem e não o mal; é experimentar júbilo, em vez de pesar, com o bem que lhes advenha; é socorrê-los, em se apresentando ocasião; é abster-se, quer por palavras, quer por atos, de tudo o que os possa prejudicar; é, finalmente, retribuir-lhes sempre o mal com o bem, sem a intenção de os humilhar. Quem assim procede preenche as condições do mandamento: Amai os vossos inimigos.

            – Agora ficou claro? Amar ao inimigo é esquecer a condição de inimigo, e desejar a ele tudo que se deseja a um amigo. Não significa trocar os abraços apertados que trocamos com amigos, porque os sentimentos são outros. Mas devemos nutrir por ele os mais sinceros desejos de paz, felicidade e progresso. E, se houver oportunidade, colaborar para que assim aconteça. E tudo isso sem pensamento oculto, que já vimos, para não colocarmos tudo a perder.

            – Mas Kardec avança, prossegue Augusto, no item 4, do mesmo capítulo:

4 – Para o crente e, sobretudo, para o espírita, muito diversa é a maneira de ver, porque suas vistas se lançam sobre o passado e sobre o futuro, entre os quais a vida atual não passa de um simples ponto. Sabe ele que, pela mesma destinação da Terra, deve esperar topar aí com homens maus e perversos; que as maldades com que se defronta fazem parte das provas que lhe cumpre suportar e o elevado ponto de vista em que se coloca lhe torna menos amargas as vicissitudes, quer advenham dos homens, quer das coisas. Se não se queixa das provas, tampouco deve queixar-se dos que lhe servem de instrumento. Se, em vez de se queixar, agradece a Deus o experimentá-lo, deve também agradecer a mão que lhe dá ensejo de demonstrar a sua paciência e a sua resignação. Esta ideia o dispõe naturalmente ao perdão. Sente, além disso, que quanto mais generoso for, tanto mais se engrandece aos seus próprios olhos e se põe fora do alcance dos dardos do seu inimigo. 

            – Agora Kardec pega firme na análise do inimigo; se estamos passando por dificuldades, por maldades, é porque precisamos passar por essas provas, e elas só serão possíveis se alguém criar as condições para que aconteçam. E é exatamente o inimigo que é o instrumento utilizado por Deus para que possamos passar por essa provação. Pedimos a Deus que nos dê forças para superarmos as provas, e depois reclamamos de Seus instrumentos, queremos acabar com eles, sentimos raiva, desejos de que se dê mal, e assim por diante.

            – Então Deus se utiliza o mal?

            – Vamos analisar. O inimigo também vai passar por uma provação, e talvez você seja o instrumento de Deus para isso. Por isso a vida na matéria é tão importante, porque aí serão possibilitados os encontros necessários para que aconteçam as provações. No plano espiritual não existe mistura de diferentes categorias de Espíritos, impossibilitando esses encontros. Deus não está utilizando o mal, está apenas colocando frente a frente aqueles que precisam se entender e se perdoar. Se aquele que está sendo instrumento não seguir a Lei Divina, colherá as consequências por isso, precisando expiar a falta. Existe um enorme e perfeito sincronismo no Universo, que possibilita que a Justiça Divina se imponha.

            Augusto abre os braços, e diz:

            -Deus é infinitamente justo, infinitamente perfeito, é isso. O problema é que nós, imperfeitos, queremos discutir como deveria ser o mundo!  E, se fôssemos Espíritos Bons, nem nos magoaríamos, conforme diz Kardec, no mesmo capítulo do Evangelho:

Item 4

O homem que no mundo ocupa elevada posição não se julga ofendido com os insultos daquele a quem considera seu inferior. O mesmo se dá com o que, no mundo moral, se eleva acima da humanidade material. Este compreende que o ódio e o rancor o aviltariam e rebaixariam. Ora, para ser superior ao seu adversário, preciso é que tenha a alma maior, mais nobre, mais generosa do que a desse último.

Já discutimos essa questão anteriormente, mas dada a importância da pessoa não permitir que uma ofensa o atinja, voltamos ao assunto! E vou deixar um pequeno texto para vocês lerem e, se ocorrerem dúvidas, discutiremos amanhã.

