Entrevista INÉDITA com Carlos Seth Bastos, o criador do CSI do ESPIRITISMO

Entrevista conduzida por Lilian Ramos Massi

Instituto de Divulgação Espírita Allan Kardec (IDEAK)

Por que se interessou pela história do Espiritismo?

Entrevista com Carlos Seth criador do CSI do ESPIRITISMO - Kardec.Blog

Mais recentemente preparamos um curso em que nos propusemos a analisar estudos científicos realizados para testar as hipóteses espíritas, como a mediunidade, a reencarnação, o tratamento fluídico e até a EQM ou Experiência de Quase Morte. Aproveitamos e estudamos as falácias, a razão da ciência não ser nosso comportamento natural, as fraudes mediúnicas do passado, as práticas estranhas nos Centros Espíritas, o uso indevido de analogias com os fenômenos quânticos, etc. Concluímos facilmente, mas só depois de analisar tudo em profundidade, que a Ciência acadêmica pouco progresso fez na exploração dos conceitos do Espiritismo. Também não vislumbramos que em futuro próximo consigamos validar o que infelizmente vemos constantemente na mídia e nas redes sociais, por exemplo, “A Ciência comprovou a reencarnação”, “A Ciência comprovou a eficácia do passe”, etc. Portanto resolvemos investir em outros aspectos em que pudéssemos agregar algum valor ao conhecimento espírita. Como a historiografia do Espiritismo era muito pobre, decidimos fazer pesquisas nesta área.

Qual seu escopo de pesquisa?

Começamos buscando identificar os médiuns utilizados por Kardec durante a chamada Codificação. O objetivo inicial era levantar os seus registros de estado civil, ou seja, de nascimento, de casamento e de óbito, abrindo caminho para outros pesquisadores. O primeiro personagem identificado foi o Sr. Alis D’Ambel, “o médium de Erasto”. Entre os que mais investimos horas de trabalho estão as Srtas. Baudin, Japhet e Dufaux, a Sra. Costel e o Espírito Georges. Além de outros médiuns pesquisamos também a vida de Rivail, a SPEE e a SA, etc. Estas pesquisas nos deram acesso a importantes acervos, como o que se encontrava na “Librairie et Editions Leymarie”, graças ao colega e amigo Charles Kempf, presidente da Federação Espírita Francesa; e ao espólio de Canuto Abreu, sob a guarda do Centro de Documentação e Obras Raras da FEAL. No total já analisamos mais de 320 cartas, adicionando quase 1.600 comentários, que são o que chamamos metadados. Contudo, como temos assinado um contrato de confidencialidade, nenhum informação foi usada ainda na nossa página CSI.

Você parece gostar muito de números e estatísticas…

Talvez pela minha formação e pela minha atividade profissional realizada ao longo de mais de 35 anos… Posso acrescentar que no CSI, desde sua criação em 4 de agosto de 2018, já publicamos mais de 600 imagens ou registros “inéditos”; e tivemos mais de 200 personagens estudados, todavia não necessariamente publicados. Esta é outra característica do site: só apresentamos informações desconhecidas do movimento espírita.

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A propósito, por que “CSI”?

Minha esposa, e consequentemente eu (risos), apreciamos séries como “Cold Case”, “Law and Order” e “CSI”, que hoje em dia foram substituídas por outras, mas que tem como assunto principal a investigação de casos antigos ou atuais, cuja solução depende da construção de uma argumentação sólida, desde que se queira que a Justiça seja feita. Na verdade a dinâmica é bem parecida com o método científico conhecido como hipotético-dedutivo. Tudo isso foi a inspiração para a criação do site “CSI do Espiritismo: História”, dedicado às imagens e registros históricos do Espiritismo. Só que para nós CSI significa “Codification Séances Investigation” ou “Investigação de Sessões Mediúnicas da Codificação”. Temos também a página “CSI do Espiritismo: Ciência”, dedicada aos artigos e estudos científicos sobre o Espiritismo, e a “CSI do Espiritismo: Filosofia”, com foco na doutrina e ética aplicada do Espiritismo.

Como é a pesquisa?

Primeiramente fizemos um cruzamento intensivo entre mensagens das obras consideradas fundamentais com mensagens similares nas Revistas Espíritas. A partir daí fomos identificando os médiuns mais representativos em termos de importância ou quantidade de comunicações. Em seguida mergulhamos na busca de endereços e datas, que geralmente são as chaves para novas descobertas. Com a digitalização em larga escala que foi feita na França, o trabalho do pesquisador sério e comprometido pode ser realizado de forma inteligente e eficaz, sem a necessidade de muitas pesquisas de campo em Paris e outras cidades da Europa. Algumas de nossas principais fontes de consulta primária são a Gallica da Biblioteca Nacional da França, os Arquivos Nacionais da França, os Arquivos Municipais de Paris e de várias outras comunas francesas, etc. Mas é claro que alguma pesquisa de campo precisou ser feita. E muitas outras ainda dependem disso, como em Yverdon na Suíça, na busca da lista de pensionistas estrangeiros; em Ajaccio, sobre um suposto Sr. Carlotti; em Périgueux, sobre a sucessão do pai de Kardec; em Paris, na busca dos herdeiros da dissolução da “Société Civile Immobilière d’Études Métapsychiques”, para a recuperação dos quadros espoliados pelos nazistas, etc, etc. 

