iniciante espirita

Iniciação espírita: 2 obras e um relato inteligente e emocionado

Realçando a importância de “O Que é o Espiritismo” e “O Espiritismo em sua mais simples expressão” para o Iniciante Espírita.

Texto escrito por Raquel Ribas Chaves de Souza.

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Começando do começo

Pode parecer desnecessário, para quem já detém um conhecimento mais sólido da obra de Kardec, realçar a importância de um iniciante começar o estudo do Espiritismo por esses livros menores em tamanho, mas não menos valiosos em conteúdo. Trata-se de uma diretriz prática para logo se obter noções essenciais dentro de um conjunto abrangente de temas. Percebi que também é uma forma didática, o que tanto prezava Allan Kardec, começando-se do mais simples, preliminar, obtendo-se uma base preparatória para, na sequência, continuar a leitura nos livros mais complexos e profundos. 

O Que é o Espiritismo” foi publicado em 1859 e “O Espiritismo em sua mais simples expressão” em 1862. Vê-se que Kardec sentiu necessidade de oferecer ao público obras resumidas, mas que contêm os principais ensinamentos do Espiritismo, o primeiro, dois anos após a publicação de O Livro dos Espíritos (1857) e o segundo um ano após ele publicar O Livro dos Médiuns (1861). 

O próprio Allan Kardec deixa essa ideia expressa já no Preâmbulo de O Que é o Espiritismo:

“As pessoas que só têm conhecimento superficial do Espiritismo são, naturalmente, inclinadas a formular certas questões, cuja solução podiam, sem dúvida, encontrar em um estudo mais aprofundado dele; porém, o tempo e, muitas vezes, a vontade lhes faltam para se entregarem a observações seguidas. Antes de empreenderem essa tarefa, muitos desejam saber, pelo menos, do que se trata e se vale a pena ocupar-se com tal coisa. Por isso, achamos útil apresentar resumidamente as respostas a algumas das principais perguntas que nos são diariamente dirigidas; isto será, para o leitor, uma primeira iniciação, e, para nós, tempo ganho sobre o que tínhamos de gastar a repetir constantemente a mesma coisa.

(…)

Estes resumos não somente são úteis aos principiantes, que neles poderão, em pouco tempo e com pouca despesa, beber as noções mais essenciais da Doutrina Espírita, senão, também, aos adeptos, pois lhes fornecem os meios para responderem às primeiras objeções que não deixarão de lhes apresentar, e, além disso, por encontrarem reunidos, em quadro restrito e sob um mesmo ponto de vista, os princípios que devem sempre estar presentes à sua memória.” (O que é o Espiritismo? > Preâmbulo) (grifos nossos).

No Terceiro Diálogo – O Padre, de O Que é o Espiritismo, há um parágrafo, no final, que também enfatiza esse primeiro contato com a teoria nas obras resumidas:

Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem sobre o Espiritismo é estudarem previamente a teoria; os fatos virão depois, naturalmente, e serão facilmente compreendidos, qualquer que seja a ordem em que as circunstâncias os façam vir. As nossas publicações são feitas no intuito de favorecer esse estudo; eis aqui a ordem que aconselhamos.

A primeira leitura a fazer-se é a deste resumo, que apresenta o conjunto e os pontos mais salientes da ciência; com isso, pois, já se pode fazer dela uma ideia e ficar-se convencido de que, no fundo, existe algo de sério. Nesta rápida exposição esforçamo-nos por indicar os pontos sobre que particularmente se deve fixar a atenção do observador. A ignorância dos princípios fundamentais é a causa das falsas apreciações da maioria daqueles que querem julgar o que não compreendem, ou que se baseiam em ideias preconcebidas.

Se desta leitura nascer o desejo de continuar, deve-se ler O Livro dos Espíritos, onde os princípios da doutrina estão completamente desenvolvidos; depois, O Livro dos Médiuns, para a parte experimental, destinado a servir de guia aos que desejarem operar por si mesmos, como aos que quiserem bem compreender os fenômenos. Vêm depois as diversas obras onde são desenvolvidas as aplicações e as consequências da doutrina, como: O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno segundo o Espiritismo, etc. (O que é o Espiritismo? >Terceiro Diálogo – O Padre) (grifos nossos).

