Identificação e comentários sobre os trechos do capítulo 1 de “La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme” que sofreram alterações substanciais da quarta para a quinta edição

Texto escrito por Silvio S. Chibeni

Resumo: O presente texto dá sequência a texto anteriormente publicado no Kardec.Blog (3/10/2019) , com o título “O desenvolvimento dos textos de Allan Kardec sobre o caráter da revelação espírita”. Nele identifiquei e analisei as principais fases do desenvolvimento dos textos de Allan Kardec sobre o caráter da revelação espírita, que culminaram no primeiro capítulo do livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. No presente trabalho empreendo a comparação minuciosa dos textos da 4a edição com o da 5a edição, póstuma, dessa obra, comentando cada uma das alterações de conteúdo introduzidas, bem como alterações formais mais significativas. Essa comparação mostra que, sem exceção, as alterações são eminentemente sensatas – recomendáveis, umas, necessárias, outras – sendo portanto compatíveis com a tese de que são efetivamente da autoria do próprio Kardec, e não de editores que teriam “adulterado” o texto do Mestre.



1. Materiais e métodos

Para facilitar a tarefa, e ao mesmo tempo torná-la mais minuciosa, utilizei versões eletrônicas em texto de formato PDF atualmente disponíveis na rede mundial de computadores, confrontando-as, sempre que preciso, com as versões em imagem (cópias digitalizadas dos livros originais). Os dois arquivos-textos foram implantados em software que faz o destaque de todas as diferenças entre eles, por menores que sejam, como vírgulas inseridas, omitidas, trocadas por ponto-e-vírgula, pequenas alterações de espaçamento, mudança estilo de tipos, como itálicos inseridos ou suprimidos, para não falar, claro, da supressão, inclusão ou troca de vocábulos, linhas, parágrafos, notas, etc. O uso desse software não dispensou, claro, a leitura direta e atenta das duas edições.

Como o objetivo aqui é contribuir para o esclarecimento do debate atual sobre a autoria das alterações introduzidas na 5a edição de La Genèse, não vou me ater às modificações de natureza puramente gráfica, ou pequenas variações de pontuação, etc., muito embora deva fazer notar que até mesmo esses pequenos e numerosos aperfeiçoamentos são compatíveis com o rígido rigor formal de Kardec e sua preocupação com detalhes aparentemente menores. Por outro lado, isso não se coaduna com a tese de que a revisão teria sido feita por pessoas que teriam supostamente se aproveitado da nova edição, póstuma, da obra de Kardec para a promoção de interesses alheios aos objetivos do Espiritismo, “adulterando” o texto do Mestre.


2. Trechos que sofreram modificações da 4a para 5a edição de La Genèse.

Apresento em seguida, na forma de tabelas, os principais pontos em que houve alterações significativas na 5a edição, relativamente à 4a. Para mais segurança, forneço tanto os originais franceses como minha tradução. A cada item se seguem meus comentários, com vistas a facilitar a compreensão e avaliação da alteração feita.

Parágrafo: Título do capítulo
4a ed.: Caractères de la révélation spirite
Caracteres da revelação espírita
5a ed: Caractère de la révélation spirite
O caráter da revelação espírita

Comentário: Há aqui uma dúvida importante e, ao que tudo indica, insanável. Na 5a edição o título do primeiro capítulo tem a palavra ‘caractère’ no singular, enquanto que nas edições anteriores e no artigo de 1867 ela estava no plural. (Para detalhes desse artigo, veja-se meu texto anterior sobre A Gênese publicado neste Blog.) Como a alteração é muito pequena, é impossível saber com certeza se foi intencional ou não, devendo-se, neste último caso, a mera desatenção do tipógrafo. A favor desta última hipótese se poderia evocar o fato de que o singular aparece no título do capítulo e no cabeçalho, em todas as suas páginas, mas não na Table des Matières, no final do volume. Esta porém, pode ter sido inadvertidamente copiada sem alteração da edição precedente, de forma que também quanto a isso não há argumento conclusivo.