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Ao entrar no mundo dos Espíritos, o homem ainda está como o operário que comparece no dia do pagamento. A uns dirá o Senhor: “Aqui tens a paga dos teus dias de trabalho”; a outros, aos venturosos da Terra, aos que hajam vivido na ociosidade, que tiverem feito consistir a sua felicidade nas satisfações do amor-próprio e nos gozos mundanos: “Nada vos toca, pois que recebestes na Terra o vosso salário. Ide e recomeçai a tarefa.”

            -Agora vamos ver um perdão de extrema importância: o perdão a si mesmo. Temos ideias?

            – Passar a borracha não tem jeito, não é? Afinal, não dá para apagar a consciência, onde moram juntos as leis divinas e nossos vícios.

            – Ambos moram na alma, acredito que fique melhor. Mas apagar não tem jeito mesmo. O que acontece quando cometemos um erro e tomamos consciência dele?

            – Nós nos arrependemos, responde um dos presentes.

            – Sim, e esse é o primeiro passo para o perdão de si mesmo, e também o perdão de Deus. É reconhecer que errou, ou seja, que contrariou a Lei Divina. Nossa consciência é implacável, embora muitos Espíritos endurecidos consigam ignorá-la por muito tempo. Mas a dor na consciência nos leva a percebermos que agimos mal, e que isso nos causa sofrimento.

            – Esse arrependimento, quando ocorre?

            – Vamos à Kardecpedia, questão 990, interrompeu Augusto.

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990. O arrependimento se dá no estado corporal ou no estado espiritual?
“No estado espiritual; mas também pode ocorrer no estado corporal, quando bem compreendeis a diferença entre o bem e o mal.”

            – O arrependimento depende de conhecermos a diferença entre o bem e o mal. Um sujeito que não saiba isso não vai se arrepender, a não ser que uma consequência ruim lhe aconteça, e ele descubra pela dor que o que fez não é bom. Vamos ver um indivíduo que pratica um furto, ou outro crime. Após praticá-lo, fica sabendo que a polícia descobriu ser ele o autor, e, com medo de ser preso, se arrepende. Ele está arrependido por medo, não por que houve um choque com sua consciência. Ser preso e passar maus momentos na cadeia pode servir para ele nunca mais furtar, mas não garante que ele tenha compreendido a Lei Divina, que diz que não se deve furtar porque é prejudicial a uma outra pessoa. O arrependimento que agrada a Deus é aquele que ocorre porque o sujeito sente ter transgredido a Sua Lei, lamenta o mal que causou a um irmão, e, muito importante, sente a necessidade de repara o prejuízo que causou. Mas nos adiantamos muito. Vimos na questão 990 que o arrependimento pode ocorrer tanto na vida corpórea quanto na espiritual.

            – O arrependimento vai surgir sempre que a pessoa tiver o choque na consciência, não é?

            – Sim, e isso pode ocorrer com o Espírito encarnado ou desencarnado. O indivíduo desencarnou e, como Espírito, não consegue se libertar das lembranças da encarnação. Não é assim?! A gente não está sempre lembrando das coisas que fizemos?! Quando vamos deitar e procuramos analisar como foi o nosso dia, quais as primeiras lembranças que vem? As bobagens que fizemos, estas tomam a dianteira rapidinho. Depois vem as coisas boas que poderíamos ter feito e não fizemos. Aí, geralmente, deixamos isso para lá e tratamos de dormir logo, usando um meio de fuga: comprimido para dormir (não estou falando que quem toma o comprimido está fugindo, vejam bem; o indivíduo pode ter um problema fisiológico, não consciencional), televisão ligada, som no ouvido, celular até não aguentar mais, entre outras coisas. Nossa consciência está sempre de prontidão, e, tendo oportunidade nos fala: “- Você contrariou a vontade do Pai”. Imaginem o que é estar desencarnado, sem possibilidade de fuga, e a consciência nos mostrando, um por um, aqueles que foram prejudicados por nós, que sofreram por que nós lhes fizemos o mal.

            – Até onde vai isso?

            _ Vamos ver a questão 991 de “O Livro dos Espíritos”?