Durante as leituras e pesquisas que fiz, todas na Kardecpedia, para salientar brevemente a relevância dessas obras como um ingresso seguro na Doutrina Espírita, encontrei na Revista Espírita de agosto de 1863 uma carta de um ex-materialista e ex-adversário do Espiritismo, Sr. Adolphe Roussel, por meio da qual Kardec rebate o suposto perigo que traria o descrédito nas penas eternas, uma da questões mais graves para mim. O autor dessa carta abre o coração e relata como a leitura do que ele chama “livrinho” modificou sua vida: 

Exemplos da ação moralizadora do Espiritismo

Para as cartas que seguem chamamos a atenção dos que pretendem que, sem o medo das penas eternas, a Humanidade não teria mais freio, e que a negação do inferno eternamente pessoal abre caminho a todas as desordens e a todas as imoralidades:

Montreuil, 23 de agosto de 1863.

“Em março último eu ainda era o que se pode dizer, com toda a força do termo, incrustado de ateísmo e de materialismo. Não poupava o chefe do grupo espírita de nossa pequena cidade, meu parente, de pilhérias e sarcasmos; até lhe aconselhava o hospício! Mas ele opunha às minhas troças uma paciência estoica.

“Ao mesmo tempo, durante a quaresma, um pregador falou do púlpito contra o Espiritismo. A circunstância excitou-me a curiosidade, pois não percebia muito bem o que a igreja poderia ter que ver com o Espiritismo. Então li o livrinho O que é o Espiritismo? prometendo a mim mesmo não ceder tão facilmente quanto o haviam feito certos materialistas convertidos, e armei-me com todas as peças, persuadido de que nada poderia destruir a força de meus argumentos, não duvidando absolutamente de uma vitória completa.

“Mas, ó prodígio! Ainda não havia chegado à página cinquenta e já havia reconhecido a inanidade de minha pobre bateria argumentativa. Durante alguns minutos fiquei como que iluminado;

uma súbita revolução operou-se em mim e eis o que eu escrevia a meu irmão a 18 de junho:

“Sim, como dizes, minha conversão foi providencial; é a Deus que devo este sinal de grande benevolência. Sim, creio em Deus, em minha alma, em sua imortalidade após a morte. Antes disso tinha como filosofia uma certa firmeza de espírito, pela qual me punha acima das tribulações e dos acidentes da vida, mas me dobrei ante as numerosas torturas morais que me haviam infringido os pretensos amigos. A amargura de tais lembranças me haviam envenenado o coração. Eu ruminava mil projetos de vingança, e se não tivesse temido para mim e para os meus a maldição pública, talvez tivesse dado aos meus projetos uma funesta execução. Mas Deus me salvou. O Espiritismo levou-me prontamente a crer nas verdades fundamentais da religião, das quais a Igreja me havia afastado pelo horrível quadro das chamas eternas e por me querer impor, como artigos de fé, dogmas que estão em manifesta contradição com os atributos infinitos de Deus. Lembro-me ainda do pavor experimentado em 1814, aos sete anos de idade, quando da leitura desta bela passagem dos Pensées chrétiennes: “E quando um danado tiver sofrido tantos anos quantos são os átomos no ar, as folhas das florestas e os grãos de areia às bordas do mar, tudo isto será contado como nada!!!” E foi a Igreja que ousou proferir semelhante blasfêmia! Que Deus lha perdoe!”

“Continuo minha carta, caro Eugênio, deixando à Igreja a propriedade do império infernal sobre a qual nada tenho a reivindicar.

“A ideia que tinha feito de minha alma foi substituída pela dada pelos Espíritos. A pluralidade dos mundos, como a pluralidade das existências, não mais constituindo dúvidas para mim, causam-me agora uma indefinível satisfação moral. A perspectiva de um nada frio e lúgubre outrora me gelava o sangue nas veias; hoje me vejo, por antecipação, habitando um desses mundos mais adiantados moralmente, intelectualmente e fisicamente que o nosso planeta, esperando atingir o estado de puro Espírito.

“Para gozar dos benefícios de Deus e deles tornar-me inteiramente digno, perdoei com solicitude aos meus inimigos, àqueles que me fizeram sofrer duras torturas morais, a todos, enfim, que me ofenderam, e abjurei qualquer pensamento de vingança. Todos os dias agradeço a Deus a alta benevolência que me testemunhou, fazendo-me rapidamente sair do mau caminho onde me haviam lançado o ateísmo e o materialismo, e lhe peço conceda o mesmo favor a todos os que, como eu, dele duvidaram e o negaram. Também lhe peço fazer que minha mulher, meus filhos, o próximo, os parentes, os amigos e os inimigos, possam gozar das doçuras do Espiritismo. Enfim, peço por todos, por todas as almas sofredoras, para que Deus lhes deixe entrever que a sua bondade infinita não lhes fechou a porta do arrependimento. Também peço a Deus o perdão de minhas faltas e a graça de praticar a caridade em toda a sua extensão.

