Primeiras lições de moral da infância IV: Lições de moral na infância – Allan Kardec

Explicação de *Cosme Massi na palestra “Ética e lições de moral na infância”.

Transcrição de Rui Gomes Carneiro.


Vejamos, rapidamente, como Kardec aborda as questões morais. Comecemos pelo móvel da conduta humana: o dever e a felicidade. Então, o que move o homem a agir moralmente é o desejo da felicidade e o cumprimento do dever.

Vemos isso na pergunta 629 de “O Livro dos Espíritos”.


O Livro dos Espíritos > Parte terceira — Das leis morais > Capítulo I — Da lei divina ou natural > O bem e o mal > 629

629. Que definição se pode dar de moral?

“A moral é a regra de bem proceder, isto é, a distinção entre o bem e o mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus”.


Aqui é Kardec lembrando o que move o homem a ter uma conduta moral: um conceito de dever e um conceito de bem comum e felicidade para todos. Assim, a proposta espírita faz uso de uma caracterização de dever, ao mesmo tempo em que faz uma caracterização de felicidade, tocando, portanto, nas éticas utilitaristas e nas éticas deontológicas.

Mas Kardec diz mais ainda, lembrando a natureza moral do homem:


 O Livro dos Espíritos > Parte terceira — Das leis morais > Capítulo XII — Da perfeição moral > As virtudes e os vícios. > 893

893. Qual a mais meritória de todas as virtudes?

“Todas as virtudes têm seu mérito, porque todas indicam progresso na senda do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores. A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal pelo bem do próximo, sem pensamento oculto. A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade.”


Aqui temos dois elementos-chaves. Primeiramente a virtude, ou seja, a conduta moral, que se apoia na conduta virtuosa, e o elemento que está por trás da noção do dever, que é o desinteresse: a conduta moral é desinteressada. Fazer o bem visando, por exemplo, uma situação melhor no futuro, já mostra ignorância do que é a moral espírita.

“Estou agindo assim por que quero ser feliz depois.” — Tudo bem, mas ainda não entendeu a moral no Espiritismo.

É claro que uma pessoa pode ser feliz por ter uma conduta moral adequada, mas não é o interesse em alguma coisa que deve mover a conduta, o que deve mover é o dever, é o desinteresse: eu ajo assim porque devo agir assim.

Imagina quando os cristãos iam para a arena entregar-se aos leões; eles iam pelo senso de dever: “devo fazer o que é certo”. Eles não estavam preocupados com a sua felicidade aqui ou depois, estavam preocupados em fazer aquilo que deviam fazer.

É essa noção de dever, de desinteresse, de virtude, que nós temos que trabalhar no dia a dia, vivendo a ética prática; para isso nós vamos resumir esta questão da lógica da ética espírita e, então, entraremos na mensagem de Allan Kardec.

A lógica da ética espírita

A ética (moral) deve levar em consideração a natureza moral do homem (virtudes e vícios) e o móvel da ação humana (lei de Deus, o dever e a felicidade coletiva).

O grande desafio de quem busca ser espírita é fazer uma combinação entre virtude, dever e felicidade. E isso não é fácil: em geral acabamos nos perdendo e entrando na questão do interesse.

Vamos ver agora, de forma prática, nesse texto admirável que Kardec produziu na “Revista espírita” de fevereiro de 1864. Foram extraídos alguns parágrafos do texto, e desde já recomendo seu estudo na íntegra, quando chegarem em suas casas.


PRIMEIRAS LIÇÕES DE MORAL NA INFÂNCIA

(Revista espírita, fevereiro de 1864.)

Numa família de nosso conhecimento há uma menina de quatro a cinco anos, de uma inteligência rara, mas que tem os pequenos defeitos das crianças mimadas…


Kardec está falando de uma experiência de educação que ele presenciou em uma família. Existe algo curioso nessa mensagem: essa experiência que ele relata em 1864 é uma experiência que lamentavelmente nós reproduzimos em nossos lares hoje. Ou seja, os defeitos que ele vai levantar na educação moral são os defeitos que nós vivenciamos hoje.

Eu me recordo da última vez que falei sobre esse tema na Federação Espírita do Paraná, eu dizia que eu mesmo como pai cometia aqueles defeitos, e minha filha, que estava na primeira fila assistindo, hoje já com 24 anos, balançava a cabeça afirmativamente. E eu disse: “Vejam, não tem nem como eu mentir, eu tenho aqui a prova viva, a própria filha.”

Então, não se preocupem se vestirem a carapuça, ou seja, se cometeram os erros citados por Kardec aqui. O importante é não cometê-los novamente, é buscar corrigir esses erros no processo de educação moral.