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991. Qual a consequência do arrependimento no estado espiritual?
“Desejar o arrependido uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o privam de ser feliz e por isso aspira a uma nova existência em que possa expiar suas faltas.” (332-975)

            – O cara está lá, desencarnado, não tem para onde ir, não tem como se iludir e distrair com a vida material, como geralmente fazemos quando encarnados; a consciência não lhe dá trégua, chega um momento em que ele se lembra de Deus, e aí o arrependimento se torna claro para ele. Então chora copiosamente com aquela dor imensa na alma, e implora o perdão de Deus. Lembram-se o que é o perdão divino?

            – Uma nova encarnação! Agora ficou ainda mais claro o quanto Deus é misericordioso quando nos perdoa nos dando outra chance. É interessante que os Espíritos dizem que o infeliz compreende o que o afasta de ser feliz, e deseja nova encarnação.

            – E se dispõe a passar pelos sofrimentos que provocou, completa Augusto!

            – Espera aí: isso não é “Olho por olho, dente por dente?”

            – Muito boa a sua pergunta! Não é que ele vá passar pela mesma situação que causou porque agrada a Deus, como se fosse uma vingança. A função da expiação é levar o indivíduo reconhecer seu erro e se arrepender. Se ele já fez isso, já está arrependido, não precisará mais expiar. Mas terá que provar que de fato superou aquele mau comportamento. Quando alguém está na escola e estuda determinada matéria, como o professor afere se ele aprendeu?

            – Submetendo-o a provas, é obvio!

            – Com Deus ocorre a mesma coisa! O indivíduo estava lá, todo arrependido e pedindo perdão. Deus é infinitamente misericordioso, então concede nova oportunidade para aquele Espírito, para que ele possa mostrar se aprendeu ou não a lição passando pelas mesmas situações que o levaram, na vida anterior, a praticar o mal. Mas entendam que Deus não fica fiscalizando, ele tem a nossa consciência trabalhando em nós. Quando deixamos de cair em uma oportunidade de repetir o erro, estamos começando a superar o vício, que pode ser de raiva, de vingança, de ciúme, de ganância, de apego material, enfim, de qualquer coisa que ocorre em nossas vidas. Superamos aquele vício e estamos nos esforçando para sermos virtuosos.

            Augusto continua:

            – Na questão 999 de “O Livro dos Espíritos” temos uma situação interessante, em que o indivíduo expiaria sem se arrepender:

999. Basta o arrependimento sincero durante a vida para que as faltas do Espírito se apaguem e ele ache graça diante de Deus?

O arrependimento concorre para a melhoria do Espírito, mas ele tem que expiar o seu passado.”

a) – Se, diante disto, um criminoso dissesse que, cumprindo-lhe, em todo caso, expiar o seu passado, nenhuma necessidade tem de se arrepender, que é o que daí lhe resultaria?

“Tornar-se mais longa e mais penosa a sua expiação, desde que ele se torne obstinado no mal.”

            – É como falar assim: “- Olha, vou pagar minha dívida, mas não vou mudar meus valores. Eu sou mau, gosto disso, e vou continuar assim (pode parecer exagerado, mas não é raro em nossas reuniões mediúnicas). Não adianta nada, pois o que vai livrá-lo do sofrimento é, na verdade, a reparação dos erros e a superação dos maus valores. Porque sem virtudes ele vai estar sempre errando e acumulando dívidas, o que lhe trará inúmeras expiações, que, cedo ou tarde, vão fazê-lo perceber que só existe uma forma de acabar com a dor: seguir a Lei de Deus.

            – Isso soa como “se não fizer como quero vou torturá-lo, cada vez mais”, não soa?

