O suicídio

Texto escrito por Sueli Lemos por ocasião do Setembro Amarelo.

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O suicídio é uma das maiores causas de morte entre os seres humanos. Estudos estatísticos relacionam como fatores comuns no suicídio os transtornos psiquiátricos, o uso abusivo de álcool ou outras substâncias, perda de emprego, problemas financeiros, términos de relacionamentos, exposição a situações de violência, trauma ou abuso, dor ou doença crônica, etc.

Esses índices significativos de suicídios, a nível mundial, provocaram a necessidade de formação específica de profissionais de saúde para encontrarem as melhores providências.

O Espiritismo nos esclarece que um dos desígnios de Deus é que nos tornemos Espíritos puros e em todas as nossas reencarnações nos aperfeiçoemos com a realização de provas, vencendo a influência da matéria, aprendendo as leis divinas e adquirindo virtudes. Por isso a vida é preciosa: ela nos dá a oportunidade de evoluirmos. E é por ser a vida preciosa que a `Providência divina dotou todos os seres inteligentes do instinto de conservação.

Entretanto, mesmo com o trabalho de médicos e instituições e à revelia do instinto de conservação, os suicídios continuam a acontecer. Por quê?

Em O Livro dos Espíritos n.o 703, os Espíritos superiores nos esclarecem que o indivíduo não deve abreviar a vida, voluntariamente, sob nenhum pretexto. Ele tem, porém, seu livre arbítrio, e ninguém pode impedi-lo de se matar, embora ele sofra sempre suas consequências.

Allan Kardec, com o auxílio dos Espíritos superiores e de comunicações recebidas de vários Espíritos que se suicidaram, realizou uma abordagem profunda sobre o suicídio, deixando registros valiosos em muitas páginas das obras fundamentais do Espiritismo, especialmente em O Livro dos Espíritos, em O Evangelho segundo o Espiritismo, em O Céu e o Inferno e nas Revistas espíritas.

Vejamos alguns textos que Kardec escreveu, iniciando com a Revista espírita (julho de 1862):

“O suicídio (…) pode ser considerado como um mal social, uma verdadeira calamidade. Ora, um mal que regularmente arrebata de três a quatro mil pessoas anualmente em um país, e que segue uma progressão ascendente, não é devido a uma causa fortuita.¹ Ele deve ter uma causa radical, o que deve chamar a atenção da ciência e a solicitude das autoridades. Em semelhante caso limitam-se a verificar o gênero de morte e o modo empregado para consumá-la, enquanto é negligenciado o elemento essencial, o único que nos poderia pôr a caminho do remédio: o motivo determinante de cada suicídio².”

Que elemento essencial é esse que a ciência negligencia? E o que seria esse motivo determinante de cada suicídio?

Iniciemos com a revelação dos Espíritos sobre os elementos da criação divina, descrita em O Livro dos Espíritos, n.o 27:

27. Há então dois elementos gerais do universo: a matéria e o espírito?

Sim, e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal.”

Vejamos a questão n.o 79 de O Livro dos Espíritos, que traz importante esclarecimento sobre a formação dos Espíritos:

79. Pois que há dois elementos gerais no universo: o elemento inteligente e o elemento material, poder-se-á dizer que os Espíritos são formados do elemento inteligente, como os corpos inertes o são do elemento material?

“Evidentemente. Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, como os corpos são a individualização do princípio material.”

Podemos deduzir das questões 27 e 79 que do elemento material deriva toda a matéria, inclusive os nossos corpos físicos, e que os Espíritos resultam do elemento inteligente. Portanto, compreendemos que o elemento essencial citado no texto da Revista espírita, acima, é o Espírito, que é negligenciado pela ciência, observação que se repete neste seguinte texto da Revista espírita (julho de 1861):

Não levando em conta o elemento espiritual, a ciência se acha impotente para resolver uma porção de fenômenos, e cai no absurdo de querer tudo atribuir ao elemento material. É sobretudo na medicina que o elemento espiritual representa um papel importante. Quando os médicos o levarem em consideração, enganar-se-ão menos do que agora. Aí terão uma luz que os guiará mais seguramente no diagnóstico e no tratamento das moléstias.”

Mas por que o acreditar na existência do Espírito faria que os médicos se enganassem menos e se colocassem em melhor posição contra o suicídio?