“Assim, agora me encontro num estado de perfeita calma e tranquilidade quanto ao futuro. A ideia da morte não mais me apavora, porque tenho a convicção inabalável que minha alma sobreviverá ao meu corpo, e tenho inteira fé na vida futura. Contudo, um só pensamento me faz mal, o de abandonar na Terra seres que me são caros, com o receio de vê-los infelizes.

“Ah! Esse medo que comporta sua dor é muito natural, em face do egoísmo de que a maioria de nosso pobre mundo está impregnada. Mas Deus me compreende. Ele sabe que toda a minha confiança está depositada apenas nele. Já experimentei a felicidade de rever nossa cara Laura, em dezembro último, alguns dias após a sua morte. Certamente é um efeito antecipado de sua bondade para comigo”.

“Depois da data desta carta, meu caro senhor, meu bem-estar aumentou. Outrora a menor contrariedade me irritava. Hoje minha paciência é realmente notável, e sucedeu à violência e à impulsividade. A vitória que ela conquistou nestes dias, em prova bastante rude, vem em apoio à minha asserção. Certamente não teria sido assim em março último. É precisamente em tais circunstâncias que a Doutrina Espírita exerce sua suave influência. Os que a criticam dizem que ela está cheia de seduções, e eu não creio atenuar esse belo elogio achando-a cheia de volúpias.

“Minha volta à religião causou aqui uma surpresa, tanto maior porque eu era até agora ligado ao mais desenfreado materialismo. Por uma consequência muito lógica sou, por minha vez, vítima das troças e dos sarcasmos, mas fico insensível, e, como dizeis muito judiciosamente, tudo isto desliza sobre o verdadeiro Espiritismo, como a água sobre o mármore.

“Meu caro senhor, vou terminar minha carta, cuja prolixidade poderia vos fazer perder um tempo precioso. Aceitai a expressão de minha viva gratidão pela satisfação moral, pela esperança consoladora e pelo bem-estar que me proporcionastes.

“Continuai vossa santa missão, pois Deus vos abençoou, senhor!

“ROUSSEL (Adolphe) “Escrevente juramentado, antigo empresário de leilões. (Revista Espírita-agosto de 1863)  (grifos nossos)

Quanta transformação a leitura referida provocou nesse senhor! O abandono do materialismo, dos desejos de vingança, a conquista da fé, da tranquilidade quanto à vida futura, do perdão, da gratidão, uma verdadeira revolução em sua existência!

Também senti o poder de um bálsamo ao encontrar o bom senso e a lógica nas ideias espíritas. Como esse senhor, já nas leituras desses livros resumidos descobri um novo sentido para minha vida e pude dar os primeiros passos nessa caminhada interminável que é o estudo da Doutrina Espírita.

Nos cursos de Espiritismo na Casa Espírita em que atuo, Casa Espírita Eurípedes Barsanulfo-CEEB-Curitiba e em outras casas onde trabalhei, em outras cidades, essas duas obras, O Que é o Espiritismo e O Espiritismo em sua mais simples expressão sempre foram de grande utilidade, não só para rapidamente eu encontrar explicações resumidas para sanar dúvidas dos aprendizes, entre os quais me incluo, como para uma leitura inicial dos que, se aproximando da Doutrina Espírita, pedem indicação de livros para começarem a ter uma ideia geral. 

Como conheci o Espiritismo

Minhas primeiras leituras de obras espíritas aconteceram quando, há trinta e cinco anos, sofri graves fraturas na coluna cervical em razão de um acidente numa piscina. Na época, eu morava numa pequena rua, em São Paulo, capital, e quase todos os vizinhos iam me visitar, cada um com sua crença, religião, visão de mundo, me levando ânimo, coragem e carinho. Parentes e amigos também chegavam com palavras de conforto para me fazer companhia, conversar, sugerir leituras, uma vez que eu fiquei engessada desde a cabeça até um pouco abaixo dos quadris e tive que ficar assim por quase seis meses. Imaginem o transtorno, sem poder fazer quase nada em casa e com duas crianças pequenas! Felizmente, tive muita colaboração dos familiares e de amigos! 

