Entrevista de Cosme Massi para a RIE. Obras de Kardec.

Uma conversa sobre as obras de Kardec.

O método empregado por Allan Kardec na codificação espírita pode ser considerado científico? Explique.

Certamente. Se utilizarmos as concepções modernas de ciência, como os conceitos de paradigma ou de programa de pesquisa, verificamos que o Espiritismo é uma genuína ciência da alma. O paradigma, o programa de pesquisa ou a teoria fundamental se encontram formulados nas obras de Kardec. Uma ciência é o resultado da interação harmoniosa da razão com a experiência. O desenvolvimento da ciência espírita deve ser conduzido seguindo a estrutura lógica e experimentalmente comprovada dos conceitos e princípios elaborados por Kardec e pelos Espíritos Superiores.

Existem correntes que defendem que a codificação espírita não abrange a universalidade de assuntos e que Kardec estaria ultrapassado. Qual a sua opinião?

Não concordo com esses pontos de vistas. Penso que a obra de Kardec contém todos os princípios fundamentais da ciência e da filosofa espíritas. Ela contém, como toda grande teoria científica, os princípios e os conceitos fundamentais que permitem a explicação e a compreensão dos fenômenos conhecidos do seu domínio de estudos.

Tenho estudado as obras de Kardec por mais de trinta anos e até agora não fui apresentado a algum novo conhecimento espírita que possa, com fundamento racional e científico, superar o que ele apresentou nas suas diversas obras. Claro que estou falando dos conhecimentos a cerca dos objetos de estudos do Espiritismo: os Espíritos, sua natureza, origem e destino, bem como suas relações com o mundo corporal. É irrelevante dizer que Kardec (ou algum Espírito) citou essa ou aquela ciência de sua época que passou por modificações e desenvolvimentos futuros. Esses conhecimentos das ciências naturais ou humanas citados ou utilizados por Kardec não são conhecimentos do domínio do Espiritismo. Informações que Kardec tenha utilizado das ciências oficiais de sua época podem ter sido alteradas. Mas, isso não se trata de Espiritismo. Repito, dentro do domínio de estudos do Espiritismo não conheço nada novo que tenha superado o que se encontra nas obras de Kardec.

O progresso de uma ciência não pode ser confundido com a aceitação de propostas sem fundamentos e que entram em contradição com os princípios já estabelecidos e comprovados. Por isso, é imprescindível estudar as obras de Kardec para examinar com rigor e método propostas que possam surgir como complementares e inovadoras.

Como você avalia a difusão e estudo dos aspectos filosófico e científico do Espiritismo, no movimento espírita, em comparação ao religioso e moral?

Ao estudarmos os aspectos filosófico e científico, estamos de acordo com a própria definição que Kardec deu ao Espiritismo: “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.” (O que é o Espiritismo, Preâmbulo).

Tenho esperança que retomemos o estudo de Kardec com todo o empenho e dedicação que suas obras merecem. Todos ganharemos, se nos dedicarmos mais à compreensão das obras de Kardec, em todos os seus aspectos.

O conteúdo da Revista Espírita, em sua opinião, é explorado suficientemente por palestrantes e grupos de estudo? Deve ser tratado como um complemento à codificação?

O conteúdo da Revista Espírita é totalmente consistente com o conteúdo das cinco obras mais conhecidas de Kardec (o chamado pentateuco espírita por alguns espíritas). Kardec, no seu pequeno livro Catálogo Racional das obras para se fundar uma biblioteca espírita, denomina todas as suas obras, incluindo a Revista Espírita, de Obras fundamentais do Espiritismo. No capítulo Do Método, de O Livro dos Médiuns, Kardec recomenda o estudo da Revisita Espírita simultaneamente com o estudo das suas outras obras. A Revista Espírita é fundamental para se entender com mais detalhes e profundidade vários dos princípios e dos fenômenos estudados nas outras obras. Claro que há textos na Revista Espírita que não se encontram nas outras obras, mas não são textos que entram em contradição com elas. Kardec não é repetitivo, quando não há necessidade de sê-lo.

A Revista Espírita complementa e explica as suas outras obras e os princípios fundamentais do Espiritismo. Se não estudarmos a Revista Espírita corremos o risco de ter uma visão incompleta e deturpada do Espiritismo. Por isso, Kardec colocou a Revista Espírita como uma obra fundamental do Espiritismo. Costumo conjecturar dizendo que a falta de uma tradução para o português da Revista Espirita, durante mais de 100 anos, talvez tenha facilitado o surgimento no Brasil de propostas que entram em contradição com vários dos princípios espíritas apresentados e explicados nas obras de Kardec.