Prossegue Kardec:


Um dia trouxeram um doce à criança e, como de costume, lhe disseram: “Tu o comerás se fores boazinha”. Primeira lição de gulodice. Quantas vezes, à mesa, não dizem a uma criança que não comerá tal petisco se chorar?


Quantas vezes nós queremos que as crianças sejam boazinhas trocando por coisas? “Olha, se não se comportar bem, não ganha a mesada”, ou “não vai ao cinema”.

Isso é um grave erro de educação moral, porque, se a moral envolve o dever, envolve também o desinteresse, e não é possível ensinar o desinteresse dando coisas em troca do cumprimento do dever; para a criança o importante será ganhar o doce, e não ter a conduta desejada pelos pais. “Ah! eu estou preocupada é com o doce. O que importa é o doce que eu vou ganhar”, ou é a mesada que ganhará, o cinema a que poderá ir!  O importante não é ser boazinha, é ganhar a recompensa. A criança não desenvolve em sua alma a noção de que ela deve ser boazinha porque deve ser boazinha, é uma conduta que lhe é um dever.

Comer ou não doce nada tem a ver com moral! Ela vai comer o doce por questão de alimentação, de higiene, não por questões morais. O doce come-se depois da refeição, se o indivíduo não for diabético, porque, se for, não vai comer doce.

Moral e doce, ou moral e cinema, ou moral e qualquer recompensa não se misturam. Conduta moral nada tem a ver com recompensa! O indivíduo ganha a mesada por um contrato interno na família, contrato que estabelece, entre pai e filho: “Sua mesada vai ser tanto, e você pode utilizar esse recurso da forma como você julgar adequada. É um dinheiro que você tem para gerenciar seus interesses. Nada tem a ver com sua conduta; sua conduta boa ou ruim nada tem a ver com a mesada.”

Então vamos percebendo que se queremos desenvolver no filho o senso do dever, não podemos usar esses mecanismos que a maioria de nós utiliza: se não se comportar, não ganha; esse não é o caminho para a educação moral. Tem-se que usar o caminho da moral, do bom senso, do senso do dever.

Agora, se o pai, se o educador, só sabe agir por interesse, como é que vai passar esse senso de dever desinteressado? É uma dificuldade para a educação moral: quem não busca moralizar-se não tem condições e, portanto, não consegue fazer esse processo educativo, não consegue fazer com que seu filho, seu educando, perceba o senso de dever; o pai não tem esse senso desenvolvido, ele só vê o interesse, ele só vê a troca.

Esse processo de educação moral é muito difícil, e os pais precisam desenvolver esforços para educarem-se moralmente para que a criança entenda, nesses esforços, o empenho no dever, na responsabilidade, no senso moral, na virtude.

“Papai, por que eu preciso agir assim?”

“Porque você deve agir assim, é um dever!”

Essa é a conduta que gera felicidade para todos, e os pais precisam conversar com os filhos mostrando que esse é o caminho correto. Mas o melhor convencimento é os pais darem o exemplo; mostrar que age assim, mesmo tendo prejuízo:

“Meu filho, veja o que está acontecendo nessa situação: o seu pai optou por isso, vai ter prejuízo financeiro, vai ter dificuldades, mas essa é a conduta correta. Eu não estou fazendo assim para ganhar mais ou ganhar menos: estou fazendo assim porque devo.

Assim o filho vai percebendo e desenvolvendo esse senso do dever. Ele não vai se comportar bem por causa do doce ou da mesada; ele vai se comportar bem porque deve se comportar bem.

É esse senso de dever que é difícil de ser desenvolvido e para o qual precisamos aprender as técnicas, a arte da educação moral.

Continua Kardec:


“Faze isso, ou faze aquilo”, dizem, “e terás creme” ou qualquer outra coisa que lhe apeteça; e a criança é constrangida, não pela razão, mas em vista de satisfazer um desejo sensual que aguilhoam.


Aí Kardec está dando a orientação: mostra o problema e ao mesmo tempo apresenta a solução. Não podemos utilizar, de forma alguma, no processo de educação moral, esses mecanismos de troca. Queremos educar a criança para aprender o que é moral.

Há muitos contextos na vida em que se está ensinando outras coisas além de moral, mas há momentos em que o foco tem que ser a moral. E quem deseja ensinar moral e conduta ética tem que fazer uso da razão, do convencimento a partir do argumento, precisa usar uma linguagem que a criança entenda, que a criança perceba, e não mecanismos de dar prêmios, de dar punições.