            – Há Espíritos que seguem em linha reta para o estado de Espírito Bom, plenamente livres de expiações. Vão desenvolvendo virtudes, seguindo as orientações de seus Anjos da Guarda e cumprindo suas programações de vida. Outros se entregam aos vícios, às paixões exageradas, e criam suas expiações. O que um pai faz quando seu filho o desobedece? O pai sabe o que ele não deve fazer, sabe que se fizer poderá se dar mal; se envolver com crime, por exemplo, poderá leva-lo a ser morto, usar drogas poderá torna-lo um drogadito, enfim, cumpre ao pai orientar da melhor forma seu filho. E, se for preciso, colocá-lo de castigo, retirar uma coisa que goste, etc. Com Deus, que é Pai, ocorre o mesmo. Ele dá-nos infinitas oportunidades com o perdão, mas é da lei que teremos todos que ser verdadeiros homens de bem, felizes para sempre. Essa é a razão da vida, e Ele nos dá todas as condições, inclusive o sofrimento, para que isso ocorra. Nós escolhemos, e respondemos por nossas escolhas, que são feitas livremente, sem que alguém possa fazer por nós. A nossa vontade só depende do nosso mundo íntimo, só depende do que somos. Más escolhas, maus valores. Chegamos de novo no mesmo ponto. Precisamos trocar nossos maus valores por virtudes, solução para todos os nossos reais problemas.

            – Ufa, o único caminho parece ser mesmo o arrependimento, não é?

            — Mas só o arrependimento não nos redime da dor. Temos que reparar o mal que fizemos. Imagina que uma pessoa assassinou um pai de família em outra encarnação. Como consequência, a família do assassinado ficou desamparada, as filhas optaram pela prostituição para obtenção de dinheiro, os filhos tornaram-se viciados em drogas, e todos acabaram assim, com vícios que lhes causaram muito sofrimento. O assassino, que já desencarnou, vai se lembrar constantemente dessa situação, e, mais cedo ou mais tarde, vai se arrepender, e também passará a sofrer. Ele se arrependeu, e está sofrendo. Qual o remédio? Consertar o que estragou, o que provocou. Deus lhe dará mais uma oportunidade, mais uma encarnação que permita refazer seu caminho. E, o que é extremamente justo, lhe dará a oportunidade de reparar o mal que fez, o que lhe trará paz de consciência. Ele terá que, de alguma forma, se reencontrar com aquela família que ele prejudicou e empurrou para os vícios, de forma a encaminhá-los para uma vida correta, com valores bons morais. Estará reparando o mal que fez.

            – Então expiamos para compreender que aquilo que contraria a lei divina é errado, e causa sofrimento, depois temos que reparar o erro junto aqueles a quem prejudicamos. Aí estaremos em paz com nossa consciência, e com Deus. Todo esse processo visa a superação de paixões exageradas, os vícios, e o desenvolvimento de virtudes, que são qualidades concordantes com as Leis do nosso Pai.

            – Isso mesmo! E já vimos anteriormente, que conforme vamos resistindo aos vícios, às paixões, e vamos substituindo-os por comportamentos concordantes com a Lei de Deus, vamos desenvolvendo virtudes, que irão nos levar para situações de paz, de alegrias, tranquilidade e de felicidade. O verdadeiro e completo perdão nós nos daremos quando formos virtuosos, pois aí não será mais possível termos expiações, pois não infringiremos mais  a Lei Divina. Mas, teremos que reparar todo o mal que fizermos.

            – Então só seremos felizes quando tivermos todas as virtudes desenvolvidas?

            – Enquanto estivermos precisando de perdão teremos muitos momentos de arrependimento e sofrimento. É claro, teremos momentos felizes, mas sempre fugazes, escapando de nossas mãos por qualquer problema que ocorra. A felicidade plena e permanente é um atributo de Espíritos Superiores.

            – E quando a pessoa se arrepende na mesma vida em que praticou o erro?

            – Na questão 992 de “O Livro dos Espíritos” temos a resposta!

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992. Que consequência produz o arrependimento no estado corporal?
“Fazer que, já na vida atual, o Espírito progrida, se tiver tempo de reparar suas faltas. Quando a consciência o exprobra e lhe mostra uma imperfeição, o homem pode sempre melhorar-se.”

            – Isso vai possibilitar que a pessoa já procure reparar o mal que fez, se tiver tempo, ainda nessa vida, o que lhe será extremamente vantajoso. Poderá esforçar-se para fazer a reparação do mal e para desenvolver virtudes, melhorando seu mundo íntimo. Desta forma não levará para o mundo espiritual essa situação, evitando muito sofrimento. Na mesma linha de pensamento, vejamos a questão 1.000 de “O Livro dos Espíritos”:

1000. Já desde esta vida poderemos ir resgatando as nossas faltas?

“Sim, reparando-as. Mas não creiais que as resgateis mediante algumas privações pueris, ou distribuindo em esmolas o que possuirdes depois que morrerdes, quando de nada mais precisais. Deus não dá valor a um arrependimento estéril, sempre fácil e que apenas custa o esforço de bater no peito. A perda de um dedo mínimo, quando se esteja prestando um serviço, apaga mais faltas do que o silício suportado durante anos, com objetivo exclusivamente pessoal.”

