perda de pessoas

Mamãe, aqui estou! Texto por Solange Monteiro Carneiro

Texto escrito por Solange Monteiro de T. P. G. Carneiro.

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A perda de pessoas que amamos pode ser, independente da crença religiosa, motivo de dor, de sofrimento, de pesar e solidão causados pela ausência do ser querido. 

Comentam os Espíritos na questão 934 de “O Livro dos Espíritos” que essa dor atinge indistintamente todos os seres humanos, mas lembram que existe a possibilidade de um consolo enorme: comunicar-se com a pessoa amada através de uma mediunidade equilibrada e exercida com amor e abnegação ao próximo. E o Espiritismo possibilita isso.

Neste assunto como em outros, o Espiritismo é imensa fonte de consolo e fortaleza moral, pois seu adepto adquire a certeza da imortalidade da alma, o que consolida a confiança de que, em mais tempo ou menos tempo, ocorrerá o reencontro com a pessoa querida que o precedeu na ‘grande viagem’ de regresso à Pátria Espiritual. 

Falamos acima da possibilidade de receber notícias do ser amado através da mediunidade, e isso é um fato racionalmente incontestável desde o advento do “Livro dos Espíritos”. E a bênção de uma mensagem do ser amado através da comunicação mediúnica é motivo de imensa gratidão dos familiares que permaneceram no mundo material. Mas, ao mesmo tempo é interessante notar que aquele que crê realmente na sobrevivência do Espírito à morte do corpo tem esse mesmo consolo, sem a necessidade da comunicação.

Já foram muito frequentes as taxações dessas comunicações como profanações, a que os Espíritos Codificadores replicam, na questão 935 da mesma obra, que é um erro esse juízo, desde que “a evocação seja praticada com respeito e conveniência. A prova de que assim é tendes no fato de que os Espíritos que vos consagram afeição acodem com prazer ao vosso chamado. Sentem-se felizes por vos lembrardes deles e por se comunicarem convosco. Haveria profanação se isso fosse feito levianamente.” 

Embora essa comunicação com o além-túmulo possa aliviar imensamente a dor dos familiares e amigos, é mesmo preferível que aqueles que se mantêm encarnados busquem a resignação ao invés de permanecerem em sofrimento. De fato, sabemos que as dores desarrazoadas e inconsoláveis daqueles que aqui ficaram tocam penosamente aos seres queridos desencarnados, que veem, nessa dor excessiva, falta de fé no futuro e de confiança em Deus, “e, por conseguinte, um obstáculo ao adiantamento dos que o choram e, talvez, à sua reunião com eles” (O Livro dos Espíritos, questão 936).

Se o conhecimento espírita, colocado ao alcance de todos através das obras de Allan Kardec, fosse de fato compreendido pelas pessoas, o momento de desespero que muitos enfrentam ao se despedirem de alguém passaria a ser um “até logo”, com pesar, mas sem sofrimento desmedido. Ressalta Kardec no livro “O que é o Espiritismo”, que  “Estas respostas e todas as relativas à situação da alma depois da morte ou durante a vida não são o resultado de uma teoria ou de um sistema, mas de estudos diretos feitos sobre milhares de indivíduos, observados em todas as fases e períodos da sua existência espiritual, desde o mais baixo ao mais alto grau da escala, segundo seus hábitos durante a vida terrena, gênero de morte etc.” O Codificador da doutrina espírita explica que são justamente os Espíritos, seres inteligentes da criação, que vêm nos instruir, “e Deus o permite hoje, mais que em nenhuma outra época, como último aviso à incredulidade e ao materialismo(grifo nosso). 

O leitor curioso poderá encontrar amplo material de estudos sobre o tema nos links citados ao final do texto, encontrando respostas a perguntas como, por exemplo: “Encontra a alma no mundo dos Espíritos os parentes que ali a precederam? ”; ou “Qual, na outra vida, o estado intelectual e moral da alma da criança morta em tenra idade? Suas faculdades conservam-se na infância, como durante a vida?”; ou “Progridem as almas, intelectualmente, depois da morte?”; ou ainda “Qual, na vida futura, a sorte das crianças que morrem em tenra idade?”.

Nossa ideia ao trazer este tema é instigar o leitor a se lançar ao desafio de pesquisar, sem medo e sem preconceito, a vida que está reservada após a desencarnação a cada um de nós, sempre segundo a máxima de Jesus: “a cada um, segundo as suas obras”. Cabe ressaltar que por “nossas obras” devemos entender as nossas conquistas espirituais, pois, como explica Allan Kardec em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, capítulo XVII, “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”. 

No texto abaixo, publicado por Allan Kardec na Revista Espírita de janeiro de 1858, vemos a comovente descrição de uma conversa entre mãe e filha, através da psicografia abençoada de uma médium. Alguns pontos que comprovam a identidade do Espírito comunicante merecem destaque:

  1. A filha, Júlia, se comunica e fala o apelido que só a família conhecia e que era usado na sua infância. Chama a atenção da mãe para que esta observe a letra da mensagem que escreve pela médium, demonstrando que a letra era dela mesma, Júlia;
  2. O Espírito Júlia relata à mãe que mantém a mesma aparência, e que tem conversado com esta durante seu sono. A Sra…., mãe de Júlia confirma que se lembra de encontrá-la em seus sonhos;
  3. A filha pede que a mãe tome cuidado com o tal de Sr. Z…, conhecido apenas da mãe, e que tanto Kardec quanto a médium não conheciam.

