Entrevista de Cosme Massi para o Jornal Divino de São José dos Campos.

Entrevista para o Jornal Divino – São José dos Campos/SP

O Espiritismo pode ser considerado uma religião?

As palavras sofrem daquilo que os especialistas denominam de “polissemia”, ou variedade de sentidos ou significados. Basta examinar um dicionário para percebermos que as palavras são polissêmicas.

Em geral, podemos classificar a polissemia em dois grandes grupos: a polissemia simétrica e a assimétrica.

A polissemia simétrica ocorre quando uma palavra não tem um sentido dominante. O sentido ou significado só pode ser entendido pelo contexto em que a palavra foi utilizada. Assim, por exemplo, a palavra cabo não tem um significado dominante. Pode ser um cabo de panela, uma patente militar, um acidente geográfico e vários outros significados. Todos são igualmente considerados. Somente pelo contexto podemos escolher qual significado devemos adotar numa dado caso.

Com a polissemia assimétrica ocorre algo diferente. Neste caso, há um sentido dominante, isto é, existe um significado comum que normalmente as pessoas entendem quando a palavra é empregada.

Quando se utiliza a palavra, mesmo isoladamente, você tende a considerar o sentido dominante como o mais adequado. Este é o caso da palavra religião. Quando dizemos que uma doutrina é uma religião, entendemos esta palavra no seu sentido usual, como um determinado tipo de doutrina, com seus dogmas, seus cultos, seus rituais e sacerdotes. Quando se emprega uma palavra, como religião, que possui um sentido dominante, espera-se que o leitor a interprete nesse sentido usual. Caso queiramos utilizá-la em outro sentido, diferente do usual, esse outro significado precisa ser tornado explícito. Foi exatamente o que fez Kardec ao utilizar a palavra religião num artigo notável publicado na Revista Espírita do mês de Dezembro de 1868: “Sessão anual comemorativa dos mortos: O Espiritismo é uma religião?”.

Kardec explica o sentido especial para a palavra religião que ele estaria utilizando neste artigo:

“Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembleias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção ampla e verdadeira, é um laço que religa os homens.”

Para deixar claro esse sentido especial de laço ou ligação dos homens entre si, Kardec denomina tal sentido de sentido filosófico da palavra religião: “Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza.”

Esse laço entre os homens, que permite atribuir o caráter de uma religião ao Espiritismo, no sentido filosófico do termo, é explicado por Kardec:

“Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória; qual o sentimento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos, ou, por outras palavras: o amor ao próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos também fazem parte da Humanidade.”

Esse sentido filosófico, de ligação ou comunhão de pensamentos e sentimentos, não pode ser confundido com o sentido usual de religião. No sentido usual do termo, Kardec sempre afirmou o contrário. Essa sua posição contra o emprego da palavra religião ao Espiritismo, no sentido usual do termo, ele explica da seguinte maneira:

“Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; ele não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião pública se levantou.”

Kardec também justifica o qualificativo de filosofia que ele sempre deu ao Espiritismo:

“Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.”

Como nenhuma ciência, ou filosofia, contém princípios absolutos em matéria de fé, cerimônias, casta sacerdotal, práticas exteriores de adoração e culto, nenhuma doutrina pode ser ao mesmo tempo uma ciência (ou filosofia) e uma religião, no sentido usual dessas palavras.

Para concluir, podemos dizer que o Espiritismo é uma ciência e uma filosofia, no sentido usual dessas palavras; e uma religião, no sentido filosófico do termo.

Qual a relação entre Espiritismo, Cristianismo e Jesus?

Conforme observa Kardec, a moral proposta pelo Espiritismo é a mesma moral apresentada por Jesus. Assim, a doutrina espírita pode ser considerada uma doutrina cristã, no sentido de que os princípios fundamentais do Espiritismo e as suas consequências morais expressam o pensamento de Jesus.

Para não deixar dúvidas sobre as relações entre o Espiritismo e o pensamento cristão, afirma Kardec:

“41. O Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da Natureza, que revela, tudo quanto o Cristo disse e fez; elucida os pontos obscuros do ensino cristão, de tal sorte que aqueles para quem eram ininteligíveis certas partes do Evangelho, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem e admitem, sem dificuldade, com o auxílio desta doutrina; vêem melhor o seu alcance e podem distinguir entre a realidade e a alegoria; o Cristo lhes parece maior: já não é simplesmente um filósofo, é um Messias divino.” (A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo, capítulo I, Caráter da Revelação Espirita.)

Conforme o final do texto acima, Kardec sugere que Jesus se relaciona de forma muito especial com o Espiritismo. Podemos, de forma resumida, descrever o que representa Jesus para Kardec e para o Espiritismo:1

  1. Jesus é um Espírito puro ou perfeito “Como homem, tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível.” (A Gênese- Cap. XV- Os milagres do Evangelho – Superioridade da natureza de Jesus)
  2. Jesus é o mais perfeito modelo “Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque o espírito divino o animava, e porque foi o ser mais puro de quantos têm aparecido na Terra.” (O Livro dos Espíritos, item 625)
  3. Jesus é o Espírito de Verdade, o Espírito responsável pelo Espiritismo “Um novo livro acaba de aparecer. É uma luz mais brilhante que vem clarear a vossa marcha. Há dezoito séculos vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de vontade… “Há várias moradas na casa de meu Pai, disse-lhes eu há dezoito séculos. Estas palavras, o Espiritismo veio fazê-las compreendidas…” (Espírito de Verdade) (Revista Espírita 1864 – Dezembro – Comunicação espírita – A propósito da obra Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo)
  4. Jesus, Espírito de Verdade, é o guia espiritual de Allan Kardec “Não é um fato característico a inauguração de uma sociedade espírita que, como a vossa, se inicia pela reunião espontânea de cerca de 300 pessoas, atraídas, não por vã curiosidade, mas pela convicção e pelo único desejo de se agrupar num feixe único? Sim, senhores, o fato não só é característico, mas providencial. Eis, acerca deste assunto, o que ainda ontem, antes da sessão, dizia meu guia espiritual, o Espírito de Verdade:” (Revista Espírita 1861 – Novembro – Banquete oferecido a Allan Kardec – Discurso e brinde do Sr. Allan Kardec)
  5. Jesus, Espírito de Verdade, é o dirigente do planeta Terra “Essas obsessões frequentes terão, também, um lado muito bom, pelo fato de que estando penetrado pela prece e pela força moral, pode-se fazê-las cessar e pode-se adquirir o direito de expulsar os maus Espíritos e, pelo melhoramento de sua conduta, cada um procurará adquirir esse direito, que o Espírito de Verdade, que dirige este globo, conferirá quando for merecido.” HAHNEMANN – Médium: Sr. Albert (Revista Espírita 1864 – Janeiro – Um caso de possessão – Senhorita Júlia)
  6. Jesus, Espírito de Verdade, é o mestre de todo nós: “Eu tive que vos fazer ouvir uma voz tanto mais severa quanto mais espera de vós o Espírito de Verdade, mestre de todos nós.” Erasto (Revista Espírita 1861 – Novembro – Reunião geral dos Espíritas bordeleses – Primeira Esístola de Erasto)
  7. Jesus, Espírito de Verdade, é o Consolador prometido: “42. …reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador”. (A Gênese – Capítulo I – Caráter da revelação espírita)

Assim, fica muito claro, segundo o Espiritismo, a importância de Jesus na vida de todos nós. Saibamos orar a Deus para agradecê-Lo pela assistência permanente de Jesus para todo o nosso planeta Terra.


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