Qual a importância da sistematização para o estudo e posterior prática dos ensinos espíritas?

Na Introdução da notável obra O Livro dos Espíritos, no item VIII, Kardec afirma: “O que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá”. Afirma ele, também, a necessidade dos estudos serem conduzidos com continuidade, regularidade e recolhimento. Qualidade indispensáveis para a compreensão e a prática da doutrina espírita. Preocupado com o ensino sistematizado do Espiritismo, Kardec apresenta suas orientações de como se estudar o Espiritismo no capítulo Do Método, já citado anteriormente. Sugiro para todos aqueles que desejam estudar sistematicamente o Espiritismo, individualmente ou nas Casas Espíritas, que examinem e pratiquem as orientações desse capítulo III, de O Livro do Médiuns.

Atualmente, com a facilidade da internet, percebe-se que as pessoas raramente se aprofundam no conhecimento dos mais diversos temas. O quanto essa superficialidade pode prejudicar o julgamento crítico de obras ditas espíritas?

É uma pena que aproveitamos muito pouco das facilidades que a Internet nos proporciona para encontrarmos livros e para o estudo e as discussões em tempo real. Hoje, de uma forma geral, muitas pessoas enfrentam dificuldades para estudar, ou ler e interpretar adequadamente, as obras de Kardec. Essas dificuldades são consequências da baixa qualidade da Educação do País. Os nossos índices de leitura e de interpretação adequada de textos estão entre os mais baixos do mundo. A Revista Espirita, por exemplo, é pouco estudada de forma metódica e profunda. Os grupos de estudos nas casas espíritas podem contribuir muito para a melhoria e o aprofundamento da leitura de todas as obras de Kardec. São 21 livros, incluindo as Revistas, que precisam de um estudo mais dedicado. Na Internet, por exemplo no site do IPEAK, todas essas obras de Kardec estão à disposição gratuitamente.

O texto de Kardec é tão claro e completo que não deixa espaço para deturpações. A falta de estudos dessas obras permite, no movimento espírita, o surgimento de doutrinas contraditórias e incoerentes. A pretexto de atualizar ou completar os estudos de Kardec surgem, vez ou outra, propostas que entram em contradição com os pontos fundamentais já estabelecidos e confirmados nas obras de Kardec. Estudar Kardec para que o Espiritismo possa avançar de forma firme e segura, como acontece com as melhores ciências da matéria. E para isso, é preferível, como nos disse Erasto, recusar dez verdades a aceitar uma única falsidade, uma só teoria falsa. E para termos esse discernimento, é necessário o aprofundamento da leitura, pois apenas o estudo é capaz de nos proporcionar essa capacidade reflexiva e crítica.

Diante das incertezas de ordem política, moral e todo tipo de violência amplamente divulgado pela mídia, qual o papel do espírita na sociedade?

Compreender o Espiritismo, para vivê-lo em todas as circunstâncias da vida. Cabe ao espírita mostrar, pelo exemplo constante, como a compreensão espírita pode contribuir para a transformação moral do homem. O verdadeiro espírita se esforça permanentemente para ser um homem de bem, que pratica as virtudes ensinadas por Jesus e Kardec. Nunca devemos esquecer a recomendação de Kardec: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas más inclinações”. ( O Evangelho Segundo o Espiritismo)

E como as casas espíritas podem se preparar melhor para receber indivíduos com tais questionamentos?

Procurando estudar e colocar em prática, por meio dos seus dirigentes e trabalhadores, o Espiritismo tal como se apresenta nas obras de Kardec. A casa espírita precisa estudar todas as 21 obras de Kardec, em especial a Revista Espírita, onde Kardec dá orientações para o movimento espírita e para as atividades nas casas espíritas. Sem compreender como Kardec propôs e praticou o Espiritismo teremos muita dificuldade para praticá-lo em nossas casas espíritas. Os indivíduos que procuram a casa espírita precisam receber a melhor orientação possível em matéria de Espiritismo. Nada conheço que seja mais claro, simples e profundo do que as obras de Kardec.

Quero agradecer à RIE pela oportunidade de conversarmos sobre as obras de Kardec e ao mesmo parabenizá-los pelo trabalho permanente de divulgação do Espiritismo no Brasil e no mundo. Costumo dizer, que precisamos compreender Kardec para viver Kardec.

Bons estudos do Espiritismo segundo Kardec!


Entrevista para a Revista Internacional do Espiritismo.

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