Vejamos por que Kardec faz esse alerta, iniciando com a seguinte e importante informação no texto Estatística de suicídios (Revista espírita, julho de 1862):

“Infelizmente, enquanto a medicina só levar em conta o elemento material, privar-se-á de todas as luzes que lhe traria o elemento espiritual, que representa um papel muito ativo num grande número de afecções.  O Espiritismo nos revela a causa primeira do suicídio. As tribulações da vida são ao mesmo tempo expiações de faltas cometidas no passado e provas para o futuro. O próprio Espírito as escolhe, com vistas ao seu adiantamento, mas pode acontecer que durante a execução da obra ache a carga muito pesada e recue antes da sua conclusão. É então que ele recorre ao suicídio, o que o retarda em vez de fazê-lo avançar.”

A doutrina espírita nos ensina que o Espírito encarnado, sob a influência da matéria, esquecido das resoluções que toma ao escolher suas provas no mundo espiritual, não consegue suportar as tribulações da vida, e a abrevia, o que prejudica a sua caminhada evolutiva.

O seguinte texto, O suicídio e a loucura (em O Evangelho segundo o Espiritismo), esclarece que ter fé na vida futura ajuda a desenvolver a razão e os sentimentos que se contrapõem ao desejo de suicidar-se, bem como orientar aqueles que se propõem em prevenir a criatura contra o suicídio:

A calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida terrestre e da confiança no futuro dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio.”

Citando esses sentimentos importantes que necessitamos para enfrentar as aflições da vida com serenidade, Kardec aponta, no texto Estatística de suicídios, as consequências que a ausência deles nos traz:

“(…) Aquele que está certo de ser infeliz por um dia e de estar melhor nos dias seguintes facilmente adquire paciência. Só se desespera se não vir um termo para os seus sofrimentos. Que é, pois, a vida humana em relação à eternidade, senão menos que um dia? Mas aquele que não acredita na eternidade; que acredita que tudo nele se acaba com o fim da vida, se estiver oprimido pelo pesar e pelo infortúnio, só vê um termo na morte. Nada mais esperando, acha naturalíssimo e mesmo muito lógico abreviar os sofrimentos pelo suicídio.”

Entender que somos Espíritos imortais em aperfeiçoamento e que as tribulações da vida podem ser consequências de vidas passadas e provas para construção de um futuro mais feliz, e por isso não devemos interrompê-la, nos desperta a esperança e nos dá força para suportar as dificuldades com paciência e fé. Esse entendimento fornece um vasto caminho a ser explorado e trabalhado com objetivo na prevenção ao suicídio.

Em O suicídio e a loucura, encontramos os motivos que mais incitam aqueles que não se entendem como Espíritos imortais a recorrerem ao suicídio, alimentando a ilusão de se livrarem dos sofrimentos que os acometem:

A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio; ocasionam a covardia moral.”

Portanto, aquele que é materialista, que não crê que já viveu outras vidas, que suas tribulações são expiações ou provas e que não crê na vida futura, não compreende que o suicídio só retarda seu progresso, sua felicidade, demorando-se nas provas e nas vidas em mundos inferiores de provas e expiações.

Sobre as ideias materialistas, Kardec alerta para a responsabilidade dos que as propagam:

A propagação das ideias materialistas é, pois, o veneno que inocula em muitos a ideia do suicídio, e os que se tornam seus apóstolos assumem uma terrível responsabilidade. Contra isso talvez objetem que nem todos os suicidas são materialistas, de vez que há pessoas que se matam visando a ir mais depressa para o céu e outras para unirem-se mais cedo aos que elas amaram. É verdade, mas é, incontestavelmente, o menor número.”

Passemos agora ao esclarecimento dos Espíritos superiores acerca de alguns motivos particulares que levam a criatura a suicidar-se:

1. DESGOSTO DA VIDA.

O desgosto pela vida se apresenta de forma generalizada naqueles que recorrerem ao suicídio. Vejamos o que os Espíritos nos disseram ao responderem à questão 945 de O Livro dos Espíritos:

945. Que se deve pensar do suicídio que tem como causa o desgosto da vida?

“Insensatos! Por que não trabalhavam? A existência não lhes teria sido tão pesada.”

Por que trabalhar seria solução para que o homem suportasse melhor a existência?

Allan Kardec discorre sobre esse assunto no livro O Céu e o Inferno, cap. III:

O progresso, entre os Espíritos, é fruto de seu próprio trabalho; mas, como eles são livres, trabalham em seu próprio avanço com mais ou menos atividade ou negligência, segundo sua vontade; apressam assim ou retardam seu progresso, e em consequência sua felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, outros ficam estagnados por longos séculos nas posições inferiores. São, portanto, os próprios artífices de sua situação, feliz ou infeliz, segundo esta máxima do Cristo: A cada um segundo suas obras!

E por que a não realização de trabalho pode levar ao desgosto da vida?