“Só por meio do bem se repara o mal, e a reparação nenhum mérito apresenta se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais”.

“De que serve, para sua justificação, que restitua, depois de morrer, os bens mal adquiridos, quando se lhe tornaram inúteis e deles tirou todo o proveito?” 

“De que lhe serve privar-se de alguns gozos fúteis, de algumas superfluidades, se permanece integral o dano que causou a outrem?”

“De que lhe serve, finalmente, humilhar-se diante de Deus, se, perante os homens, conserva o seu orgulho?”

            – Essa questão deixa muito claro aquilo que nos impulsiona para o progresso, e o que de nada adianta, por ser mera representação. Dizem os Espíritos: “Só por meio do bem se repara o mal, e a reparação nenhum mérito apresenta se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais.” Então, a única reparação que nos é aproveitável para a evolução espiritual é aquela que nos acrescenta virtudes. Se repararmos um erro com o coração cheio de orgulho e interesses materiais, de nada nos serve. O orgulhoso já recebeu sua paga, quem faz por interesse também já recebeu o pagamento. E o orgulhoso estará sempre correndo atrás de interesses materiais, numa autocondenação infinda. Virtude, é a resposta, pois sem ela não deixaremos de ser Espíritos Imperfeitos, estaremos sempre nesse mundo de sofrimentos .

            – Mas não existem Espíritos que não se arrependam nunca?

            – Vejamos os itens 993 e 994 de “O Livro dos Espíritos”:

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993. Não há homens que só têm o instinto do mal e são inacessíveis ao arrependimento?
“Já te disse que todo Espírito tem que progredir incessantemente. Aquele que, nesta vida, só tem o instinto do mal, terá noutra o do bem e é para isso que renasce muitas vezes, pois preciso é que todos progridam e atinjam a meta. A diferença está somente em que uns gastam mais tempo do que outros, porque assim o querem. Aquele que só tem o instinto do bem já se purificou, visto que talvez tenha tido o do mal em anterior existência.”

994. O homem perverso que não reconheceu suas faltas durante a vida sempre as reconhece depois da morte?
“Sempre as reconhece e, então, mais sofre, porque sente em si todo o mal que praticou, ou de que foi voluntariamente causa. Contudo, o arrependimento nem sempre é imediato. Há Espíritos que se obstinam em permanecer no mau caminho, não obstante os sofrimentos por que passam. Porém, cedo ou tarde, reconhecerão errada a senda que tomaram, e o arrependimento virá. Para esclarecê-los trabalham os Espíritos bons e também vós podeis trabalhar.”

            – Isso responde sua pergunta, certo? Há Espíritos que demoram mais para se arrepender, mas todos um dia se arrependerão, pois em algum momento perceberão o quanto são infelizes, o quanto tempo estão perdendo. “- Onde estão seus companheiros? – Eles estavam aqui, aí sumiram, foram levados por Espíritos iluminados, nunca mais os vi.” O final é a imensa solidão, sem os companheiros de erros, sem consolos, enfraquecidos, desanimados e, finalmente, arrependidos. “- Nenhuma ovelha do meu Pai se perderá”, ensina Jesus. Mas há aqueles que persistem no mal, mesmo quando estão desencarnados. Como não se arrependem, continuam atuando no mundo espiritual, e se divertem se vingando de antigos ofensores encarnados, ou vagando pela Terra como se estivessem encarnados, enfim, perdidos no plano espiritual. É o que os Espíritos nos dizem na questão 996 de “O Livro dos Espíritos”.