Por outro lado, a favor da hipótese a mudança ter sido introduzida intencionalmente – ao que tudo indica, por Kardec – está o fato de que a alteração do singular para o plural modifica um pouco a conotação da frase. ‘Caractères de la révélation spirite’ tem o sentido, em português atual, de ‘Características da revelação espírita’; de fato, o capítulo enumera e comenta uma serie de tais características, ou seja, traços que demarcam essa revelação, relativamente a outras revelações possíveis. Mas, no singular, ‘Caractère de la révélation spirite’ pode ser traduzida ‘A natureza da revelação espírita’. A frase passaria, então, a ter, na 5a edição, uma conotação mais geral e abstrata, embora no fundo significando quase a mesma coisa do que a frase da 4a edição. Kardec usa muitas vezes a palavra ‘caractère’ neste sentido, como por exemplo, neste mesmo capítulo, no início do parágrafo 3: “Le caractère essentiel de toute révélation doit être la vérité.”

Essa alteração, que remete obviamente à ideia geral do capítulo, pode ser, aliás, uma indicação adicional de que Kardec pretendeu, mesmo, modificar o seu título[1]. Nesta hipótese, ele, ou o tipógrafo, teria se esquecido de atualizar a Table des Matières. De forma mais problemática, teria se esquecido de antepor à frase o artigo definido ‘Le’, que o idioma francês pede. (Notemos que na mais clássica tradução brasileira de La Genèse, o tradutor, Guillon Ribeiro, inseriu esse artigo, ficando o título “O caráter da revelação espírita”, que se tornou padrão em nosso meio e nós mesmos utilizamos, por apropriado, no título deste artigo.)


Parágrafo: 1
4a ed.: La doctrine spirite est-elle une révélation dans le sens liturgique du mot, c’est-à-dire est-elle de tous points le produit d’un enseignement occulte venu d’en haut ?
É a doutrina espírita uma revelação, no sentido litúrgico do termo, ou seja, é ela, em todos os pontos, o produto de um ensino oculto vindo do alto?
5a ed: La doctrine spirite est-elle une révélation dans le sens théologique du mot, c’est-à-dire est-elle en tout point le produit d’un enseignement occulte venu d’en haut ?
É a doutrina espírita uma revelação, no sentido teológico do termo, ou seja, é ela, em todos os pontos, o produto de um ensino oculto vindo do alto?

Comentário: A palavra ‘litúrgico’ é substituída por ‘teológico’. Essa alteração era evidentemente necessária, pois o primeiro termo se refere ao culto público de uma religião, ao seu cerimonial, tendo portanto uma acepção muito restrita, que não envolve a questão teórica, fundamental, da revelação, que pertence, antes, à teologia.


Parágrafo: 2
4a ed.: Révéler, dérivé du mot voile (du latin velum), signifie littéralement ôter le voile
Revelar, derivado do termo véu (do latim velum), significa literalmente tirar o véu
5a ed: Révéler, du latin revelare, dont la racine est velum, voile, signifie littéralement sortir de dessous le voile
Revelar, do latim revelare, cuja raiz é velum, véu, significa literalmente sair de sob o véu

Comentário: A explicação aqui dada da etimologia do termo ‘revelar’ ficou bem mais completa e precisa.


Parágrafo: 6
4a ed.: S’ils n’apprenaient aux hommes rien autre que ce que savent ces derniers, leur présence serait complètement inutile ; les choses nouvelles qu’ils leur enseignent, soit dans l’ordre physique, soit dans l’ordre philosophique, sont des révélations. 
Se não ensinassem aos homens senão o que estes últimos sabem, sua presença seria completamente inútil; as coisas novas que lhes ensinam, quer de ordem física, quer filosófica, são revelações
5a ed: Les choses nouvelles qu’ils enseignent aux hommes, soit dans l’ordre physique, soit dans l’ordre philosophique, sont des révélations .
as coisas novas que lhes ensinam, quer de ordem física, quer filosófica, são revelações

Comentário: Estamos aqui diante de uma correção bastante importante e refinada: a frase que abre o parágrafo é retirada completamente, pois é, se interpretada ao pé da letra, incompatível com o que se encontra nos parágrafos 4 e 5, em que Kardec traça a distinção entre reveladores “primitivos”, ou originais, e “secundários”. Ora, estes últimos são como “professores”, que “ensinam o que [os alunos] não sabem, ou que não teriam nem tempo nem possibilidade de descobrir por si mesmos”. É claro que se trata aqui de uma limitação relativa, em princípio contornável, com o tempo e a ocorrência de circunstâncias mais favoráveis. Mas no momento do ensino, ela não é de nenhum modo “completamente inútil”. Era, portanto, mandatória a exclusão da frase.