A questão 943 amplia esse entendimento:

943. De onde nasce o desgosto da vida, que, sem motivos plausíveis, se apodera de certos indivíduos?

“Efeito da ociosidade, da falta de fé e, não raro, da saciedade.

Para aquele que usa de suas faculdades com fim útil e de acordo com as suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente. Ele lhe suporta as vicissitudes com tanto mais paciência e resignação, quanto obra com o fito da felicidade mais sólida e mais durável que o espera.”

Já tratamos neste texto das consequências da falta de fé. Vejamos agora o suicídio causado pela saciedade e a ociosidade, em Estatística de suicídios:

O desgosto da vida o mais das vezes é fruto da saciedade. O homem que tudo usou, não vendo nada além, está na situação do bêbado que, tendo esvaziado a garrafa e nada mais nela encontrando, a quebra.

Os abusos e os excessos de toda sorte conduzem forçosamente a um enfraquecimento e a uma perturbação das funções vitais. Daí uma porção de doenças cuja fonte é desconhecida, que são julgadas causativas, quando são consecutivas. Daí também uma sensação de langor e de falta de coragem.”

Muito importante essa informação! Alerta-nos a que o suicídio pode ser causado pelo mal que fazemos ao organismo físico.

Os Espíritos deixam esse alerta, ainda mais evidente, no relato intitulado O pai e o recruta, em O Céu e o Inferno, onde se lê:

“O suicídio não consiste somente no ato voluntário que produz a morte instantânea; ele consiste também em tudo o que se faz com conhecimento de causa e que pode apressar prematuramente a extinção das forças vitais.”

Podemos entender pelas respostas acima que o trabalho é o instrumento de progresso do Espírito. O trabalho possibilita o conhecimento das coisas, o aprendizado das leis de Deus, desenvolvendo a inteligência e o consequente progresso da criatura. Sem o trabalho, físico ou mental, o Espírito sofre pela ociosidade, o que pode levá-lo a sentir desgosto pela vida.

No livro O Céu e o Inferno encontramos, na sua segunda parte, diversas comunicações de Espíritos agrupadas pelos estados de felicidade e de infelicidade que se apresentaram da vida espiritual. Um desses grupos se refere aos suicidas. É neste grupo dos suicidas que indicamos alguns casos para leitura, trazendo depoimentos de alguns Espíritos que se mataram por desgosto e falta de fé: Um ateu, Joseph Maître, o cego³, O suicida da samaritana.

2. FUGA DAS PROVAS.

As provas são o meio pelo qual Deus nos faculta progredir até atingirmos o estado de Espírito puro ou perfeito. Errar nas provas nos leva a situações de expiação, que são as oportunidades de aprender onde erramos, em circunstâncias apropriadas às nossas reencarnações. Porém, às vezes o homem não consegue suportar o sofrimento que a prova ou expiação lhe causa e, coberto pelo véu do esquecimento e sem atentar para a voz da consciência, ele recorre ao ato extremo do suicídio. Vejamos a questão 946:

946. E do suicídio cujo fim é fugir, aquele que o comete, às misérias e às decepções deste mundo?

“Pobres Espíritos, que não têm a coragem de suportar as misérias da existência! Deus ajuda aos que sofrem e não aos que carecem de força e de coragem.”

Também podemos encontrar no texto Estatística de suicídios:

“As tribulações da vida são ao mesmo tempo expiações de faltas cometidas no passado e provas para o futuro. O próprio Espírito as escolhe, com vistas ao seu adiantamento, mas pode acontecer que durante a execução da obra ache a carga muito pesada e recue antes da sua conclusão. É então que ele recorre ao suicídio, o que o retarda em vez de fazê-lo avançar.”

Indicação de leitura: Sr. Félicien, Alfred Leroy, François-Simon Louvet, Duplo suicídio por amor e por dever, Joseph Maître.

3.      DESESPERANÇA, VERGONHA E ORGULHO.

Na questão n.o 947, os Espíritos também tratam daqueles que se matam por não suportarem situações que seu orgulho não aceita, considerando humilhante viver:

947. Pode ser considerado suicida aquele que, a braços com a maior penúria, se deixa morrer de desesperança?

“É um suicídio, mas os que lhe foram causa, ou que teriam podido impedi-lo, são mais culpados do que ele, a quem a indulgência espera. Todavia, não penseis que seja totalmente absolvido, se lhe faltaram firmeza e perseverança e se não usou de toda a sua inteligência para sair do atoleiro. Ai dele, sobretudo, se o seu desespero nasce do orgulho. Quero dizer: se for um desses homens em quem o orgulho anula os recursos da inteligência, que corariam por dever a existência ao trabalho de suas mãos e que preferem morrer de fome a renunciar ao que chamam sua posição social!”