Em geral esses mecanismos de troca produzem um efeito contrário: a criança fica valorizando mais o prêmio do que a própria conduta. Este é o risco! “O mais importante é o que eu ganho, não a minha conduta.”

E a criança passa a valorizar, então, mais o ganho, mais o interesse do que o dever, e em vez de desenvolver nela o senso moral, vai-se na verdade deturpando esse senso, criando pessoas que só olham para o seu próprio interesse.

Mas Kardec vai dar mais exemplos importantes:


É ainda muito pior quando lhe dizem, o que não é menos frequente, que darão o seu pedaço a uma outra. Aqui já não é só a gulodice que está em jogo; é a inveja. A criança fará o que lhe dizem, não só para ter, mas para que a outra não tenha.


“Olha, se você não comportar bem, o seu doce vai para seu irmãozinho, vou dar para outra pessoa!”

“Sabe aquele brinquedo de que você tanto gosta? Vou dar para outra pessoa se você não se comportar bem”.

Vejam que não é apenas gulodice quando prometemos alguma coisa de comer em troca do bom comportamento. Por que gulodice? Porque a gente se alimenta pelo bem-estar do corpo e pelo prazer, mas sem excesso, sem gulodice. Se eu enfatizo demais a alimentação como algo importante para ela, então comer passa a ser algo muito mais importante que tudo o mais!  Porque tudo termina em comida: a comida é o elemento-chave.

Então, além da gulodice, que iremos fortalecer e incentivar, quando se diz que alguma coisa vai para outra pessoa se ele não se comportar bem, está se criando a noção de inveja. O que é a inveja? É alguém que olha diferente para o outro que poderá ter algo que ele não tem. Então ele começa a olhar para este indivíduo como alguém que está de posse de algo que deveria ser seu. Ou seja, alguém está injustamente de posse de algo que deveria ser seu, como seu brinquedo, sua sobremesa. Achar que o outro está recebendo coisas injustamente cria o vício terrível da inveja; a pessoa olha a vida dos outros achando que o que eles têm foi obtido injustamente, que quem deveria ter é ele, não o outro. Da inveja para o ciúme e para a violência é um passo, e esse caminho não para de crescer agregando novos vícios.

Vejam, é uma inveja que nasceu em uma conduta simples dentro de casa, com a ameaça de dar um brinquedo da criança que se comportava mal para uma outra criança. É uma atitude que parece simples no processo educativo, mas que tem consequências danosas para o caráter da criança. Ela vai desenvolvendo o vício da inveja, de achar que o outro está injustamente de posse daquilo que lhe pertence; e ela passa a olhar o outro com olhar de desdém, de desprezo, de desrespeito, por considerar injusto que tenha o que lhe pertence.

Então é um perigo muito grande, mas Kardec vai dando remédio, na medida em que a gente vai aprendendo com ele como fazer. Vejamos no texto:


Querem dar-lhe uma lição de generosidade? Dizem-lhe: “Dá esta fruta ou este brinquedo a fulaninho”. Se ele recusa, não deixam de acrescentar, para nela estimular um bom sentimento: “Eu te darei um outro”. De modo que a criança não se decide a ser generosa senão quando está certa de nada perder.


E o pai e a mãe, muito bem intencionados, querendo propor a generosidade, querendo ensinar para as crianças a caridade: “Meu filho, dá o seu brinquedinho para fulano, pobrezinho que não tem, mas não se preocupe, não, a mamãe vai comprar outro para você.” Quantas vezes fazemos isso: “Olha, meu filho, está na hora de você pegar seus brinquedos e mandar lá pela casa espírita para as crianças pobres. Papai vai comprar outros para você”.

Claro, não há nenhum erro nessa conduta, mas essa conduta não ensina generosidade. Não é um ensinamento de educação moral.

Não há nenhum erro em uma criança dar seus brinquedos para outros, mesmo que vá receber outros. O problema é que quando faço isso não estou ensinando generosidade, eu não estou ensinando moral.

Então, se eu estou preocupado com educação moral, eu tenho que tomar muito mais cuidado, porque uma criança que se decide a dar aquilo que lhe pertence porque vai ganhar outro, não está agindo errado, mas também não está aprendendo generosidade. Não está aprendendo o que é uma conduta moral desinteressada. A conduta dela é de interesse — aliás, de sábio interesse: ela tem um brinquedo velho, ou um computador desatualizado, e a mãe propõe uma troca por um outro sofisticado. Vejam que é uma criança inteligente.