Parágrafo: 14
4a ed.: de l’imagination. 
da imaginação.
5a ed: de l’imagination. Les sciences n’ont fait de progrès sérieux que depuis que leur étude est basée sur la méthode expérimentale ; mais jusqu’à ce jour on a cru que cette méthode n’était applicable qu’à la matière, tandis qu’elle l’est également aux choses métaphysiques.
da imaginação. As ciências não fizeram progressos sérios senão a partir do momento em que passaram a basear seus estudos no método experimental; mas até nossos dias acreditou-se que tal método só era aplicável à matéria, ao passo que o é, igualmente, às coisas metafísicas.

Comentário: Temos aqui um importante acréscimo. O período acrescentado mostra não apenas uma compreensão muito refinada – e pouco comum à época, mesmo entre especialistas acadêmicos – da natureza da ciência, mas também explicita o cerne do projeto científico do Espiritismo: aplicar, com as devidas adaptações, o bem sucedido “método experimental” das ciências ordinárias ao estudo dos fenômenos que dizem respeito à natureza espiritual do ser humano. Notemos que poucos espíritas do tempo de Kardec, e até hoje, infelizmente, tiveram a percepção correta desse ponto capital, sobre o qual Kardec tanto insistiu aqui em em outros lugares.


Parágrafo: 16
4a ed.: il en résulte que la connaissance de l’un ne peut être complète sans la connaissance de l’autre ; que le Spiritisme et la science se complètent l’un par l’autre ; que la science sans le Spiritisme se trouve dans l’impuissance d’expliquer certains phénomènes par les seules lois de la matière, et que c’est pour avoir fait abstraction du principe spirituel qu’elle est arrêtée dans de si nombreuses impasses ; que le Spiritisme sans la science manquerait d’appui et de contrôle, et pourrait se bercer d’illusions. Le Spiritisme venu avant les découvertes  cientifiques eût été une oeuvre avortée, comme tout ce qui vient avant son temps.
disso resulta que o conhecimento de um não pode ser completo sem o conhecimento da outra; que o Espiritismo e a ciência completam-se mutuamente; que, sem o Espiritismo, a ciência é impotente para explicar certos fenômenos unicamente pelas leis da matéria, e que é por ter feito abstração do princípio espiritual que ela empacou em impasses tão numerosos; que, sem a ciência, ao Espiritismo faltaria apoio e controle, podendo embalar-se em ilusões. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas teria sido abortado, como tudo o que vem antes de seu tempo.
5a ed: il en résulte que la connaissance de l’un ne peut être complète sans la connaissance de l’autre. Le Spiritisme et la science se complètent l’un par l’autre : la science sans le Spiritisme se trouve dans l’impuissance d’expliquer certains phénomènes par les seules lois de la matière ; le Spiritisme sans la science manquerait d’appui et de contrôle. L’étude des lois de la matière devait précéder celle de la spiritualité, parce que c’est la matière qui frappe tout d’abord les sens. Le Spiritisme venu avant les découvertes scientifiques eût été une oeuvre avortée, comme tout ce qui vient avant son temps.
disso resulta que o conhecimento de um não pode ser completo sem o conhecimento da outra. O Espiritismo e a ciência completam-se mutuamente: sem o Espiritismo, a ciência é impotente para explicar certos fenômenos unicamente pelas leis da matéria; que, sem a ciência, ao Espiritismo faltaria apoio e controle. O estudo das leis da matéria devia preceder o estudo da espiritualidade, pois é a matéria que primeiro afeta os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas teria sido abortado, como tudo o que vem antes de seu tempo.