A vergonha é citada pelos Espíritos como motivo particular que pode incitar ao suicídio. Esse sentimento pode ser motivado em relação a si mesmo ou para isentar entes queridos da vergonha que ele pode causar. Vejamos o que nos diz a questão 948:

948. É tão reprovável, como o que tem por causa o desespero, o suicídio daquele que procura escapar à vergonha de uma ação má?

O suicídio não apaga a falta. Ao contrário, em vez de uma, haverá duas. Quando se teve a coragem de praticar o mal, é preciso ter-se a de lhe sofrer as consequências. Deus, que julga, pode, conforme a causa, abrandar os rigores de sua justiça.”

E na questão 949:

949. Será desculpável o suicídio quando tenha por fim obstar a que a vergonha caia sobre os filhos, ou sobre a família?

“O que assim procede não faz bem. Mas, como pensa que o faz, Deus lhe leva isso em conta, pois que é uma expiação que ele se impõe a si mesmo. A intenção lhe atenua a falta; entretanto, nem por isso deixa de haver falta. Ademais, eliminai da vossa sociedade os abusos e os preconceitos e deixará de haver desses suicídios.”

Algumas vezes a indiferença e o egoísmo de uma sociedade podem estimular o homem a sentir vergonha de si mesmo e provocar o desgosto pela existência. Aqueles que poderiam tê-lo ajudado e não o fizeram, levando a criatura ao ato extremo de suicidar-se, terão sua parcela de culpa a expiar. Vejamos o ensinamento dos Espíritos:

946. a)  Os que hajam conduzido o desgraçado a esse ato de desespero sofrerão as consequências de tal proceder?

“Oh! Esses, ai deles! Responderão como por um assassínio.”

Indicação de leitura: Alfred Leroy, O padeiro desumano,  Um drama íntimo, Louis e a costureira de botinas.

4. POR SACRIFÍCIO A OUTRAS PESSOAS.

Existem situações em que sentimentos de amor por alguém ou por um ideal levam a criatura a sacrificar a própria vida. Seria esse ato considerado como suicídio? A questão 951 nos traz essa resposta:

951. Não é, às vezes, meritório o sacrifício da vida, quando aquele que o faz visa a salvar a de outrem, ou ser útil aos seus semelhantes?

“Isso é sublime, conforme a intenção, e, em tal caso, o sacrifício da vida não constitui suicídio. Mas Deus se opõe a todo sacrifício inútil, e não o pode ver de bom grado se tem o orgulho a manchá-lo. Só o desinteresse torna meritório o sacrifício e, algumas vezes, quem o faz guarda oculto um pensamento, que lhe diminui o valor aos olhos de Deus.”

Indicação de leitura: O suicida da rua Quincampoix, O padeiro desumano.

5. SER DOMINADO PELAS PAIXÕES.

Vejamos, na questão 908, o que os Espíritos nos dizem a respeito da criatura que perde o domínio das paixões:

“Uma paixão se torna perigosa a partir do momento em que deixais de poder governá-la, e que dá em resultado um prejuízo qualquer para vós mesmos ou para outrem.”

E Kardec completa:

“Todas as paixões têm seu princípio num sentimento ou necessidade natural. (…) A paixão propriamente dita é a exageração de uma necessidade ou de um sentimento. Está no excesso e não na causa, e este excesso se torna um mal quando tem como consequência um mal qualquer.”

O mal que esse desgoverno causa pode afetar a saúde física e mental da criatura, debilitando-a, e até causar-lhe a morte. Resta saber se essa morte pode ser considerada um suicídio. Vejamos o que está escrito na questão 952:

952. Comete suicídio o homem que perece vítima de paixões que ele sabia lhe haviam de apressar o fim, porém a que já não podia resistir, por havê-las o hábito mudado em verdadeiras necessidades físicas?

“É um suicídio moral. Não percebeis que, nesse caso, o homem é duplamente culpado? Há nele então falta de coragem e bestialidade, acrescidas do esquecimento de Deus.”

— Tal homem será mais, ou menos, culpado do que o que tira a si mesmo a vida por desespero?

“É mais culpado, porque tem tempo de refletir sobre o seu suicídio. Naquele que o faz instantaneamente, há, muitas vezes, uma espécie de desvairamento, que alguma coisa tem da loucura. O outro será muito mais punido, visto que as penas são sempre proporcionais à consciência que o culpado tem das faltas que comete.”

Indicação de leitura: Maximiliano V…, de doze anos, suicida-se por amor; Louis e a costureira de botinas.