Nenhum erro nessa conduta, só que não se trata de educação moral, não se está ensinando à criança o que é moral, o que é ética. É apenas o jogo do interesse, que pode inclusive ser um interesse que não cause mal para ninguém. Não causa mal nenhum para as crianças para quem ela está doando o velho, não existe nenhum mal dela receber um novo: o problema é que ela não está aprendendo o que é generosidade. E se a intenção era educá-la moralmente, foi perdida uma boa chance de fazê-lo: “Meu filho, o que nós vamos dar hoje para quem precisa?” “Mas eu vou ganhar outro?” “Não; é doação, é renúncia sua, você tem que aprender a tirar de si para dar para os outros; isso é generosidade. Tem que dar algo de que vai sentir falta”.

Lembram-se do óbolo da viúva? Não é dar algo que lhe sobra, isso não é generosidade. Você vai dar algo que vai lhe fazer falta, mas você vai sentir a alegria de dar, o prazer de ver outra pessoa feliz, o prazer de vê-la sorrir porque ganhou um brinquedo. Você ficou sem, mas pouco importa, a alegria de dar é muito maior que a alegria de ter esse brinquedo. É preciso ir mostrando à criança com o diálogo, com carinho, a alegria de dar, de renunciar, e não simplesmente ensiná-la a trocar algo velho por uma coisa muito melhor.

Aí é só inteligência, ensinaremos apenas a ser bom comerciante, um bom homem de negócios, que sabe fazer trocas em que saia ganhando. Mas não está ensinando a criança a ser ética, moralizada, que saiba o que é uma virtude, que saiba o que é corretamente moral.

É preciso muito cuidado e que fiquemos atentos no processo de educação moral, que olhemos se os nossos meios não estão indo contra os fins a que nos propomos. Pretendemos educá-las moralmente, mas não usamos caminhos que levem a isso. São caminhos que favorecem o gosto, o interesse, não são caminhos morais.

Kardec está lembrando-nos, com esses exemplos simples, de como descuidamos no processo educativo moral, porque o jogo de interesses é mais fácil!

Na verdade, muitos de nós não sabemos como educar moralmente, e aprendemos a fazer um processo que é mais fácil: o da punição, o da troca, o da negociação: Fica quietinha aí, que você vai ganhar um doce! A criança vai ficar quietinha durante algum tempo e nos deixar sossegados!

Na verdade, não estou preocupado com a educação moral, estou preocupado em resolver meu problema. Eu quero sossego, e ela está me incomodando.

Então a gente usa mecanismos de punição e recompensas porque no fundo não estamos preocupados com a educação moral, estamos preocupados em resolver as nossas questões. Para nos livrarmos dos problemas fazemos a opção pelo mais fácil, que é o caminho do interesse, que não é o caminho da educação moral.

Continua o texto:


Certo dia testemunhamos um fato bem característico nesse gênero.  Era uma criança de cerca de dois anos e meio, a quem tinham feito semelhante ameaça, acrescentando: “Nós daremos ao seu irmãozinho e tu não comerás”.  E para tornar a lição mais sensível, puseram o pedaço no prato deste; mas o irmãozinho, levando a sério, comeu a porção.


Imagine a situação! Coloca o bolo no prato do irmãozinho, que não está nem aí e come o bolo rapidamente.

Continuemos o texto:


À vista disso, a outra ficou corada, e era preciso não ser o pai, nem a mãe, para não ver o relâmpago de cólera e de ódio que brilhou de seus olhos. A semente estava lançada: poderia produzir bom grão?


Olha o estímulo da cólera, do ódio! Uma criança aprendendo a odiar a outra porque pegou aquilo que lhe pertencia. E, querendo educar moralmente a criança, os pais acabam fazendo exatamente o oposto, criando terríveis vícios morais por condutas simples!

Continuemos com o texto:


Diziam que é preciso formar cedo as crianças, máxima muito sábia, e, para a pôr em prática, eis o que foi feito: “Prometo-te” disse uma mãe, “que, se não obedeceres, amanhã cedo darei o teu bolo à primeira menina pobre que passar.” Dito e feito. Desta vez queriam o bem e dar-lhe uma boa lição.


Estavam querendo ensinar generosidade à criança: vamos dar o doce à irmãzinha pobre.


Assim, no dia seguinte de manhã, avistada uma pequena mendiga na rua, fizeram-na entrar, e obrigaram a filha tomá-la pela mão e ela mesma lhe dar o bolo. Então elogiaram a sua docilidade.

Moral da história: A filha disse — “É mesmo, se eu soubesse, teria tido pressa em comer o bolo ontem”.

E todos aplaudiram esta resposta espirituosa.