Mas foi a visita de uma senhora, por quem sinto enorme gratidão, amiga da minha família, que marcou minha iniciação no Espiritismo. Nas primeiras visitas, ela me levava algumas mensagens escritas muito consoladoras. Ela me contou que era espírita, perguntou se poderia me dar passes, semanalmente, explicando o que era o passe. Prontamente concordei. Mas foi aquela concordância de quem pensava que “mal não deve fazer…”, afinal, para quem estava naquela situação, sem saber ainda quais sequelas poderiam advir das lesões, qualquer ajuda espiritual era bem-vinda. Mal sabia eu que aquele encontro, aparentemente sem grande significado, era a porta da dor se abrindo para que eu refletisse mais sobre o sentido da minha vida e encontrasse respostas convincentes às dúvidas surgidas há tanto tempo…

De origem católica, afastei-me da Igreja ainda jovem porque muitos dos meus questionamentos sobre a razão de ser da existência, em um mundo tão repleto de desigualdades e sofrimentos, não eram respondidos com argumentos satisfatórios dentro do Catolicismo. Desde aquela época de juventude, mantive minhas conversas com Deus, mas sem frequentar ou seguir qualquer religião.

Com aqueles passes que dona Eileen fazia em mim, fui aos poucos sentindo grande melhora no meu estado de espírito. Até que um dia ela apareceu me entregando dois livros: O Livro dos Espíritos e Iniciação Espírita.

Hoje eu penso: Parece que ela sabia que eu seria ávida na leitura! Folheei o primeiro e me assustei, de início, com o número de perguntas e respostas, comentários e me lembro que, ao mesmo tempo, tive vontade de começar o estudo por ele. No entanto, ao comentar essa ideia com aquela senhora tão querida, ela me aconselhou a ler primeiro o Iniciação Espírita. Disse que seria melhor para eu me familiarizar com os assuntos, com a lógica das explicações e que isso facilitaria a compreensão de O Livro dos Espíritos. 

Fiquei impressionada com a rapidez com que li e reli o livro que reúne três obras de Kardec: O Espiritismo em sua mais simples expressão, O Que é o Espiritismo e Instruções práticas sobre as manifestações espíritas. Em Iniciação Espírita, é nesta sequência que estão dispostas essas obras mais resumidas de Kardec, mas que são encontradas em publicações separadas, como vemos nas edições disponíveis na Kardec Books. As explicações que encontrei eram tudo que eu precisava para desatar os nós das minhas incompreensões sobre a vida, sua origem e seu destino, sobre a justiça de Deus, as contradições entre a teoria e a prática religiosa em que fui educada e tantas outras questões. Levaram-me, passo a passo, à fé raciocinada, a compreender o sentido da vida e à convicção de que a Doutrina Espírita é o caminho para a felicidade, por meio do entendimento da razão de ser das coisas, do porquê as coisas serem como são neste mundo.  

O pouco que eu sabia sobre Espiritismo

Algumas vezes, ainda na juventude, conversando com um tio que era espírita, ele me contava sobre reuniões de materialização, de aparição de pessoas que já tinham morrido, de vozes e outros fenômenos que então eu não entendia muito bem. Ele dizia que era possível a comunicação entre vivos e mortos. Por outro lado, minha avó materna, muito católica, tinha visões, premonições, sonhos que “se tornavam” realidade e coisas assim, mas morria de medo disso tudo e achava que estava em pecado quando esses mistérios aconteciam com ela.  Como eu não sabia bem do que se tratava e ouvia comentários de que era melhor não mexer com essas coisas, eu não me dei conta, na época, de que já estava diante da oportunidade de conhecer os ensinamentos que me fariam ter uma visão de mundo bem diferente da que eu tinha. Provavelmente, meu tio não aprofundava as respostas às minhas dúvidas, não satisfazia minha curiosidade por respeito à resistência da minha avó em compreender e aceitar como natural o que lhe acontecia. Ele me dizia que eu ainda era muito jovem e que teria bastante tempo para me inteirar desses assuntos.