E por que se interessou pela “A Gênese”?

Bem, primeiramente notamos algumas inconsistências nas pesquisas anteriores, por exemplo, a Declaração de Impressão feita pela tipografia Rouge com data de 4 de fevereiro de 1869 e com a informação de 12 páginas de impressão foi atribuída a uma 4ª edição de 1868, embora a Declaração de Impressão de 1867 indicasse 15 páginas de impressão para as primeiras edições. A Declaração de Impressão de 1872 era exatamente igual a de 1869 e diferente da de 1867. Temos várias outras inconsistências, mas também continuamos com algumas dúvidas razoáveis ainda hoje.Quanto às alterações ou a responsabilidade de Leymarie, sempre repetimos: todos sabemos que Leymarie permitiu a infiltração do roustanguismo, da teosofia, do esoterismo, etc na Revista Espírita, e que o Espiritismo não se coaduna com nada disso. Todos sabemos que a 5ª edição tem mais de 400 alterações, incluindo simples correções de pontuação até novas ideias, o que não é o caso do item 67 do capítulo XV retirado da 4ª edição e substituído pelo 68. Kardec afirmou neste capítulo, e esta declaração não foi retirada: “Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal…”. A eliminação de um item qualquer não compromete em nada esta posição de Kardec de que Jesus teve um corpo carnal, a não ser que se tenha dificuldades de interpretação de texto. Aliás, Kardec tentava aumentar a obra, em termos de ideias e conceitos, sem aumentar o volume. Leymarie, neste caso específico, não teve nenhuma culpa, uma vez que assumiu a Sociedade Anônima e a Revista Espírita apenas em junho de 1871, com a renúncia de Desliens; e a Livraria Espírita em junho de 1873, com a renúncia de Bittard. Já para aqueles que negam a existência da 5ª edição de 1869, desenvolvemos vários argumentos na nossa página. Infelizmente existem pessoas que emitem suas opiniões apaixonadas, mesmo antes de ler e refletir sobre tais argumentos. O futuro dirá quem está fazendo mais bem ou mais mal à nossa esclarecedora doutrina. Mas na dúvida, bom seria se todos pudessem estudar as duas edições, fazer as comparações e decidir por si mesmos, sem necessidade de terceirizar seu raciocínio.

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O que mais poderia falar sobre esta descoberta da 5ª edição de 1869?

Diante das inconsistências comentadas resolvemos fazer uma pesquisa intensiva em todos os catálogos virtuais de todas as bibliotecas existentes no mundo. Ao encontrar um indício, entramos em contato com o bibliotecário que nos forneceu as informações solicitadas. Aliás, todas as pessoas com as quais tivemos contato em Neuchâtel, onde está a 5ª edição de 1869, e na Basileia, onde está a 6ª edição sem data, nos atenderam prontamente e foram muito gentis. O resto da história todos conhecem, desde que tenham visitado o nosso site e lido atentamente as publicações.Quanto ao conteúdo em si, não é escopo do “CSI do Espiritismo: História”, mas sim do “CSI do Espiritismo: Filosofia”, onde registramos as discussões de um curso presencial que chamamos “Codificação sem pressa”. Acabamos de revisitar a obra “O Livro dos Espíritos”, cujo estudo demorou dois anos. Faremos assim com todos os livros, brochuras e revistas de Kardec. Neste último estudo vimos várias polêmicas, por isso nos causa espanto esta ideia fixa em relação à obra “A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo”. Apenas para dar um exemplo: na resposta à questão 1006, São Luís “subordina a duração das penas aos esforços do Espírito, jamais lhe tirando o livre-arbítrio”, mas na resposta da questão 1008 diz que “sim, há penas que lhe podem ser impostas”. Forçando a interpretação, diríamos que as leis divinas nos foram impostas, por exemplo, há pessoas q comem demais, e passam mal, mas que não pensam nisso enquanto comem, e continuam comendo, prolongando o mal-estar futuro. Nós estamos totalmente alinhados com este pensamento de autonomia. E mais, as pessoas esquecem que o Espiritismo é uma doutrina dinâmica, em evolução, seguindo “pari passu” o progresso da Ciência, sem se deter onde ela agora para. Em “A Gênese”, eu preferia o texto da 4ª edição dos itens 58 a 60 do capítulo VI sobre “A Ciência”, que foram excluídos e substituídos; e do item 23 do capítulo X sobre “Geração espontânea”, que foi reescrito. Mas Kardec, como dissemos, preferiu sintetizar ideias e conceitos já apresentados anteriormente, abrindo espaço para outros assuntos. Sobre a geração espontânea, é claro que existiu nos primórdios da Terra, quando haviam as condições propícias, o que já não acontece. Mas seria um anacronismo julgar as declarações de Kardec à luz dos conhecimentos atuais, assim como esquecer a teoria miasmática quando analisando o item 10 do capítulo XVIII da 5ª edição, sobre a epidemia da Ilha Maurícia. Particularmente, também temos dificuldades para entender as questões 536 a 540 de “O Livro dos Espíritos”, acrescentando que o átomo de hidrogênio na água que bebemos hoje, talvez tenha existido desde os momentos iniciais do “big bang”, a 13.7 bilhões de anos atrás. Portanto, polêmicas não existem só em “A Gênese”.Enfim, comparamos a 5ª edição de 1869 com a de 1872 e elas são idênticas, tanto em conteúdo quanto tipograficamente. Foi uma comparação visual, sujeita a erros. Estamos desenvolvendo uma comparação automatizada com a ajuda de outros pesquisadores.