Com efeito, a criança tinha recebido uma forte lição, mas de puro egoísmo, da qual não deixará de aproveitar-se uma outra vez, pois agora sabe o que custa a generosidade forçada. Resta saber que frutos dará mais tarde esta semente quando, com mais idade, a criança fizer aplicação dessa moral em coisas mais sérias do que um bolo.


Imaginem nossas crianças crescendo nesse processo de educação moral que alimenta o egoísmo, a inveja, o orgulho, a raiva, o ódio, a agressão com coisas simples, um bolo, um brinquedo. Aí, depois, nós vamos nos queixar de nossos homens públicos que roubam, das pessoas que matam, das pessoas que agridem. Quem são essas pessoas que não, provavelmente, adultos que quando crianças tiveram uma educação moral desse tipo, e não desenvolveram o senso moral?

O indivíduo ganhou duzentas vezes na loteria, e diz: “Deus me ajudou.” E o engraçado não é falar isso, é falar isso sem ficar vermelho, sem ficar corado. Aprendeu a mentir desde a infância, não via na mentira nenhum problema, porque o próprio pai provavelmente mentia, bem como a mãe. Então estava acostumado a mentir em benefício próprio, em interesse próprio. A mentira nunca o incomodara, a honestidade não o incomodava, porque o que interessava era ganhar o bolo. A mãe pergunta: “Meu filho, como foi seu dia?” “Ah, mamãe, meu dia foi muito bom! (Hoje é dia da mamãe me dar a mesada, não vou dizer que cometi aquele problema, que fui assim e assado. . .)” E ainda se vira para o irmãozinho e diz “Se você contar para a mamãe, eu te arrebento”. Não tem o senso do dever moral, em que é a consciência o vigia, o guia.

Quando se é ético, não é preciso ter perto o papai ou a mamãe para se comportar bem; comporta-se bem simplesmente porque esse é o dever. Não é preciso agradar papai e mamãe, ou ser punido, ameaçado por eles. Ajo porque é a maneira correta de agir, porque devo agir assim. Porque é correto agir assim. É esse senso de dever que nos falta, a nós adultos; imagina como passamos isso para nossos filhos, para as nossas crianças. A carapuça serviu para mim, muitas vezes.

Continuemos:


Assim se acha inoculado, desde a mais tenra idade, o vírus da sensualidade, do egoísmo, do orgulho, do desprezo aos inferiores, das paixões, numa palavra, que com razão são consideradas, as más, como as chagas da humanidade.


Nós inoculamos, colocamos esses vírus através de coisas simples; mas as crianças se tornam adolescentes, continuam na mesma conduta usando do interesse, da troca. Nossos adolescentes viram homens adultos, que vão para o mercado de trabalho, que serão pais, o que vão fazer como pais? Vão reproduzir esse processo educativo.

O mesmo processo educativo que não leva em consideração a moral, que é deixada de lado. Cuidamos do interesse da saúde, econômico, dos interesses materiais, educamos nossos filhos para serem bons profissionais, para ganharem dinheiro, para administrarem bem o patrimônio, para cuidarem bem da saúde, e até para serem polidos e educados.

Mas para a educação moral de fato, para ter esse senso de dever, de responsabilidade, de bem comum, de felicidade para todos, de cumprimento do dever, o que estamos fazendo para isso com nossas crianças? Depois vamos nos queixar dos adultos, criar mais penitenciárias, colocar mais polícia nas ruas?

Continuemos:


A falta, sem dúvida, é dos pais, mas é preciso dizer que muitas vezes estes pecam mais por ignorância do que por má vontade…

Sendo os primeiros médicos da alma de seus filhos, os pais deveriam ser instruir, não só de seus deveres, mas dos meios de cumpri-los. Não basta ao médico saber que deve procurar a cura, é preciso saber como agir.


Kardec tem lucidez, ele não é um educador paternalista, ele é lúcido: essa falta sem dúvida é dos pais, porque compete a eles a educação dos filhos, mas é óbvio que eles estão fazendo algo que aprenderam. Repetem a educação que receberam, mais por ignorância que por má vontade.

Se nós observarmos, todos nós temos os mesmos fins.

Em política e em religião é praticamente a mesma coisa: todos os políticos prometem as mesmas coisas, todos os religiosos pregam os mesmos fins. Todos nós conhecemos os fins.

Se alguém perguntar: “O que você deve fazer com a educação de seu filho?”, a resposta vem fácil: “Ah, eu tenho que fazer do meu filho um indivíduo moral, um indivíduo ético, que cumpra seus deveres.”

Todos sabemos os fins, mas e os meios para levar a esses fins? Nós os conhecemos?