Comentário: Notamos aqui, primeiro, o destaque introduzido na importante frase “O Espiritismo e a ciência completam-se mutuamente”, com a qual Kardec sintetiza sua análise das relações entre o Espiritismo e as ciências ordinárias – análise essa, aliás, tão mal compreendida entre espíritas como o ponto do comentário precedente. Depois, há duas frases suprimidas, ambas mostrando uma percepção bastante sofisticada das nuances do assunto. A primeira – “e que é por ter feito abstração do princípio espiritual que ela empacou em impasses tão numerosos” – evidentemente era imprópria. As ciências ordinárias têm seu objeto específico e exclusivo de estudo, o mundo físico, como Kardec já deixou claro na Introdução do Livro dos Espíritos e depois neste mesmo primeiro capítulo de A Gênese.

Não cabe a elas estudar o princípio espiritual (fora em áreas fronteiriças com o Espiritismo, como a psicologia e a psiquiatria, ambas ainda não constituídas como áreas autônomas da ciência no tempo de Kardec). Não foi por isso, portanto, que “empacaram” em “impasses numerosos”. Na verdade, embora o progresso das ciências não esteja livre de percalços – um assunto que só veio a ser estudado academicamente no século XX – é evidente exagero descrever as dificuldades naturais do empreendimento científico da maneira feita no texto da 4ª edição. Essa correção era, portanto, absolutamente necessária.

A segunda frase suprimida é “podendo embalar-se em ilusões”; isso aconteceria se o Espiritismo ignorasse as ciências ordinárias. Ora, pelas mesmas razões dadas para o caso anterior, vemos que era preciso retirar essa afirmação. O Espiritismo, estritamente falando, é um programa de investigação autônomo em relação às ciências acadêmicas; não é a elas que cabe evitar que ele se “embale em ilusões”. Isso compete aos espíritas, que deveriam cuidar mais de desenvolver o senso crítico e imitar o Mestre no desenvolvimento das pesquisas e da teoria espírita. Tristemente, muitas vezes de fato se têm embalado em ilusões, ao longo da história do Espiritismo.

O papel das ciências ordinárias no Espiritismo é tão-somente o de servir de “apoio e controle” no sentido explicado por Kardec, ou seja, tendo elas se desenvolvido em boa parte antes do Espiritismo, tornaram mais claros os limites das suas próprias teorias, quando se trata de dar conta de uma nova classe de fenômenos, cujas causas não são puramente físicas. Isso se liga ao próximo item corrigido, no parágrafo 18.


Parágrafo: 18
4a ed.: Par son essence même, et comme ayant pour objet l’étude d’un des deux éléments constitutifs de l’univers, le Spiritisme touche forcément àla plupart des sciences; il ne pouvait venir qu’après l’élaboration de ces sciences, et après surtout qu’elles auraient prouvé leur impuissance à tout expliquer par les seules lois de la matière.
Por sua essência mesma, e tendo por objeto de estudo um dos dois elementos constitutivos do universo, o Espiritismo forçosamente toca a maior parte das ciências; só podia vir após a elaboração dessas ciências, e sobretudo depois que elas provassem a sua impotência para explicar tudo apenas pelas leis da matéria.
5a ed: Le Spiritisme, ayant pour objet l’étude de l’un des deux éléments constitutifs de l’univers, touche forcément à la plupart des sciences ; il ne pouvait venir qu’après leur élaboration, et il est né, par la force des choses, de l’impossibilité de tout expliquer à l’aide des seules lois de la matière.
Tendo por objeto de estudo um dos dois elementos constitutivos do universo, o Espiritismo forçosamente toca a maior parte das ciências; só podia vir após sua elaboração, nascendo, pela força das coisas, da impossibilidade de tudo se explicar apenas com o auxílio das leis da matéria.