6. PARA SE ENCONTRAR COM ENTES QUERIDOS JÁ MORTOS.

A vida no mundo espiritual é apropriada a cada Espírito, conforme a evolução que possua, consequência dos seus acertos e erros nas provas da existência. Aquele que pratica o suicídio para poder se encontrar com um ente querido já morto, pode sofrer exatamente o efeito oposto, por longo tempo. A justiça divina atua sempre com precisão e pode impedir esse encontro, por punição ao erro cometido. Os Espíritos respondem a esse respeito na questão 956:

956. Alcançam o fim objetivado aqueles que, não podendo conformar-se com a perda de pessoas que lhes eram caras, se matam na esperança de ir juntar-lhes?

“Muito diferente do que esperam é o resultado que colhem. Em vez de se reunirem ao que era objeto de suas afeições, dele se afastam por mais longo tempo, pois não é possível que Deus recompense um ato de covardia e o insulto que lhe fazem com o duvidarem da sua providência. Pagarão esse instante de loucura com aflições maiores do que as que pensaram abreviar e não terão, para compensá-las, a satisfação que esperavam.”

Indicação de leitura:  Suicídio do Sr. Léon L…Uma mãe e seu filho.

7. PARA APRESSAR A MORTE PRÓXIMA.

Essa situação também foi abordada por Kardec na questão 953:

953. Quando uma pessoa vê diante de si um fim inevitável e horrível, será culpada se abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos, apressando voluntariamente sua morte?

“É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a existência. E quem poderá estar certo de que, malgrado as aparências, esse termo tenha chegado; de que um socorro inesperado não venha no último momento?”

— Concebe-se que, nas circunstâncias ordinárias, o suicídio seja condenável; mas estamos figurando o caso em que a morte é inevitável, e em que a vida só é encurtada de alguns instantes.

“É sempre uma falta de resignação e de submissão à vontade do Criador.”

— Quais, nesse caso, as consequências de tal ato?

“Uma expiação proporcional, como sempre, à gravidade da falta, de acordo com as circunstâncias.”

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, Kardec aborda as aflições humanas e questiona aos Espíritos se é justo apressar a morte de alguém que sofre sem esperança de cura, o que designamos por “eutanásia”. Vejamos:

Um homem está agonizante, presa de cruéis sofrimentos. Sabe-se que seu estado é desesperador. Será lícito pouparem-se-lhe alguns instantes de angústias, apressando-se-lhe o fim?

“Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode ele conduzir o homem até à borda do fosso, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e alimentar ideias diversas das que tinha? Ainda que haja chegado ao último extremo um moribundo, ninguém pode afirmar com segurança que lhe haja soado a hora derradeira. A ciência não se terá enganado nunca em suas previsões?

“Sei bem haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde, existe a possibilidade, atestada por inúmeros exemplos, de o doente, no momento mesmo de exalar o último suspiro, reanimar-se e recobrar por alguns instantes as faculdades! Pois bem: essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de grande importância. Desconheceis as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um relâmpago de arrependimento.”

Tirar a vida de alguém ou suicidar-se por saber da morte próxima, pensando em se subtrair ao sofrimento, é contrariar as leis de Deus, pois o Espírito pode ter verdadeiros ganhos morais em seus momentos finais, que serão importantes para sua existência espiritual.

8. POR OBSESSÃO.

O suicídio que é motivado por uma obsessão é particularmente difícil de entender por suscitar ideia de injustiça e por assustar diante da vulnerabilidade a que possamos estar expostos, como se estivéssemos passíveis de sofrer essa influência sem qualquer defesa. Foi para esclarecer essa situação que Allan Kardec perguntou aos Espíritos:

6. Um Espírito obsessor pode realmente impelir ao suicídio?

“Seguramente, pois a obsessão que, em si mesma, é um gênero de prova, pode revestir todas as formas; mas não é uma desculpa. O homem tem sempre seu livre arbítrio, e, por conseguinte, é livre para ceder ou resistir às sugestões das quais é alvo; quando sucumbe é sempre pelo fato da sua vontade. (…) Aquele que comete o mal por instigação de um outro é menos repreensível e menos punido do que quando o comete por seu próprio movimento; mas não é inocentado, porque, a partir do momento em que se deixa desviar do caminho reto, é porque o bem não está suficientemente enraizado nele.”