Minhas dúvidas

Eu tinha dúvidas naturais de quem havia se afastado da religião por não concordar com uma série de postulados e dogmas mas que, até então, não havia encontrado um outro caminho espiritual. E esse que estava sendo vislumbrado por meio dos relatos de um tio eram ainda incipientes e misteriosos… Dúvidas que hoje estão sanadas, mas que podem ser as que surgem em muitas pessoas que atualmente procuram as Casas Espíritas e que, se não têm uma boa orientação para um estudo sério, desconfiam, ou se decepcionam e se afastam. Ou, por não verem Espíritos, se tornam mais descrentes, ou ainda seguem em busca de casas espíritas que, ao não cultivarem o estudo cuidadoso das obras de Kardec, estimulam leituras fantasiosas que deturpam os conceitos e princípios espíritas, enveredando em práticas que nada têm a ver com Espiritismo. 

Meu distanciamento da Igreja Católica, com todo o respeito aos que nela encontram o amparo espiritual, teve início quando comecei a questionar as desigualdades de todo tipo, os sofrimentos sem responsabilidade aparente dos sofredores, a riqueza material do Vaticano, das igrejas, os dogmas, a necessidade de sacramentos e muitas outras exigências que eu considerava inúteis e contraditórias.

Além disso, quando meu tio falava dos que para mim eram mortos, almas do outro mundo, e que ele chamava de Espíritos, eu ficava imaginando como seria possível acontecerem essas comunicações, qual o mecanismo que permitia esse intercâmbio se eles já não tinham mais boca, ouvidos, olhos, enfim, se essas almas já não mais tinham um corpo? E com que finalidade iriam se comunicar se já não estavam mais na Terra? Eu aprendi que iam para o Céu, para o Purgatório ou para o Inferno. E isso também me era incompreensível, pois como poderia Deus, que nos enviou Jesus para trazer a mensagem divina do amor, ser tão impiedoso com os que cometiam erros? 

Eu não descartava os fatos que meu tio relatava, nem os fenômenos que ocorriam com minha avó e ficava intrigada com os que aconteciam comigo. Sempre tive uma atração pelo desconhecido e por buscar explicações para o que eu entendia ser injusto no mundo. Porém, a falta de informação religiosa além daquela em que fui educada, o preconceito social e as críticas sobre o Espiritismo no meio em que eu vivia acabaram deixando minha sede de saber relativa ao plano espiritual em um compasso de espera. Não sei se ainda não era o momento ou, se por eu ter deixado passar o momento, a situação dolorosa que precisei enfrentar tornou-se a oportunidade que a Espiritualidade encontrou para o meu despertar.

Enfim, as respostas às minhas dúvidas!

Pois logo no início da leitura de O Espiritismo em sua mais simples expressão as respostas foram aparecendo, preparando o terreno para as explicações mais profundas e detalhadas que, mais adiante, eu encontraria nas chamadas obras básicas. Hoje, relendo esse livro, vejo a importância de se começar pelo começo. Nele Kardec vai situando o leitor, inicialmente trazendo um histórico do Espiritismo, mostrando como os fenômenos foram evidenciando a existência de inteligências por trás deles e explicando o que são essas inteligências, como vivem no plano espiritual e como se comunicam. Não há como compreender as comunicações sem antes apreender quem são e como são constituídos os seres que se manifestam.

E nas primeiras páginas do livro, Kardec esclarece:

“Geralmente fazemos dos Espíritos uma idéia completamente falsa; eles não são, como muitos imaginam, seres abstratos, vagos e indefinidos, nem algo como um clarão ou uma centelha; são, ao contrário, seres muito reais, com sua individualidade e uma forma determinada. Podemos ter uma idéia aproximada pela explicação seguinte: Há no homem três coisas essenciais:

1° – a Alma ou Espírito, princípio inteligente em que residem o pensamento, a vontade e o senso moral;

2° – o corpo, envoltório material, pesado e grosseiro, que coloca o Espírito em relação com o mundo exterior;

3° – o perispírito, envoltório fluídico, leve, que serve de laço e intermediário entre o Espírito e o corpo. Quando o envoltório exterior está gasto e não pode mais funcionar, ele tomba e o Espírito despoja-se dele como o fruto de sua casca, a árvore de sua crosta; em resumo, como se abandona uma roupa velha que não serve mais; é a isso que chamamos morte.