Comentário: O assunto aqui dá sequência ao do item precedente. Temos, primeiro, a supressão da expressão “Por sua essência mesma”. Ela era inteiramente dispensável, e podia dar margem a mal-entendidos, ao envolver um termo filosoficamente complexo, ‘essência’. Mais importante é a segunda alteração: a supressão da frase “e sobretudo depois que elas provassem a sua impotência para explicar tudo apenas pelas leis da matéria”. Ora, temos aqui um evidente descuido, pois não cabe às próprias ciências provar sua impotência para qualquer coisa, muito menos para o que se dizia no texto.

A referida impotência ficou estabelecida pelas pesquisas e conclusões do próprio Kardec; e aqui, novamente, é importante compreender bem a distinção dos objetos de estudo do Espiritismo e das ciências ordinárias. Esse ponto fica corretamente consignado na versão revisada, da 5ª edição, que menciona, objetivamente, apenas a “impossibilidade de tudo se explicar apenas com o auxílio das leis da matéria”.


Parágrafo: 18, nota 1
4a ed.: --
5a ed: Le mot élément n’est pas pris ici dans le sens de corps simple, élémentaire , de molécules primitives , mais dans celui de partie constituante d’un tout . En ce sens, on peut dire que l’élément spirituel a une part active dans l’économie de l’univers, comme on dit que l’élément civil et l’élément militaire figurent dans le chiffre d’une population ; que l’élément religieux entre dans l’éducation ; qu’en Algérie, il y a l’élément arabe et l’élément européen.
A palavra elemento não é tomada aqui no sentido de corpo simples, elementar, de moléculas primitivas, mas no de parte constituinte de um todo. Nesse sentido, pode-se dizer que o elemento espiritual desempenha papel ativo na economia do universo, como se diz que o elemento civil e o elemento militar fazem parte de uma população; que o elemento religioso entra na educação; que na Argélia há o elemento árabe e o elemento europeu.

Comentário: Aqui temos o acréscimo de uma nota de pé de página. Nela, explicam-se duas acepções do termo ‘elemento’, sendo que a segunda delas é a pretendida por Kardec neste trecho. A nota visa, portanto, prevenir o leitor de equívocos de interpretação sobre um ponto importante. Para o bom entendedor, a nota seria dispensável; não, porém, para o leitor típico do texto de Kardec.


Parágrafo: 25
4a ed.: C’est là toute la loi et les prophètes, il n’y en a pas d’autre. 
Aí estão toda a lei e os profetas; não existe outra lei.
5a ed: Aimez Dieu pardessus toutes choses, et votre prochain comme vous-mêmes ; c’est là toute la loi et les prophètes, il n’y en a pas d’autre .
Amai a Deus sobre todas as coisas e o vosso próximo como a vós mesmos; nisto estão toda a lei e os profetas; não existe outra lei.

Comentário: O texto da 4ª edição reproduzia de forma incompleta a famosa frase de Jesus: “… Eis aí toda a lei e os profetas”, faltando dizer o que estava “aí”. A 5ª edição corrige essa falha evidente.


Parágrafo: 25
4a ed.: la fraternité universelle.
a fraternidade universal.
5a ed: la fraternité universelle. Mais était-il possible d’aimer ce Dieu de Moïse ? Non ; on ne pouvait que le craindre. 
a fraternidade universal. Seria, porém, possível amar esse Deus de Moisés? Não; ele só podia ser temido.

Comentário: Aqui o complemento explicita uma diferença importante entre a concepção de Deus do Velho Testamento e a trazida por Jesus. Como Kardec explica no texto, essa modificação foi fundamental para configurar o Cristianismo, enquanto nova proposta teológica.


Parágrafo: 26 e diversos outros parágrafos
4a ed.: Cependent Christ ajoute:
Porém Cristo acrescenta:
5a ed: Cependent le Christ ajoute:
Porém o Cristo acrescenta:

Comentário: Há aqui a correção gramatical: o uso da palavra ‘Cristo’ sem o devido artigo definido. Essa falha gramatical ocorria em muitos outros (mas não todos os) parágrafos da quarta edição do livro, tendo sido agora corrigida em todos eles. Por sua importância, ela é comentada na nota final que Kardec anexou ao capítulo (ver abaixo). Note-se que tal falha formal continua sendo comum hoje em dia também em nosso idioma, em expressões como “Cristo salva”, ou “Aceitei Cristo em meu coração”.