996. Pois que os Espíritos vêem o mal que lhes resulta de suas imperfeições, como se explica que haja os que agravam suas situações e prolongam o estado de inferioridade em que se encontram, fazendo o mal como Espíritos, afastando do bom caminho os homens?
“Assim procedem os de tardio arrependimento. Pode também acontecer que, depois de se haver arrependido, o Espírito se deixe arrastar de novo para o caminho do mal, por outros Espíritos ainda mais atrasados.”

            – Acredito que ficou claro que a expiação pode ocorrer tanto com o indivíduo encarnado como desencarnado, não é? Para confirmar isso, eis a questão 998 de “O Livro dos Espíritos”:

998. A expiação se cumpre no estado corporal ou no estado espiritual?
“A expiação se cumpre, durante a existência corporal, mediante as provas a que o Espírito se acha submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais inerentes ao estado de inferioridade do Espírito.”

            – Mas Augusto, e o perdão a si mesmo, o que é?

            – Não conseguiremos explicar em uma frase apenas. O indivíduo contrariou a Lei Divina, fez o mal, sente culpa, se arrepende, e se dispõe a reparar o mal que fez. Mas o arrependimento não se afasta, mantém a tortura constante ao sujeito. O uso da razão, e da vontade, será fundamental para aliviar a consciência. Lembremos um pouco de Descartes falando da melhor escolha, e associemos com a generosidade: o indivíduo precisa compreender que no momento em que errou fez o que lhe era possível dentro dos valores que tinha em seu mundo interior; pode ter feito sua melhor escolha para aquele momento, então está tudo bem, não adianta exigir de si mesmo o que não pode ser dado. Há que ser generoso, compreensivo e amoroso consigo mesmo.       

– Mas ele pode não ter feito a melhor escolha, pode ser que, se tivesse feito um pouco de esforço, não cometesse o erro.

            – Sim, mas ainda aí deverá ser generoso consigo mesmo, compreendendo que, Espírito Imperfeito que é, tem suas paixões exageradas fortemente arraigadas aos hábitos, o que dificulta que se livre delas em um estalar de dedos.  Durante algum tempo ainda fará muitos esforços para resistir aos maus pendores, e de vez em quando poderá fraquejar, e reincidir no vício. O que não se pode é desistir da luta, ou ficar mentindo para si mesmo, fingindo que está se esforçando para vencer o vício. Então, é preciso aceitar que essa é a realidade, é a sua verdade interior; e, quando cair na tentação, após a dor inevitável que acompanha os erros de pessoas já iniciadas no bem, ele receberá uma injeção de bom ânimo de seu Anjo Guardião, e, de acordo com a sua vontade, voltará, ainda mais decidido a vencer as suas provas e expiações. Pensará: “- Eu cai, mas agora aprendi que quando a paixão viciosa estiver chegando, vou prestar atenção e, antes que ela comece a me provocar, já vou pedir socorro ao meu Anjo da Guarda e a Jesus”. Notem, é uma postura ativa, de quem reage a uma situação de sofrimento com ações positivas. E não tem como negar que nesses momentos a prece é uma arma estratégica para obter forças para resistir. Jesus nos alerta sobre as tentações no Pai Nosso, a Oração Dominical: vejamos na Kardecpedia:

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Não nos deixes entregues à tentação, mas livra-nos do mal. Dá-nos, Senhor, a força de resistir às sugestões dos Espíritos maus, que tentem desviar-nos da senda do bem, inspirando-nos maus pensamentos. Mas, somos Espíritos imperfeitos, encarnados na Terra para expiar nossas faltas e melhorar-nos. Em nós mesmos está a causa primária do mal e os maus Espíritos mais não fazem do que aproveitar os nossos pendores viciosos, em que nos entretêm para nos tentarem. Cada imperfeição é uma porta aberta à influência deles, ao passo que são impotentes e renunciam a toda tentativa contra os seres perfeitos. É inútil tudo o que possamos fazer para afastá-los, se não lhes opusermos decidida e inabalável vontade de permanecer no bem e absoluta renunciação ao mal. Contra nós mesmos, pois, é que precisamos dirigir os nossos esforços e, se o fizermos, os maus Espíritos naturalmente se afastarão, porquanto o mal é que os atrai, ao passo que o bem os repele. Senhor ampara-nos em nossa fraqueza; inspira-nos, pelos nossos anjos guardiães e pelos bons Espíritos, a vontade de nos corrigirmos de todas as imperfeições a fim de obstarmos aos Espíritos maus o acesso à nossa alma. O mal não é obra tua, Senhor, porquanto o manancial de todo o bem nada de mau pode gerar. Somos nós mesmos que criamos o mal, infringindo as tuas leis e fazendo mau uso da liberdade que nos outorgaste. Quando os homens as cumprirmos, o mal desaparecerá da Terra, como já desapareceu de mundos mais adiantados que o nosso. O mal não constitui para ninguém uma necessidade fatal e só parece irresistível aos que nele se comprazem. Desde que temos vontade para o fazer, também podemos ter a de praticar o bem, pelo que, ó meu Deus, pedimos a tua assistência e a dos Espíritos bons, a fim de resistirmos à tentação.