Nós vivemos nessa utopia de dizer que desejamos atingir determinados fins sem saber os meios para atingi-los.  E aí repetimos meios que nunca funcionaram bem e que foram usados pelas nossas gerações anteriores, ou seja, estamos usando meios que não levam à educação moral desejada, à sua realização.

Nós falamos as mesmas coisas no seio de todas as religiões: fazer o bem, a prática da caridade, a fraternidade, a moral, a ética, mas que estamos fazendo para isso acontecer? Nós estamos errando nos meios!

Nós só repetimos os fins, insistimos o tempo inteiro em falar dos fins, mas onde estão os meios? Como atingir esses fins?

Essa deve ser a preocupação daquele que quer educar moralmente; os fins ele já sabe. Agora precisa perguntar: como eu vou proceder para chegar a esses fins? Esse é o desafio que esse texto de Kardec coloca. Não são os fins de que trata, são os meios, o como a gente deve proceder.  Prossigamos com Kardec:


Ora, para os pais, onde estão os meios de instruir-se nesta parte tão importante de sua tarefa? Hoje se dá muita instrução à mulher; fazem-na passar por exames rigorosos; mas algum dia foi exigido da mãe que soubesse o que fazer para formar o moral de seu filho?

Ensinam-lhe receitas caseiras; mas foi iniciada aos mil e um segredos de governar os jovens corações?


Hoje nós aprendemos física, química, matemática, biologia, português, inglês, economia, como se lidar na sociedade; mas, como é que eu lido com o caráter? Como nós, pais e mães, lidamos com a educação moral dos nossos filhos? Quem está cuidando disso? “Ah! Deveriam ser as religiões, as filosofias”. Mas o que fazem as religiões? Só repetem fins. O tempo inteiro. Você vai nos grupos de estudo, você vai ouvir as palestras, e só se fala dos fins; temos que amar o próximo, temos que ser caridosos, isso são fins! Nós não somos preparados para a orientação sobre os meios, o como fazer.

Os religiosos pregam o tempo inteiro e repetem os fins; por isso você encontra religiosos de duas seitas diferentes e eles falam as mesmas coisas, é o bem comum, a caridade, o amor, tudo bem, isso nós já sabemos, esses são os fins.

Agora, como devo fazer para educar meu filho para que ele possa atingir esses fins? Eis o desafio da educação moral. Quem quer educar moralmente não pode ficar restrito aos fins! Tem que saber, conhecer, estudar os meios que levam a esses fins.

Então nós vamos encontrar no mundo os problemas morais; as dificuldades do mundo são dificuldades morais, porque a humanidade tem abandonado a busca de soluções para elas.

Quando muito, a gente repete e repisa os fins, os objetivos, as metas, mas não trabalhamos as estratégias, os caminhos, os meios que vão levar a essas metas, a esses objetivos.

Nós vamos encontrar na literatura espírita uma riqueza de informações a respeito dos meios para se realizar a educação moral. Allan Kardec vai, em “O Livro dos Espíritos”, “A perfeição moral”, se preocupar com esses meios, ao propor o domínio das paixões como caminho central para a aquisição das virtudes. Ele vai, em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, nos ensinar a enfrentar essas paixões.

Kardec teve muita preocupação com os meios para que possamos atingir os fins desejados, a educação ética, a construção do indivíduo moralizado. Mas isso dá trabalho, exige estudo, reflexão, debruçar sobre o livro, refletir, entender, tentar fazer, colocar em prática, observar a prática, perceber seus efeitos; isso exige trabalho, esforço, dedicação, e nós não achamos tempo para isso!

Nós temos tempo para outras coisas: para o lazer, a diversão, para cuidar dos interesses materiais, mas para cuidar dos interesses espirituais reservamos pouco tempo, quando muito. Mas aí nós recebemos de volta da sociedade a violência, a agressão, a guerra, o desequilíbrio social, frutos de uma educação moral que nós abandonamos.

Então vejam, esse texto escrito em 1864 permanece atualíssimo; continuamos reproduzindo os mesmos problemas, os mesmos defeitos que Kardec observava. Quantos anos já passaram desde 1864, e ainda continuamos repetindo os mesmos erros! O mesmo desleixo com a educação moral.

Kardec prossegue:


Os pais, portanto, são abandonados sem guia à sua iniciativa. É por isto que tantas vezes seguem caminhos errados. Assim recolhem, nos erros dos filhos já crescidos, o fruto amargo de sua inexperiência ou de uma ternura mal compreendida, e a sociedade inteira lhes recebe o contragolpe.