A morte, portanto, não passa da destruição do grosseiro envoltório do Espírito: só morre o corpo, o Espírito não morre. Durante a vida o Espírito está de certa forma comprimido pelos laços da matéria a que está unido e que, muitas vezes, paralisa suas faculdades; a morte do corpo desembaraça-o de seus laços; ele se liberta e recupera sua liberdade, como a borboleta saindo de sua crisálida. Mas ele só abandona o corpo material; conserva o perispírito, que constitui para ele uma espécie de corpo etéreo, vaporoso, imponderável para nós e de forma humana, que parece ser a forma-tipo. Em seu estado normal, o perispírito é invisível, mas o Espírito pode fazer com que sofra certas modificações que o tornam momentaneamente acessíveis à vista e até ao contato, como acontece com o vapor condensado; é assim que eles podem às vezes mostrar-se a nós em aparições.” (O Espiritismo em sua mais simples expressão > Histórico do Espiritismo) (grifos nossos)

E mais à frente:

“Os Espíritos podem ainda manifestar-se de várias maneiras, entre outras pela vista e pela audição. Certas pessoas, ditas médiuns auditivos, têm a faculdade de ouvi-los e podem, assim, conversar com eles; outras os vêem – são os médiuns videntes. Os Espíritos que se manifestam à visão apresentam-se geralmente sob forma análoga à que tinham quando vivos, porém vaporosa; outras vezes, essa forma tem toda a aparência de um ser vivo, a ponto de iludir completamente, tanto que algumas vezes foram tomados por criaturas de carne e osso, com as quais se pôde conversar e trocar apertos de mãos, sem se suspeitar que se tratava de Espíritos, a não ser em razão de seu desaparecimento súbito.

(…)

Que cada um junte suas lembranças, e veremos quantos fatos autênticos desse tipo, de que não nos apercebíamos, aconteceram não só à noite, durante o sono, mas em pleno dia e no estado mais completo de vigília. Outrora víamos esses fatos como sobrenaturais e maravilhosos, e os atribuíamos à magia e à feitiçaria; hoje, os incrédulos os atribuem à imaginação; mas desde que a ciência espírita nos deu a chave, sabemos como se produzem e que não saem da ordem dos fenômenos naturais.”  (O Espiritismo em sua mais simples expressão > Histórico do Espiritismo) (grifos nossos)

Então eu entendi que o que acontecia com minha avó não era fantasioso, nem diabólico. Eu acreditava nela, mas ficava um tanto confusa por não entender como aquilo era possível e com que propósito. E eu sabia que ela relatava situações que realmente lhe aconteciam, pois eu mesma tinha muitas intuições que me chamavam a atenção e sonhos premonitórios. Porém, diante da minha ignorância acerca do que provocava esses fatos, acabava convivendo com eles solitariamente e os registrava com atenção. 

Sobre a finalidade das comunicações, a resposta veio algumas linhas em seguida:

“Os Espíritos geralmente se comunicam com prazer, constituindo para eles uma satisfação ver que não foram esquecidos; descrevem de boa vontade suas impressões ao deixar a terra, sua nova situação, a natureza de suas alegrias e sofrimentos no mundo em que se encontram. Uns são muito felizes, outros infelizes, alguns até sofrem horríveis tormentos, segundo a maneira como viveram e o emprego bom ou mau, útil ou inútil que fizeram da vida. Observando-os em todas as fases de sua nova existência, de acordo com a posição que ocuparam na terra, seu tipo de morte, seu caráter e seus hábitos como homens, chegamos a um conhecimento senão completo, pelo menos bastante preciso do mundo invisível, para termos a explicação do nosso estado futuro e pressentir o destino feliz ou infeliz que lá nos espera.” (O Espiritismo em sua mais simples expressão > Histórico do Espiritismo) (grifos nossos)

Assim, eu encontrei uma explicação inicial breve, mas bem plausível, de como estão esses seres que não vivem mais no mundo físico, que continuam a existir como almas, para minha compreensão daquela época, e o motivo de se comunicarem. 

E em relação à outra dúvida, a questão das penas eternas, dos três destinos das almas após a morte, logo também fui informada que:

O Espiritismo combate, é verdade, certas crenças, tais como a eternidade das penas, o fogo material do inferno, a personalidade do diabo, etc.; mas não é certo que essas crenças, impostas como absolutas, hão feito incrédulos em todos os tempos e os fazem ainda todos os dias? Se o Espiritismo, dando destes e de outros dogmas uma interpretação racional, reconduzindo à fé aqueles que dela desertam, não presta ele serviço à religião? A esse propósito, um venerável eclesiástico disse: “O Espiritismo faz crer em alguma coisa; ora, é melhor crer em alguma coisa do que em nada crer.” (O Espiritismo em sua mais simples expressão > Histórico do Espiritismo) (grifos nossos)

Pensei então: que alívio, finalmente vejo que existe uma explicação que mostra não ser verdade que ao morrer a sorte das almas seja decretada de forma tão radical e inflexível!

