Primeiras lições de moral da infância III: A ética é relativa, ou apenas se amplia?

Resposta de Cosme Massi disponível em seu canal no YouTube.

Transcrição de Rui Gomes Carneiro.


É claro que, se temos várias éticas, nós temos um progresso na noção do dever ao longo do tempo.

Nós vamos percebendo, como vai dizer Lázaro em uma belíssima mensagem em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, que o dever cresce e se irradia nas mais diversas expressões da vida.

Então vamos aprendendo a ampliar a própria noção de dever.

Vamos dar alguns exemplos: antigamente era muito comum colocar questões de gosto como questões éticas. Todos sabem que na história do pensamento humano se dizia que determinadas vestimentas eram imorais; a mulher não podia usar calça, isso seria imoral. Era uma questão de gosto, que muitos consideravam como questão de dever, de moral.

Hoje nós abandonamos essa ideia entendida como um dever; sabemos que isso não fere a ética, é apenas uma questão de gosto. A mulher usar calça comprida ou vestido não afeta sua conduta moral; no passado era considerada uma questão moral, as religiões pregavam a imoralidade desse gosto, defendiam que esse tipo de comportamento agredia a conduta ética.

Então, com o tempo, tivemos ajustes na questão do dever, e certas coisas que eram consideradas deveres, deixaram de o ser. São pequenos ajustes que não nos permitem defender uma tese relativista da ética, dizer que ela é relativa, muda de tempo em tempo, muda de cultura para cultura. Não é assim!

Não devemos ver isso como relativismo da ética, da moral, mas sim de pequenos ajustes na noção de dever.

Outro exemplo para ficar claro. Durante muito tempo a noção de não matar era importante como dever. E se prescrevia inicialmente o não matar no sentido de não matar aqueles que eram considerados cidadãos como ele. Os gregos adotavam o não matar entre os cidadãos gregos. Mas um grego podia matar um escravo.

Mas saiamos da Grécia e vejamos que há apenas 150 anos nós também éramos assim: o não matar só se aplicava aos chamados homens livres, não se aplicava aos escravos; um senhor de escravos podia matá-los sem nenhum problema, pois eram considerados sua propriedade.

Então entendamos, houve um ajuste na noção do dever, o dever de não matar se estendeu para toda a espécie humana; qualquer que seja o ser humano, o respeito à vida é colocado. Seria uma mudança na ética se o matar deixasse de ser imoral e passasse a ser ético, por exemplo.

Mas, há, por parte de alguns filósofos, uma proposta de ampliação da noção do dever de não matar para além dos seres humanos.

Um grande filósofo chamado Peter Singer, numa obra notável chamada “Ética Prática”, ele defende que nós deveríamos estender a noção do não matar para todos os animais superiores que tenham um certo nível de desenvolvimento do sistema nervoso. Então o não matar se aplicaria ao boi e a outros animais que nós consumimos.

Assim, segundo Peter Singer, a noção de dever deveria levar o indivíduo, no futuro, a abandonar a alimentação por esses animais, e a noção do dever de não matar seria estendida para além do ser humano. Segundo esse pensador, esses animais de sistema nervoso mais desenvolvido têm uma espécie de senso moral, ainda distante do nosso senso moral, mas com alguns elementos de intersecção com o nosso senso.

Desta forma, essa noção de evolução do dever não significa uma ética relativa, um relativismo ético. Ninguém está falando que o não matar pode amanhã se tornar “matar é ético”. Não é isso! O não matar vai crescer, vai se ampliar, vai encontrar definições cada vez mais amplas, mas continuará o princípio do não matar.

Não é uma postura relativista para a qual tudo vale, é uma postura de crescimento. Como Lázaro vai dizer, o dever cresce e se irradia, na medida em que o Espírito avança, na medida em que o Espírito se desenvolve.

E em cada mundo do plano evolutivo para o qual o Espírito avança, a estrutura da matéria é diferente, exigindo condutas de dever que ainda não adotamos.

É um desenvolvimento do senso moral que ainda não conseguimos entender.

Não quero dizer com isso que a gente não deva comer carne. Não estou dizendo isso, estou dizendo que se a noção de dever avançar pode ser que a gente chegue a essa concepção de que não deveremos fazer uso dos animais superiores para nossa alimentação. Como homem sábio que é, Peter Singer diz que, até lá, os costumes terão que mudar, a ciência tem que avançar, de forma a substituir adequadamente a alimentação humana animal por outra. Então será necessário encontrar um processo de substituição de uma alimentação adequada por outra, porque o indivíduo tem o dever de preservar a própria vida e a saúde, mas isso poderia demorar ainda muito tempo. Sem uma substituição adequada de sua alimentação ele poderia morrer, e o homem não deve criar situações que o levem à morte; mesmo que ele tenha que matar animais inferiores de início, ele deve lançar mão deles para sua sobrevivência.

Então ele tem clareza de um processo de expansão do dever que vai crescendo aos poucos, como nós crescemos. Por exemplo, os gregos matavam todas as crianças que nascessem com defeitos físicos; eles as matavam, e essa conduta era considerada um dever ético. Elas nasciam com defeitos, não poderiam defender o Estado, não poderiam ser soldados, nem participar das guerras, nem poderiam ser trabalhadores normais, ou seja, teriam que ser sustentadas por outras pessoas. Então elas deveriam ser eliminadas, e os gregos faziam isso sem nenhum problema, já que consideravam que essa era uma conduta ética.

Veja-se que matar para eles não tinha a dimensão que tem hoje: nós hoje consideramos que todos os seres humanos devem ser preservados, não importando seu estado de nascimento, pobres, ricos, deficiente, com dificuldades, pouco interessa.

Então nós ampliamos a noção de dever; o que Peter Singer faz é uma proposta de ampliação ainda maior para certos tipos de animais que tenham o sistema nervoso mais desenvolvido e que, portanto, tem o que ele chama de expectativa de dor. Sofrem pensando no futuro. Eles têm uma certa noção do futuro, que para Peter Singer é o elemento forte do senso moral. Eles não apenas sofrem por uma dor presente, mas também têm a expectativa de uma possível dor; então ele vai dizer que os animais não sofrem apenas no processo em que são mortos, mas muito antes de serem mortos eles já criam uma expectativa de dor e de sofrimento.

Assim nós teríamos, segundo Peter Singer, a possibilidade de ampliação do sentido de dever. Não sabemos para onde caminharemos para a ampliação do nosso sentido de dever, que vai crescendo, que vai se expandindo.

Isso não significa um relativismo, significa um progresso, um avanço na questão do dever, para qual a humanidade está caminhando. Mas como Kardec aborda essas questões?

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*Observação. O texto acima foi retirado de uma exposição de viva voz. Como todo ensino oral, esta colocação pode não ser tão rigorosa com os sentidos das palavras, por efeito da proximidade entre as pessoas que conversam. É preciso, por isso, considerar que as definições dadas podem ser provisórias, e que alguns termos são usados em sentido figurado. Em todo caso, o fundo da mensagem não deixa equívocos.


Cosme Massi é Físico, Doutor e Mestre em Lógica e Filosofia da Ciência pela UNICAMP. Foi professor, pró-reitor e diretor de diversas universidades no Brasil. Ganhador do Prêmio Moinho Santista em Lógica Matemática. Escritor, palestrante e estudioso das obras e do pensamento de Allan Kardec há mais de 30 anos. Idealizador do IDEAK (Instituto de Divulgação Espírita Allan Kardec) e da KARDECPEDIA, plataforma grátis para estudos das obras de Allan Kardec. Reúne mais de duzentas aulas de Espiritismo na plataforma KARDECPlay.