Aí os pais reclamam dos filhos, quando adultos: ingratos, não aprenderam a educação moral, têm condutas inadequadas; mas que fizemos na infância deles para mudar isso?

E a sociedade inteira colhe os resultados, porque a família nada mais é que uma célula básica da sociedade, e a sociedade é uma reprodução dessas diversas células; o que ocorre na célula ocorre na sociedade como um todo!

Então nós estamos descuidando da educação moral. Por isso a importância e atualidade deste texto. Será muito bom se vocês lerem todo esse texto, com calma, com profundidade. Busquem nas obras de Kardec os meios para soluções de questões morais; nós não percebemos, mas essas propostas de meios estão espalhadas por toda a obra kardequiana, e nós nem percebemos.

Nós só vemos fins, porque é o que estamos acostumados a ouvir, a repetir, a reproduzir o tempo inteiro. Precisamos perceber como ali naquela mensagem do Espírito de Verdade, naquela mensagem de Pascal, de São Luís, de Santo Agostinho, nas obras de Kardec, estão as orientações de como se deve fazer. Ali estão os meios, o como devemos fazer no processo de educação moral. Mas é preciso ter ouvidos de ouvir, olhos de ver, ter desejos de buscar, investigar, pesquisar; senão a pessoa não acha, não entende, nem percebe a orientação que está sendo dada ali. Exige estudo, esforço, trabalho, mas o que é a educação moral senão tudo isso?

Educação moral exige estudo, esforço, dedicação, trabalho.

E Kardec vai continuar dizendo:


Pode o Espiritismo remediar esse mal? Sem dúvida nenhuma, e não hesitamos em dizer que ele é o único suficientemente poderoso para fazê-lo cessar. . .


Kardec vai, no final da mensagem, mostrar como o Espiritismo contribui para isso, o que nós vamos encontrar nas diversas obras! No Espiritismo nós vamos ver que a moral não é apenas uma pregação vazia, mas se materializa em uma ética prática muito importante para a vida de cada um de nós.

Vejamos o que ele vai dizer:


. . .pelo novo ponto de vista com o qual ele permite perceber a missão e a responsabilidade dos pais; dando a conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados; dando a fé inquebrantável que sanciona os deveres; enfim, moralizando os próprios pais.


Vejamos a primeira frase: “por um novo ponto de vista, do qual faz observar a missão e a responsabilidade dos pais”.

Nossos filhos não são “nossos”; eles são Espíritos em processo evolutivo, como nós, que assumimos o compromisso de ajudá-los no processo evolutivo, e nós estamos aqui para ajudá-los no desenvolvimento moral; mas nós nos temos equivocado, pois nossa preocupação fundamental é sua profissão, seu dinheiro, sua saúde física!

Mas, pensemos, de que vale a saúde física se não tem moral? Então o Espiritismo muda o nosso foco, a forma de ver a vida, e a educação moral passa a ter para o espírita prioridade número um, o resto está em segundo plano, vamos cuidar também, mas o primeiro plano é o da educação moral!

E o que nós fazemos? Nós nos preocupamos com a roupa do filho, sua escola. Tudo bem, essas são preocupações válidas, ninguém deve desprezar as preocupações do mundo, preocupações sociais, nada disso; só estamos dizendo que a prioridade é a educação moral. Tomar algo como prioritário não significa não fazer o resto, significa não deixar de fazer o prioritário.

Todos nós temos como prioridade a alimentação. Deixamos de fazer outras coisas porque a alimentação é prioridade? Não. A nossa prioridade é manter-nos vivos, então nós temos que cuidar da alimentação, isso é uma prioridade natural, mas isso não significa que não vamos cuidar das outras coisas importantes para a vida.

Assim, tomar a educação moral como prioridade não significa desprezar o resto, mas significa colocar isso como a primeira preocupação; é meu plano maior, e como tal eu tenho que reservar tempo para aquilo, afinal sou eu quem reserva o tempo para o que quero. Se reservo tempo para alimentar-me, por que não para a educação moral?

Precisamos reservar um tempo diário para isso, permanente, ter um tempo para ela: “Eu tenho um tempo para cuidar da educação moral. Vai ser todo dia, vai ser nessa hora tal”.

Há tempo para tudo, só que a gente vai deixando de lado. Vai passando em branco, a educação moral fica em terceiro plano, quando fica.