Quando cheguei no tópico Resumo dos Ensinamentos dos Espíritos, ficou ainda mais clara a ideia geral sobre  Criação, Deus, espírito, matéria, leis divinas, encarnação e reencarnação, seu objetivo e sua íntima relação com a justiça divina, provas e expiações, evolução espiritual, pluralidade dos mundos, esquecimento do passado, causas dos males terrenos e outros tópicos fundamentais. Ou seja, Kardec aborda praticamente todos os temas que compõem o primeiro e o segundo livros de O Livro dos Espíritos, de modo sequencial e resumido e já pincela alguns contidos nos demais.

No tópico Máximas extraídas do ensinamento dos Espíritos, Kardec começa com o objetivo essencial do Espiritismo e segue trazendo as consequências morais, resumindo os princípios espíritas básicos, explicando as aflições, as virtudes e os vícios, fazendo considerações sobre a prece, reunindo em poucas linhas o que há de mais importante para um primeiro contato com o ensino moral da Doutrina Espírita, terminando com a maior das virtudes, a caridade.

Lembro como me senti confortada! 

Minha leitura seguinte, O Que é o Espiritismo, veio ampliar minha impressão de que eu estava encontrando uma rota segura para resgatar o cultivo de uma existência que prezasse o lado espiritual da vida de um modo sensato, coerente, natural.

A finalidade das manifestações espíritas, um dos meus primeiros questionamentos, nesse livro está muito bem explicada, como por exemplo, no item 50 e seguintes do capítulo II:

50. O fim providencial das manifestações é convencer os incrédulos de que tudo para o homem não se acaba com a vida terrestre, e dar aos crentes ideias mais justas sobre o futuro.

Os bons Espíritos nos vêm instruir para nosso melhoramento e avanço, e não para revelar-nos o que não devemos saber ainda, ou o que só deve ser conseguido pelo nosso trabalho.

Se bastasse interrogar os Espíritos para obter a solução de todas as dificuldades científicas, ou para fazer descobertas e invenções lucrativas, todo ignorante podia tornar-se sábio sem estudar, todo preguiçoso ficar rico sem trabalhar; é o que Deus não quer.

Os Espíritos ajudam o homem de gênio pela inspiração oculta, mas não o eximem do trabalho nem das investigações, a fim de lhe deixar o mérito.

(…)

53. As manifestações não são, pois, destinadas a servir aos interesses materiais; sua utilidade está nas consequências morais que delas dimanam; não tivessem, elas, porém, como resultado senão fazer conhecer uma nova Lei da natureza, demonstrar materialmente a existência da alma e sua imortalidade, e já isso seria muito, porque era largo caminho novo aberto à Filosofia. (O Que é o Espiritismo, cap. II – Finalidade providencial das manifestações espíritas) (grifos nossos)

Também sobre meu afastamento da Igreja, por não me satisfazer com seus ensinamentos dogmáticos, encontrei ali considerações brilhantemente expostas por Kardec em vários trechos da obra, como neste:

O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas funestas consequências, fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura; ele se dirige, pois, àqueles que em nada creem ou que de tudo duvidam, e o número desses não é pequeno, como muito bem sabeis; os que têm fé religiosa e a quem esta fé satisfaz, dele não têm necessidade.

Àquele que diz: “Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos, sem nada buscar além dos seus limites”, o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção.

A liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem; e o Espiritismo, se não a respeitasse, estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância.

(O que é o Espiritismo? >Terceiro Diálogo – O Padre) (grifos nossos)


Quantas vezes me sentia culpada por não conseguir mais acompanhar minha mãe naquele modo de viver a religião. Eu acreditava em Deus, mas não me conformava com aquele Deus! 

Minha dificuldade em descobrir uma razão de ser para as diversidades que pareciam privilegiar alguns e punir outros, para as diferenças dentro de uma mesma família, para a existência do mal e para os sofrimentos aparentemente injustos também logo se dissipou. No item 134 do capítulo III, finalmente compreendi a luz que a lei de causa e efeito trazia para o que eu considerava serem injustiças:

134Por que nascem alguns na indigência e outros na opulência? Por que vemos tantas pessoas nascerem cegas, surdas, mudas ou afetadas de moléstias incuráveis, quando outras possuem todas as vantagens físicas? Será um efeito do acaso, ou um ato da Providência?