Sabemos que todo homem possui um anjo guardião que tem a missão de protegê-lo. Nesses casos extremos em que um Espírito obsessor pode levar a criatura a suicidar-se, por que o anjo guardião não o impede? Essa resposta está no Código penal da vida futura, no livro O Céu e o Inferno:

“20.o (…) Todos têm seu anjo guardião que vela por eles, espia os movimentos de sua alma e esforça-se para suscitar neles bons pensamentos, o desejo de progredir e de reparar, numa nova existência, o mal que fizeram. Contudo o guia protetor age quase sempre de maneira oculta, sem exercer nenhuma pressão. O Espírito deve aperfeiçoar-se pelo fato de sua própria vontade, e não em decorrência de qualquer coerção. Ele age bem ou mal em virtude de seu livre arbítrio, mas sem ser fatalmente impelido num sentido ou noutro.”

Indicação de leitura: Antoine Bell, Suicídio por obsessão.

9. POR LOUCURA.

Um homem que é considerado louco pode suicidar-se sem saber que está provocando a própria morte?  Vejamos a resposta dos Espíritos na questão 944 de O Livro dos Espíritos:

944. Não é sempre voluntário o suicídio?

“O louco que se mata não sabe o que faz.”

Ampliamos esse entendimento do texto Estatística de suicídios:

“Incontestavelmente há suicídios por monomania, realizados fora do domínio da razão, como, por exemplo, os que ocorrem na loucura, nas febres altas, na embriaguez. Nestes a causa é puramente fisiológica. Mas, ao lado desses está a categoria muito mais numerosa dos suicídios voluntários, executados com premeditação e pleno conhecimento de causa.”

Kardec traz um esclarecimento importante a respeito da loucura e do suicídio, logo na introdução de O Livro dos Espíritos, item XV, considerando “loucura” o estado mental alterado da criatura:

“Entre as causas mais comuns de sobre-excitação cerebral, devem contar-se as decepções, os infortúnios, as afeições contrariadas, que, ao mesmo tempo, são as causas mais frequentes de suicídio.”

Indicação de leitura: Uma semente de loucura, O Sr. Morisson, monomaníaco.

10. POR REMORSO.

Por ocasião de erros cometidos, a criatura pode levar-se a um estado tal de remorso, que, não suportando mais viver com a culpa, e pensando livrar-se do sofrimento, pode interromper a vida, suicidando-se. Segue um exemplo que Kardec inseriu na Revista espírita de dezembro de 1859:

Indicação de leitura: Dirkse Lammers.

11. POR RISCO IMPRUDENTE.

Kardec também pergunta aos Espíritos sobre aqueles que podem morrer por executar alguma ação imprudente, conforme a questão 954:

954. Será condenável uma imprudência que compromete a vida sem necessidade?

“Não há culpabilidade quando não há intenção ou consciência clara da prática do mal.”

Fica a reflexão para o caso de quando se tem consciência de que determinadas ações podem causar a morte, como certos esportes muito radicais, em que se desafia as leis físicas da natureza, de forma insegura e sem a perícia necessária.

12. POR IMAGINAR OBEDECER A UM DEVER.

Os Espíritos trazem na questão 955 uma triste realidade ainda existente em alguns lugares do nosso planeta:

955. Podem ser consideradas suicidas, e sofrem as consequências de um suicídio, as mulheres que, em certos países, se queimam voluntariamente sobre os corpos dos maridos?

“Obedecem a um preconceito e, muitas vezes, agem mais à força do que por vontade própria. Julgam cumprir um dever, e esse não é o caráter do suicídio. Encontram desculpa na nulidade moral que as caracteriza, na sua maioria, e na ignorância em que se acham. Esses usos bárbaros e estúpidos desaparecem com o advento da civilização.”

13. POR IMAGINAR QUE TERÁ UMA VIDA MELHOR.

Embora muitos se suicidem por imaginarem findar o sofrimento pelo qual passam, por não crerem na vida futura, existem aqueles que sabem da imortalidade da alma, mas desconhecem as leis divinas que regem a vida do Espírito no que se refere aos seus erros e acertos no caminho de evolução. Eles acreditam em certos dogmas e avaliam que, tendo feito o bem durante a vida, irão para alguma espécie de paraíso eterno.

Vejamos o que os Espíritos nos dizem a esse respeito, na questão 950:

950. Que pensar daquele que se mata na esperança de chegar mais depressa a uma vida melhor?

“Outra loucura! Que faça o bem e mais certo estará de lá chegar, pois, matando-se, retarda a sua entrada num mundo melhor e terá que pedir lhe seja permitido voltar, para concluir a vida a que pôs termo sob o influxo de uma ideia falsa. Uma falta, seja qual for, jamais abre a ninguém o santuário dos eleitos.”