            A seguir, perguntou Augusto:

– A que Jesus vincula nossas tentações? Aos nossos maus hábitos, que atraem outros Espíritos Imperfeitos com os mesmos gostos que nós; e esses Espíritos passam a tentar nos sugestionar para executar nossos vícios. O que temos que fazer? “Contra nós mesmos, pois, é que precisamos dirigir os nossos esforços e, se o fizermos, os maus Espíritos naturalmente se afastarão, porquanto o mal é que os atrai, ao passo que o bem os repele. Senhor, ampara-nos em nossa fraqueza; inspira-nos, pelos nossos anjos guardiães e pelos bons Espíritos a vontade de nos corrigirmos de todas as imperfeições a fim de obstarmos aos Espíritos maus o acesso à nossa alma”. Sim, precisamos vencer todas as nossas imperfeições, ou, como sempre, precisamos desenvolver as virtudes, o que afastará a aproximação de maus Espíritos e nos gerará felicidade.

            – Vamos ver se resumimos, prosseguiu Augusto: o perdoar a si mesmo é não exigir de nós mais do que podemos dar, ou seja, compreendermos o que somos, o que exige que nos conheçamos bem. Conhecendo nossos maus hábitos, juntamos toda nossa coragem e esforço sob o comando da vontade, e partimos para a luta contra nossos vorazes inimigos internos. Guerra é sempre assim, ganham-se algumas batalhas e perdem-se outras. Das vitoriosas tirarmos força para prosseguir na luta, e devagar vamos vencendo batalha por batalha. Quando perdermos uma delas, analisaremos porque o inimigo foi mais forte, e definiremos nossa estratégia para evitar que isso torne a acontecer. Não ficaremos acabrunhados e choramingando quando perdermos, pelo contrario, respiraremos fundo, chamaremos mais uma vez nosso grande general Anjo da Guarda, e partiremos para a ação. Sem remorsos inibidores, sem desânimo, sem dó de nós mesmos. Somos guerreiros do Cristo, do Amor e de da Paz interna.  “- Senhor, vem comigo, ainda sou soldado da retaguarda, mas estou aprendendo a lutar ferozmente contra meus defeitos, estou aprendendo a Te amar e a me perdoar, por que esta é a Tua vontade. Senhor, fortalece-me para que eu vença em mim todos os guerreiros dos vícios, e me alie eternamente com os anjos das virtudes. Senhor, entendi que a vida é simples, nós é que nos extraviamos por termos gostado mais dos meios que dos fins, mais da matéria que do Espírito. Mas agora, Pai de infinita Misericórdia, graças ao Seu Amor, eu aprendi a me perdoar, a perdoar àqueles que não me querem bem, aprendi a me amar, aprendi amar aos meus irmãos e, finalmente Pai, aprendi a Te amar. Abençoa-nos, Senhor.””

Referência: Todos os trechos das obras de Allan Kardec foram retirados do site KARDECPEDIAwww.kardecpedia.com

  • A continuação deste texto se dará em forma de livro, a ser publicado até 2020.
  • Este texto é de responsabilidade do autor e pode não refletir a linha editorial do IDEAK.

Texto escrito por Rui Gomes Carneiro. Doutor em Agronomia, Pesquisador e Engenheiro agrônomo. Estudioso do Espiritismo. Membro do IDEAK – Instituto de Divulgação Espírita Allan Kardec.

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