Então o Espiritismo vem nos dizer que essa criança que recebemos é um Espírito em processo evolutivo que pede de você orientação moral em primeiro lugar, depois as outras.  Continuemos, no mesmo trecho do texto:


. . .pelo novo ponto de vista com o qual ele permite perceber a missão e a responsabilidade dos pais; dando a conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados; dando a fé inquebrantável que sanciona os deveres; enfim, moralizando os próprios pais;


“Fazendo conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más”. Vamos descobrir naquela criança, nosso filho, que ele é um Espírito em processo de evolução, e que traz virtudes e vícios do passado. Temos a tendência de achar que nossos filhos são santos, Espíritos bons: “Ah!, meu filho é um Espírito bom. . .”

Vamos parar com essa história; nossos filhos são tão imperfeitos ou mais imperfeitos que nós! Têm vaidade, orgulho, egoísmo, ciúme, ódio, inveja, que trazem de outras existências! Nós temos que observar isso neles e trabalhar essas questões.

“Meu filho é um santo.” Sim, sei, mas do pau oco. Nós estamos em um mundo de provas e expiações, onde a esmagadora maioria das almas que aqui reencarnam são Espíritos em provas e expiações, com muito mais vícios do que com virtudes!

É preciso analisar com isenção a conduta dos filhos: ver como são egoístas, violentos, invejosos, ciumentos; identificamos os vícios, as paixões, e depois trabalhamos essas características que identificamos.

“Não, mas eu só vejo em meu filho qualidades boas!” Que gracinha, que coisa boa. Só vê as coisas boas, não vê os vícios que precisam ser trabalhados. Então a educação moral não foi colocada como foco, estou preocupado com minha alegria, com meu bem-estar, com minha vaidade: “Está vendo meu filho? que coisa maravilhosa?”

Continuemos, no memo texto:


. . .pelo novo ponto de vista com o qual ele permite perceber a missão e a responsabilidade dos pais; dando a conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados; dando a fé inquebrantável que sanciona os deveres; enfim, moralizando os próprios pais;


“Mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados”.

O Espiritismo nos mostra que vivemos em uma dupla realidade: a realidade do encarnado e a realidade do desencarnado, que a gente esquece. Nossos filhos não estão sozinhos, o nosso lar não tem somente nós; tem entidades, outros Espíritos que se ligam a cada um da família. Mas vimos com nossa tolice: “Ah! mas todos têm o protetor”.

Sim, têm o protetor, mas isso não elimina a ação dos Espíritos que se vinculam a uma criança, por exemplo. Essa vinculação ocorreu no passado, são comparsas de vícios e de crimes, que estão juntos faz tempo, e que permanecem juntos!

Então nós vamos percebendo a dupla realidade no processo educativo: nós temos que atuar sobre a nossa criança, mas também temos que atuar sobre um desencarnado que se liga a ela, que atua sobre ela, para educá-lo também, para ajudá-lo a se refazer. Então o Espiritismo nos mostra essa realidade da existência dos Espíritos, que a gente tem desprezado tanto!

Só há ética espírita quando nós consideramos os Espíritos. Sem os Espíritos é a ética comum, que já está em Aristóteles, em “Ética a Nicômaco”, que já está em Descartes, que já está em Kant, que já está em Jesus.

A ética é espírita porque leva em consideração o Espírito, a sua bagagem interior. Considera que os Espíritos desencarnados estão ali, ao lado da criança, e que são uma potência, uma força oculta, que atrapalha, que interfere, que ajuda, que favorece; então temos que saber que vivemos no meio de Espíritos, e como lidar com isso no processo educativo. E nós estamos esquecendo disso!

Nós temos desprezado isso, e falamos apenas de leis morais, de que todas as religiões também falam. Qual a diferença, então? Se as leis morais que todos pregam são as mesmas, qual a diferença?

A diferença é que no Espiritismo a questão do Espírito é colocada de forma séria, de forma clara, de forma profunda, e é preciso saber como atuar moralmente nesse processo educativo, sabendo que estamos diante de uma criança que traz suas tendências, que traz suas experiencias pretéritas, e tem suas necessidades de provas e expiações no nosso lar. Precisamos lembrar que existem Espíritos imperfeitos ligados à criança, ligados aos pais e irmãos, todos coabitando a mesma casa. Espíritos bons, Espíritos amigos, também estão presentes em nossos lares, e precisamos fazer bom uso de suas influências.

Essa mensagem de Kardec é muito importante, e precisa ser estudada em casa, já que muita coisa foi retirada por uma questão de tempo para exposição.

Estudem Allan Kardec, todas suas obras, e descubram que ele é um grande escritor, que nos dá os meios, os caminhos que devemos adotar para adotar uma ética prática espírita, que leve em consideração o Espírito, com todas as suas consequências.

E não vamos nos esquecer de que o maior compromisso de uma família espírita é com a educação moral de todos.