Vejamos agora o que acontece aos suicidas no mundo espiritual:

CONSEQUÊNCIAS PARA O SUICIDA:

Existe uma ideia corriqueira entre os espíritas de que todos os suicidas têm a mesma sorte, a mesma destinação. Vejamos o que realmente acontece com os que provocam a própria morte, explicado pelos Espíritos superiores na questão 957:

Muito diversas são as consequências do suicídio. Não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem sempre às causas que o produziram. Há, porém, uma consequência a que o suicida não pode escapar: o desapontamento. Mas, a sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam a falta imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.”

Muito importante esse esclarecimento. Os Espíritos são precisos ao informar que as penas dos suicidas correspondem às causas que o provocaram e que dependem das circunstâncias.

Já vimos nesse estudo algumas das diversas causas particulares que levam indivíduos a cometerem suicídio e, nos casos indicados para leitura, percebemos que a situação de cada um é específica, pois as leis divinas levam em consideração não apenas a natureza da morte, mas a intenção de cada um.

Continuando na questão 957:

A observação, realmente, mostra que os efeitos do suicídio não são sempre os mesmos. Alguns há, porém, comuns a todos os casos de morte violenta e que são a consequência da interrupção brusca da vida.”

Continuando a leitura dessa questão, temos Kardec fazendo as seguintes observações sobre esses efeitos, que são comuns a todas as mortes violentas, inclusive a dos suicidas:

Primeiro efeito: Quanto ao desligamento do perispírito, que une o Espírito ao corpo físico.

“Há, primeiro, a persistência mais prolongada e tenaz do laço que une o Espírito ao corpo4, por estar quase sempre esse laço na plenitude da sua força no momento em que é partido, ao passo que no caso de morte natural ele se enfraquece gradualmente, e muitas vezes se desfaz antes que a vida se haja extinguido completamente. As consequências desse estado de coisas são o prolongamento da perturbação que se segue à morte e da ilusão em que, durante mais ou menos tempo, o Espírito acredita ainda pertencer ao número dos vivos.”

Segundo efeito: O ressentimento, no Espírito, da decomposição do corpo.

 “A afinidade que permanece entre o Espírito e o corpo produz, nalguns suicidas, uma espécie de repercussão do estado do corpo no Espírito, que, assim, a seu malgrado, sente os efeitos da decomposição, donde lhe resulta uma sensação cheia de angústias e de horror, estado esse que pode perdurar pelo tempo que devia durar a vida que sofreu interrupção. Não é geral este efeito; mas em nenhum caso o suicida fica isento das consequências da sua falta de coragem e, cedo ou tarde, expia, de um modo ou de outro, a culpa em que incorreu.”

Terceiro efeito: A interdição a mundos melhores.

“Em alguns, verifica-se uma espécie de ligação à matéria, de que inutilmente procuram desembaraçar-se, a fim de voarem para mundos melhores, cujo acesso, porém, se lhes conserva interdito. A maior parte deles sofre o pesar de haver feito uma coisa inútil, pois que só decepções encontram.”

No primeiro efeito percebemos a referência sobre o Espírito acreditar que ainda está vivo. Assim relata no caso do Suicida da Samaritana:

“Essa ilusão é sempre mais ou menos penosa, porque nunca é completa, e deixa o Espírito numa certa ansiedade. No exemplo precedente, ela é um verdadeiro suplício pela sensação dos vermes que roem o corpo, e pela sua duração que deve ser a que teria tido a vida desse homem se ele não a tivesse abreviado. Esse estado é frequente nos suicidas, mas nem sempre se apresenta em condições idênticas; varia sobretudo na duração e na intensidade segundo as circunstâncias agravantes ou atenuantes da falta. Ela é frequente entre aqueles que viveram mais da vida material do que da vida espiritual. Em princípio, não há falta sem punição; mas não há regra uniforme e absoluta nos meios de punição.”

Mesmo sendo um estado frequente nos suicidas, nem todos se imaginam vivos após cometerem o suicídio, e, para exemplificar, indicamos a leitura do relato Uma mãe e seu filho, que nos permite perceber a sabedoria da justiça divina, que considera o erro conforme a natureza da falta e o grau da intenção que a causou. Segue o comentário de Kardec sobre este relato:

“Observação: A morte, mesmo pelo suicídio, não produziu neste Espírito a ilusão de acreditar que ainda estava vivo; ele tem perfeitamente consciência de seu estado; é que em outros a punição consiste justamente nessa ilusão, nos laços que os prendem ao corpo. Esta mulher quis deixar a terra para seguir o filho no mundo em que ele entrara: era preciso que ela soubesse que estava nesse mundo para ser punida não o reencontrando ali. Sua punição é precisamente saber que não vive mais corporalmente, e o conhecimento que tem de sua situação. É assim que cada falta é punida pelas circunstâncias que a acompanham, e não há punições uniformes e constantes para as faltas do mesmo gênero.”