E como você vê a reação com relação a esta descoberta?

Desproporcional. Ninguém visita o Código de Hamurabi no Museu do Louvre e fica discutindo se ele está lá ou se é uma ilusão. Neste contexto jamais fiz qualquer crítica a qualquer pesquisador, que não sabiam da existência desta edição no momento que desenvolveram suas análises. Já repeti isso várias vezes, mas acho oportuno fazer como Isaac Newton, e dizer mais uma vez: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”.  Aliás, interessante, em janeiro de 2018, quando percebi o equívoco com relação ao nascimento da Srta. Ermance Dufaux, apresentei as evidências e alertei a várias federativas e instituições. Só a Biblioteca Nacional da França, através do seu data.bnf.fr, e outra instituição de Bron, comuna da área metropolitana de Lyon, corrigiram isso até a data de hoje, mais de dois anos depois. No Brasil está tudo como dantes. Ela nasceu em Cambrai, e não em Fontainebleau. Existe uma grande quantidade de registros equivocados sobre ela e outros médiuns no movimento espírita brasileiro. Mas voltando para “A Gênese”, gostaria de acrescentar que a responsabilidade pelas Declarações de Impressão e pelos Depósitos Legais era das tipografias. A responsabilidade pelos registros em Paris era da Chefatura de Polícia, que aliás sofreu um incêndio em maio de 1871, com o fim da Comuna. Kardec só se envolvia com o texto enviado à editora, que contratava a tipografia. Existem outras obras nesta situação, isto é, sem Depósito Legal encontrado, por exemplo, a edição de 1865 do “Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas”. E mais, a Livraria Internacional foi substituída pela Livraria Espírita na publicação de “A Gênese”. Esta livraria deve ter sido estabelecida antes do dia primeiro de abril de 1869, conforme hipótese já explicada e desenhada em nosso site.

Você é ligado a alguma instituição?

Como pessoa física, sou presidente de uma instituição na cidade de Jacareí, SP há mais de 20 anos. Infelizmente este tempo dilatado mostra nossas falhas na gestão para a renovação da diretoria. Enfim, com o site CSI somos totalmente independentes. Até oferecemos o resultado das pesquisas a algumas instituições, porém nenhuma federativa se interessou em divulgá-las. Hoje temos um espaço na kardecpedia e outro no allankardec.online mas as pesquisas colaborativas em tempo real continuam acontecendo apenas no facebook. Não pretendemos escrever nenhum livro, mesmo que transferindo qualquer eventual lucro a alguma instituição beneficente. Também não temos intenção de correr o mundo divulgando o resultado das nossas pesquisas, nem criar qualquer outro canal de divulgação. Prefiro o estilo “low profile” agora, uma vez que minha vida profissional já me proporcionou as alegrias mundanas do reconhecimento e das viagens. Na verdade, só preciso agradecer à minha esposa, pela compreensão de tantas horas ausentes no que seria uma aposentadoria merecida.

E o que pretende com seu trabalho, no curto, médio e longo prazos?

A curto prazo, resgatar a verdade, por exemplo, a grande maioria do movimento espírita ainda acredita que Kardec trabalhou com crianças e adolescentes. Já mostramos que não. Uma motivação são as palavras do historiador John Warne Monroe, professor associado da “Iowa State University”. Após avisá-lo de um equívoco no seu livro “Laboratories of Faith”, ele me escreveu: “Por favor, mantenha-me informado das coisas interessantes que encontrar, independentemente de contradizerem ou afirmarem meu livro. Como historiador, é claro que é sempre profundamente gratificante ver todos se aproximando da verdade.”.A médio prazo espero continuar com as pesquisas, num ritmo menos alucinante, agora com foco no estudo da Revista Espírita. A longo prazo não tenho qualquer expectativa.

Poderia nos passar os links mencionados nesta entrevista?

Claro. O curso sobre estudos científicos está em CEAJ ONLINE – Centro Espírita Amor a Jesus

Entrar como visitante, e clicar em Grupo de Estudos Avançados “Chico Xavier” – GEA2. Pode explorar também os outros cursos e até testar seus conhecimentos das obras fundamentais.

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Muita paz

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