Se fosse do acaso, a Providência não existiria. Admitida, porém, a Providência, perguntamos como se conciliam esses fatos com a sua bondade e justiça? É por falta de compreensão da causa de tais males que muitos se arrojam a acusar Deus.

Compreende-se que quem se torna miserável ou enfermo, por suas imprudências ou por excessos, seja punido por onde pecou: porém, se a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo, que fez ela para merecer tais aflições, desde o seu nascimento, ou para ficar isenta delas?

Se admitimos a Justiça de Deus, não podemos deixar de admitir que esse efeito tem uma causa; e se esta causa não se encontra na vida presente, deve achar-se antes desta, porque em todas as coisas a causa deve preceder ao efeito; há, pois, necessidade de a alma já ter vivido, para que possa merecer uma expiação.

Os estudos espíritas nos mostram, de fato, que mais de um homem, nascido na miséria, foi rico e considerado em uma existência anterior, na qual fez mau uso da fortuna que Deus o encarregara de gerir; que mais de um, nascido na abjeção, foi anteriormente orgulhoso e prepotente, abusou do poder para oprimir os fracos. Esses estudos no-los fazem ver, muitas vezes, sujeitos àqueles a quem trataram com dureza, entregues aos maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros.

Nem sempre uma vida penosa é expiação; muitas vezes é prova escolhida pelo Espírito, que vê um meio de avançar mais rapidamente, conforme a coragem com que saiba suportá-la.

A riqueza é também uma prova, mas muito mais perigosa que a miséria, pelas tentações que dá e pelos abusos que enseja; também o exemplo dos que viveram, demonstra ser ela uma prova em que a vitória é mais difícil. A diferença das posições sociais seria a maior das injustiças — quando não seja o resultado da conduta atual —, se ela não tivesse uma compensação. A convicção que dessa verdade adquirimos, pelo Espiritismo, nos dá força para suportarmos as vicissitudes da vida e aceitarmos a nossa sorte, sem invejar a dos outros. (O Que é o Espiritismo – cap III – item 134) (grifos nossos)

Depois de concluir a leitura dessas obras, entendi o que logo no início Allan Kardec afirmou como resposta a O Que é o Espiritismo?, no Preâmbulo do livro que tem tal título: 

Para responder, desde já e sumariamente, à pergunta formulada no título deste opúsculo, diremos que:

O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.

Podemos defini-lo assim:

O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.

(O Que é o Espiritismo > Preâmbulo) (grifos nossos)

Fazer a leitura de um livro que traz em seu início uma afirmação como essa é aceitar um convite para iniciar uma abertura do horizonte sobre a vida aos que desejam conhecer verdadeiramente do que trata essa doutrina que, nas demais obras, aprofunda as mais diversas questões existenciais e espirituais. É a porta de entrada para uma busca de mais detalhes, de mais aspectos dos mesmos temas e de outros que se desdobram, para se entender como funciona o intercâmbio entre o mundo físico e o espiritual. Eu aceitei há muito tempo e convido os leitores que se interessam pelo sentido da vida a aceitarem também. 

Aos que já leram, sugiro uma releitura atenta para poderem, como eu, desfrutar da beleza e da sabedoria dessas lições simples, mas profundas, enxutas, mas didáticas, de grande utilidade também na preparação de exposições, de artigos e no auxílio em grupos de estudos de diversos níveis de aprendizado para se poder prontamente responder: O Que é o Espiritismo?

Fonte:
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Texto escrito por Raquel Ribas Chaves de Souza. Raquel é santista, advogada formada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, com Especialização em Direito Processual Civil pelo Instituto de Direito Romeu Felipe Bacellar. Atualmente, exerce a atividade de terapeuta integrativa. Espírita há 35 anos, trabalhou em casas espíritas em SP, RJ e PR. Preside a Casa Espírita Eurípedes Barsanulfo em Curitiba, desde junho de 2019. É pesquisadora e palestrante, atuante na coordenação das áreas de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita e Estudo da Mediunidade e integra a equipe de prática mediúnica da CEEB, como médium psicógrafa e psicofônica. Conheceu Lilian e Cosme Massi em palestra realizada pelo Cosme na CEEB, pouco tempo antes da criação do IDEAK, onde participa como estudiosa e colaboradora. 


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