Parágrafo: 29
4a ed.: depuis Confucius et Bouddha jusqu’au christianisme. 
desde Confúcio e Buda até o cristianismo.
5a ed: depuis Confucius et le Bouddha jusqu’au Christianisme
desde Confúcio e desde o Buda até o cristianismo.

Comentário: O mesmo comentário precedente, agora para o caso da palavra ‘Buda”. Corrige-se também a falta da inicial maiúscula no termo ‘Cristianismo’.


Parágrafo: 34
4a ed.: l’inégalité des aptitudes intellectuelles et morales, par l’ancienneté de l’Esprit, qui a plus ou moins vécu, plus ou moins appris et progressé, et qui apporte en renaissant l’acquis de ses existences antérieures.
a desigualdade de aptidões intelectuais e morais, pela ancianidade do Espírito, que viveu mais, ou menos, aprendeu e progrediu mais, ou menos, e traz, ao renascer, as aquisições de suas existências anteriores.
5a ed: l’inégalité des aptitudes intellectuelles et morales, par l’ancienneté de l’Esprit qui a plus ou moins appris et progressé, et qui apporte en renaissant l’acquis de ses existences antérieures.
a desigualdade de aptidões intelectuais e morais, pela ancianidade do Espírito, que aprendeu e progrediu mais, ou menos, e traz, ao renascer, as aquisições de suas existências anteriores.

Comentário: Neste caso há um acerto estilístico; a nova redação é mais fluente e elimina a referência, desnecessária, ao Espírito ter ‘vivido’ ‘mais, ou menos’.


Parágrafo: 36
4a ed.: Les hommes ne naissent inférieurs et subordonnés que par le corps; par l’Esprit, ils sont égaux et libres. De là le devoir de traiter les inférieurs avec bonté, bienveillance et humanité, parce que celui qui est notre subordonné aujourd’hui, peut avoir été notre égal ou notre supérieur, peut-être un parent ou un ami, et que nous pouvons devenir à notre tour le subordonné de celui auquel nous commandons.
Os homens não nascem inferiores e subordinados senão quanto ao corpo; quanto ao Espírito, são iguais e livres. Daí o dever de tratar os inferiores com bondade, benevolência e humanidade, pois aquele que hoje é nosso subordinado pode ter sido nosso igual, ou superior, talvez um parente ou amigo, e que podemos, por nossa vez, tornar-nos subordinados daqueles a quem comandamos.
5a ed: --

Comentário: O trecho da 4a edição é eliminado. Embora seu conteúdo seja correto, destacando que, do ponto de vista espiritual, os homens são essencialmente “iguais e livres”, ele dá margem a mal-entendidos, com a referência a “inferiores” e “subordinados” . A intenção de Kardec era de comentar as diferenças hierárquicas que de fato existem na sociedade, e que, à luz do Espiritismo, perdem seu caráter absoluto. De toda forma, a exclusão do trecho era recomendável.


Parágrafo: 38
4a ed.: Sans la préexistence de l’âme, la doctrine du péché originel n’est pas seulement inconciliable avec la justice de Dieu qui rendrait tous les hommes responsables de la faute d’un seul, elle serait un non-sens, et d’autant moins justifiable que l’âme n’existait pas à l’époque où l’on prétend faire remonter sa responsabilité.
Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não apenas seria inconciliável com a justiça de Deus que tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só, mas também seria um contra-senso, e ainda menos justificável porque a alma não existia na época a que se pretende fazer que remonte a sua responsabilidade.
5a ed: Sans la préexistence de l’âme, la doctrine du péché originel n’est pas seulement inconciliable avec la justice de Dieu, qui rendrait tous les hommes responsables de la faute d’un seul : elle serait un non-sens, et d’autant moins justifiable que, suivant cette doctrine, l’âme n’existait pas à l’époque où l’on prétend faire remonter sa responsabilité.
Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não apenas seria inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só, mas também seria um contra-senso, e ainda menos justificável porque, segundo essa doutrina, a alma não existia na época a que se pretende fazer que remonte a sua responsabilidade.