Já que os efeitos sofridos pelo suicida variam conforme a intenção, existe algum que seja mais culpável? Esta pergunta é respondida no livro O Céu e o Inferno — O pai e o recruta:

O suicídio mais severamente punido é aquele que é realizado por desespero, e com vistas a se libertar das misérias da vida; sendo essas misérias simultaneamente provas e expiações, subtrair-se a elas é recuar diante da tarefa que se aceitara, às vezes mesmo diante da missão que se devia cumprir.”

O ato de suicidar-se impõe ao Espírito expiações imediatas no mundo espiritual, como as que acabamos de mencionar, e depois durante a vida corporal. Quando encarnado, o Espírito precisará suportar a expiação para vencer o motivo pelo qual se suicidou, além de poder lidar também contra a tendência ao suicídio. Kardec assim conclui no texto Estatística de suicídios:

“Um Espírito suicidou-se em precedente encarnação, e como expiação é-lhe imposto, na seguinte, lutar contra a tendência ao suicídio. Se for vitorioso, progride. Se sucumbir, terá que recomeçar uma vida talvez mais penosa ainda que a precedente, e assim deverá lutar até que haja triunfado, pois toda recompensa na outra vida é fruto de uma vitória, e quem diz vitória, diz luta.”

O ESPIRITISMO DÁ A CORAGEM MORAL

Ainda no texto sobre Estatística de suicídios, encontramos:

O Espiritismo não só vem confirmar a teoria da vida futura, mas a prova pelos fatos mais patentes que se possam apresentar: o testemunho daqueles que nela se acham. (…) Para o crente, a vida se prolonga indefinidamente para além do túmulo. Daí a paciência e a resignação que naturalmente desviam a ideia de suicídio; daí, numa palavra, a coragem moral.

Sob esse aspecto tem ainda o Espiritismo outro resultado muito positivo, e talvez mais determinante. Bem diz a religião que o suicídio é um pecado mortal, pelo qual se é punido. Mas como? Pelas chamas eternas, nas quais não mais se acredita?

O Espiritismo nos mostra os suicidas em pessoa, vindo dar conta de sua posição infeliz, mas com a diferença que as penas variam conforme as circunstâncias agravantes ou atenuantes, o que é mais conforme à justiça divina.

O espírita tem vários elementos inconciliáveis com a ideia do suicídio:

  1. A certeza de uma vida futura, na qual sabe que será tanto mais feliz quanto mais infeliz e resignado tiver sido na Terra;
  2. A certeza de que, abreviando a vida, chegaria a um resultado absolutamente oposto ao que esperava;
  3. Que ele desviaria de uma situação ruim para chegar a outra pior;
  4. Que não poderia rever no outro mundo os objetos de suas afeições.”

Se todos soubessem que a morte é apenas o abandono do corpo material e que continuamos a viver, colhendo na vida futura os frutos das nossas ações do presente, jamais cederíamos à ideia do suicídio, porque entenderíamos que necessitamos viver, com resignação e obediência às leis de Deus.


¹ Kardec informa, na Revista espírita de julho de 1859, que na França, “segundo a última estatística que vimos no correr do ano de 1859, 3.899 pessoas se mataram, a saber, 3.057 homens e 842 mulheres”.

² Todos os grifos são nossos

³ A indicação de uma leitura pode se repetir em mais de um tópico, por estarem os motivos do suicídio relacionados entre si.

4 Laço = perispírito (corpo espiritual).

Palavras-chaves: Suicídio, Instinto de conservação, Materialismo, Desgosto pela vida, Desespero, Expiação, Eutanásia.

Fonte de pesquisa: http://kardecpedia.com

Indicação de estudo: https://kardecplay.net/pt/video/150-desgosto-da-vida-suicidio-parte-1 e https://kardecplay.net/pt/video/151-desgosto-da-vida-suicidio-parte-2


Texto escrito por Sueli Lemos Lima, Engenheira Civil, voluntária no Centro Espírita Paulo e Estevão, em Salvador/BA, e participante do Grupo de Estudos do IDEAK.

“Agradeço em especial ao IDEAK que criou e disponibilizou a maravilhosa ferramenta KARDECPEDIA, que facilitou imensamente o trabalho de estudo e pesquisa nas obras de Kardec. Sem ela, esse trabalho duraria bem mais tempo e talvez não possuísse todas as referências citadas. Agradeço, sobretudo, ao professor Cosme Massi, que me ajuda constantemente a estudar a obra incomparável de Allan Kardec.”