Mamãe, estou aqui.

A Sra… havia perdido, meses antes, a filha única, de catorze anos, objeto de toda a sua ternura e muito digna de seus lamentos, pelas qualidades que prometiam torná-la uma senhora perfeita. A moça falecera de longa e dolorosa enfermidade. Inconsolável com a perda, dia a dia a mãe via sua saúde alterar-se e repetia incessantemente que em breve iria reunir-se à filha. Informada da possibilidade de se comunicar com os seres de Além-Túmulo, a Sra… resolveu procurar, na conversa com a filha, um alívio para a sua pena. Uma senhora de seu conhecimento era médium, mas pouco afeitas uma e outra a semelhantes evocações, principalmente numa circunstância tão solene, pediram-me assistência. Éramos apenas três: a mãe, a médium e eu. Eis o resultado dessa primeira sessão.

A mãe: Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito de Júlia, minha filha querida, peço-te que venhas, se Deus o permitir.

Júlia: Mamãe, aqui estou!

A mãe: És tu, minha filha, que me respondes? Como posso saber que és tu?

Júlia: Lili. (Era o apelido familiar, dado à moça em sua infância. Nem a médium o sabia, nem eu, pois há muitos anos só a chamam Júlia. Com este sinal, a identidade era evidente. Não podendo dominar sua emoção, a mãe rompeu em soluços). 

Júlia: Mãe, por que te afliges? Sou feliz, muito feliz. Não sofro mais e vejo-te sempre.

A mãe: Mas eu não te vejo! Onde estás?

Júlia: Aqui ao teu lado, com a minha mão sobre a Sra. X (a médium) para que escreva o que te digo. Vê a minha letra (a letra era realmente a da moça).

A mãe: Dizes: minha mão. Então tens corpo?

Júlia: Não tenho mais o corpo que tanto me fez sofrer, mas tenho a sua aparência. Não estás contente porque não sofro mais e porque posso conversar contigo?

A mãe: Se eu te visse, te reconheceria, então?

Júlia: Sim, sem dúvida; e já me viste muitas vezes em teus sonhos.

A mãe: Com efeito, eu te revi nos meus sonhos, mas pensei que fosse efeito da imaginação, uma lembrança.


Júlia: Não. Sou eu mesma que estou sempre contigo e te procuro consolar; fui eu quem te inspirou a ideia de me evocar. Tenho muitas coisas a te dizer. Desconfia do Sr. Z… Ele não é sincero.

(Esse senhor, conhecido apenas da mãe, citado assim espontaneamente, era uma nova prova de identidade do Espírito que se manifestava).

A mãe: Que pode fazer contra mim o Sr. Z?

Júlia: Não te posso dizer. Isto me é vedado. Posso apenas te advertir que desconfies dele.

A mãe: Estás entre os anjos?

Júlia: Oh! Ainda não. Não sou bastante perfeita.

A mãe: Entretanto, não te conhecia nenhum defeito. Eras boa, meiga, amorosa e benevolente para com todos. Então isto não basta?

Júlia: Para ti, mãe querida, eu não tinha defeitos, e eu o acreditava, pois mo dizias tantas vezes! Mas agora vejo o que me falta para ser perfeita.

A mãe: Como adquirirás essas qualidades que te faltam?

Júlia: Em novas existências, que serão cada vez mais felizes.

A mãe: É na Terra que terás novas existências?

Júlia: Nada sei a respeito.

A mãe: Desde que não fizeste o mal em tua vida, por que sofreste tanto?

Júlia: Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, pela minha confiança em Deus. Hoje sou muito feliz por isto. Até breve, querida mamãe!

Kardec comenta a reunião: “Ante fatos como este, quem ousará falar do nada do túmulo, quando a vida futura se nos revela, por assim dizer, palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; entre elas não há mais separação; suas almas se confundem e se expandem na intimidade espiritual, pela troca de seus pensamentos. Apesar da discrição em que envolvemos este relato, não o teríamos publicado se não tivéssemos tido autorização formal. Aquela mãe nos dizia: Possam todos quantos perderam suas afeições terrenas experimentar a mesma consolação que experimento! Acrescentaremos apenas uma palavra aos que negam a existência dos bons Espíritos. Perguntaremos como poderiam provar que o Espírito desta jovem era um demônio malfazejo!”


Texto escrito por Solange Monteiro de T. P. G. Carneiro. Engenheira agrônoma / doutora em agronomia, pesquisadora, estudiosa do Espiritismo, membro da diretoria da CEFACRI – Casa Espírita Fabiano de Cristo, em Londrina-PR e participante do Grupo de Estudos do IDEAK.

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