Comentário: Note-se, inicialmente, a melhoria na pontuação, com a inserção de vírgula após a palavra ‘Deus’. Depois, acrescenta-se a expressão ‘segundo essa doutrina’, com a qual se evita possível mal-entendido, ficando agora claro que a inexistência da alma seria uma consequência da referida doutrina.


Parágrafo: 62
4a ed.: En mettant fin au règne de l’égoïsme, de l’orgueil et de l’incrédulité, elles préparent celui du bien, qui est le règne de Dieu.
Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus.
5a ed: En mettant fin au règne de l’égoïsme, de l’orgueil et de l’incrédulité, elles préparent celui du bien, qui est le règne de Dieu annoncé par le Christ
Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus, anunciado pelo Cristo.

Comentário: Explicita-se aqui que o reino de Deus é justamente aquele “anunciado pelo Cristo”. A frase fica, portanto, mais precisa, visto que há múltiplas interpretações do que seria o “reino de Deus”, nem todas compatíveis com a conclusão que Allan Kardec está extraindo neste parágrafo final do capítulo.


Parágrafo: 62
4a ed.: La révélation a donc pour objet de mettre l’homme en possession de certaines vérités qu’il ne pourrait acquérir par lui-même, et cela en vue d’activer le progrès. Ces vérités se bornent en général à des principes fondamentaux destinés à le mettre sur la voie des recherches, et non à le conduire par la lisière ; ce sont des jalons qui lui montrent le but : à lui la tâche de les étudier et d’en déduire les applications ; loin de  l’affranchir du travail, ce sont de nouveaux éléments fournis à son activité.
A revelação objetiva, pois, trazer ao homem certas verdades que não poderia alcançar por si próprio; e isso com vistas a ativar o progresso. Tais verdades em geral limitam-se a certos princípios fundamentais destinados a por o homem na trilha das pesquisas, e não a conduzi-lo pela coleira; são balizas que lhe mostram a meta. A ele cabe a tarefa de estudar esses princípios e deduzir deles as suas aplicações. Longe de eximi-lo do trabalho, são novos elementos fornecidos para sua atividade.
5a ed: --

Comentário: Esse parágrafo, que era o último do item 62, e portanto o último do capítulo, repete, quanto ao conteúdo, o que já havia sido explicado detalhadamente ao longo do capítulo; era, portanto, desnecessário. Além disso, estava claramente fora do lugar, pois o item 62 apresenta, de forma muito expressiva, a metáfora do navio que se acreditava, falsamente, haver  naufragado. Sem o parágrafo eliminado, o texto ganhou em eloquência, com a referência final ao “reino de Deus, anunciado pelo Cristo”.


Parágrafo: 62, nota
4a ed.: --
5a ed: L’emploi de l’article avant le mot Christ (du grec Christos, oint), employé dans un sens absolu, est plus correct, attendu que ce mot n’est pas le nom du Messie de Nazareth, mais une qualité prise substantivement. On dira donc : Jésus était Christ ; il était le Christ annoncé ; la mort du Christ et non de Christ, tandis qu’on dit : la mort de Jésus et non du Jésus. Dans Jésus-Christ, les deux mots réunis forment un seul nom propre. C’est par la même raison qu’on dit : le Bouddha Gaoutama acquit la dignité de Bouddha par ses vertus et ses austérités ; la vie du Bouddha, comme on dit : l’armée du Pharaon et non de Pharaon ; Henri IV était roi ; le titre de roi ; la mort du roi, et non de roi.  
A anteposição do artigo à palavra Cristo (do grego Christos, ungido),empregada em sentido absoluto, é mais correta, atento que essa palavra não é o nome do Messias de Nazaré, mas uma qualidade tomada substantivamente. Dir-se-á, pois: Jesus era Cristo; era o Cristo; era o Cristo anunciado; a morte do Cristo e não de Cristo, ao passo que se diz: a morte de Jesus e não do Jesus. Em Jesus-Cristo, as duas palavras reunidas formam um só nome próprio. É pela mesma razão que se diz: o Buda; Gautama conquistou a dignidade de Buda por suas virtudes e austeridades. Diz-se: a vida do Buda, do mesmo modo que: o exército do Faraó e não de Faraó; Henrique IV era rei; o título de rei; a morte do rei e não de rei.

Comentário:  Esta nova nota de rodapé explica detalhadamente a correção gramatical introduzida na 5ª edição. Vejam-se, acima, os comentários aos parágrafos 26 e 29.


3. Considerações finais

Este artigo dedicou-se à análise textual comparada do primeiro capítulo de A Gênese, nas 4a e 5a edições. Como fiz notar no referido artigo anteriormente publicado no Kardec.Blog, a quarta edição é idêntica às três anteriores. As alterações no texto foram introduzidas somente na quinta edição. Como tal edição é póstuma, isso deu lugar a que, já desde o final do século XIX, e de forma bastante intensa em nossos dias, surgisse a suspeita de que elas não teriam sido da autoria de Kardec.

O exame detalhado e completo aqui empreendido não é compatível com essa suspeita. A natureza intelectualmente refinada das modificações, que resultaram tanto na supressão de impropriedades conceituais e teóricas como no acréscimo de esclarecimentos e qualificações acerca de pontos fundamentais da teoria espírita, para não dizer de correções gramaticais e estilísticas, é, ao contrário evidência inconteste de que se devem ao grande Mestre que elaborou o Espiritismo, e não, absurdamente, de alguém não apenas de menor estatura intelectual mas movido por interesses inconfessáveis, alheios aos altos objetivos do Espiritismo.

Note-se, ademais, que não apenas sabemos que Kardec dedicou-se a elaborar versões revisadas de todos os seus principais livros, mas também essa é uma prática típica de todos os grandes autores de nossa cultura, especialmente nos campos da ciência e da filosofia. Para mencionar somente um exemplo, consideremos um dos livros mais importantes da filosofia moderna, o Ensaio sobre o Entendimento Humano, do inglês John Locke (1632-1704). O livro foi publicado inicialmente em Londres em 1690, mas teve três outras edições, todas revisadas, antes da morte do filósofo: 2a ed. 1694; 3a ed. 1695; 4a ed. 1700. Locke estava preparando uma quinta edição, novamente revisada, quando faleceu. Seus editores, sabendo disso, usaram as suas anotações de revisão na publicação da 5a edição do livro, em 1706.

Hoje em dia, os especialistas na filosofia de Locke consideram, evidentemente, que a quinta edição, póstuma, é a que expressa os pensamentos mais refinados de Locke acerca dos pontos em que houve alterações e, num nível mais detalhado de análise, usam todas as cinco edições, que mostram a evolução das posições do filósofo. São também levadas em conta as duas traduções publicadas enquanto Locke estava vivo, e sobre as quais, presumivelmente, teve algum controle: a edição francesa, de 1700, e a latina, de 1701. O trabalho de Kardec com as edições de La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme seguiu, ao que tudo indica, um percurso semelhante. Kardec deixou marcas inconfundíveis de sua perspicácia e erudição em sua edição póstuma.


Chibeni identifica alterações no cap. 1 de La Genèse.

Texto escrito por Silvio Seno Chibeni. Professor Titular do Departamento de Filosofia da Unicamp. Possui graduação em Física pela Universidade Estadual de Campinas (1981), mestrado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (1984) e doutorado em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas (1993). Realizou estágio de pesquisa na Universidade de Oxford em 1986/1987 e pós-doutorado na Universidade de Paris 7 em 1994/1995. Membro do GEEU (Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp).


Notas

[1] Outra ocorrência significativa se dá no parágrafo 13: “Par sa nature, la révélation spirite a un double caractère:…”. Ou ainda, em vários outros lugares, entre os quais destaco: Introdução: “Généralité et concordance dans l’enseignement, tel est le caractère essentiel de ladoctrine”; parágrafo 10: “Le caractère essentiel de la révélationdivine est celui de l’éternelle vérité”; 24: “Dieu étant le pivot de toutes les croyances religieuses, le but detous les cultes, le caractère de toutes les religions est conforme à l’idéequ’elles donnent de Dieu”.


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