Como ser uma pessoa virtuosa em um mundo como a Terra? — Parte 1

Resposta de Cosme Massi* na live “Como ser uma pessoa virtuosa em um mundo como a Terra?”, transmitida ao vivo em 06/09/2021, no Enconself 2021; realização da Sociedade Espírita Laços Fraternos.

Transcrição de Rui Gomes Carneiro.


No Livro dos Espíritos há um capítulo especial em que Kardec vai responder à questão — “O que devemos fazer para conquistar as virtudes?” (Aliás, costumo me referir às obras do Espiritismo como sendo de Kardec, mas é por economia. Sabemos que a obra foi escrita a quatro mãos, as de Kardec e os Espíritos, contendo, portanto, os pensamentos de ambos.)

Essa obra é a mais importante do Espiritismo, a obra que deu origem a essa ciência e filosofia, e a única que contém a doutrina por inteiro. No último capítulo da terceira parte, o capítulo “Da perfeição moral”, Kardec e os Espíritos ensinam o que devemos fazer para nos aperfeiçoarmos moralmente, que é exatamente vencer os vícios morais e conquistar as virtudes.

Aquele que deseja enfrentar seus vícios e desenvolver as virtudes, em qualquer contexto de vida, encontrará respostas nesse capítulo. O contexto de vida pouco importa, já que esse capítulo se dirige ao Espírito imperfeito, a todos nós que ainda cultivamos desejos ruins, sentimentos ruins. Foi para nós, da terceira ordem, que Kardec e os Espíritos escreveram esse capítulo, nos ensinando a superar paixões ruins e conquistar as virtudes.

Assim, poderíamos ficar horas e horas falando desse capítulo, mas vamos apenas destacar alguns pontos que Kardec e os Espíritos recomendam para nos ajudar na conquista da virtude. Essa estratégia está definida na primeira questão do capítulo, a 893. Ao longo de todo o capítulo, essa questão será explorada pelos Espíritos e por Kardec, e os elementos essenciais colocados nessa questão são tratados no capítulo inteiro, pois aí estão as duas estratégias de que precisamos para conquistar a virtude.

O Livro dos Espíritos > Parte terceira — Das leis morais > Capítulo XII — Da perfeição moral > As virtudes e os vícios.

893. Qual a mais meritória de todas as virtudes?

“Todas as virtudes têm seu mérito, porque todas indicam progresso na senda do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores. A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal pelo bem do próximo, sem pensamento oculto. A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade.”

A estratégia é bem simples, e lógica: no processo de aperfeiçoamento moral o principal inimigo será o próprio indivíduo que, como Espírito imperfeito, traz consigo um passado em que cultivou emoções ruins, sentimentos ruins, desejos ruins, que o levaram à prática do mal. Dessa forma, cada um precisa enfrentar e vencer a si mesmo.

Então temos um inimigo muito forte para enfrentar, já que nós o fortalecemos muito durante muitas e muitas encarnações. Nós temos uma batalha conosco mesmos. É o homem velho, que viveu durante muitas e muitas existências alimentando sentimentos ruins e praticando o mal, que toma consciência de que precisa mudar e abandonar os vícios, e então está diante de uma batalha consigo mesmo.

É interessante essa metáfora da batalha por que nós vamos entender a estratégia traçada na questão 893. Quando estamos em uma batalha temos duas estratégias básicas: a primeira é a estratégia de resistência, de defesa, pois ao ser atacado é preciso saber se defender. Mas em uma batalha não basta saber se defender, é preciso contra-atacar, é fundamental que se ataque também, que você aja. Essa é basicamente a estratégia proposta pelos Espíritos para enfrentar essa batalho conosco mesmo: defesa e ataque.

Os Espíritos respondem a Kardec que todas as virtudes têm o seu mérito, porque todas indicam progresso na senda do bem. Então eles começam com uma frase muito importante, nos mostrando que qualquer virtude já indica progresso na senda do bem, e por isso todas têm o mérito próprio em si.

Para nos orientar, a nós, Espíritos imperfeitos, eles revelam uma estratégia nessa questão, mostrando-nos o que fazer para conquistar as virtudes, já que todas têm seu mérito e nós temos que conquistá-las, a todas.

“Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores.”

Esse é o primeiro ponto da estratégia: resistir voluntariamente, ou seja, com a própria vontade, ao arrastamento desses maus pendores, desse homem velho, acostumado a sentir prazer com o vício moral, com os sentimentos ruins.

Esse é o primeiro elemento dessa batalha, saber resistir, saber se defender contra esse homem velho, contra os vícios morais que temos, que estão marcados em nossa alma. Resistir é fundamental! Significa não alimentar o vício com a repetição; e vamos constatar que sem o uso da vontade não conseguiremos vencer os maus pendores.

Depois de mostrar a necessidade de resistir, Kardec e os Espíritos traçam a segunda parte da estratégia:

“A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal pelo bem do próximo, sem pensamento oculto. A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade.”

Esse é o outro ponto essencial: não basta resistir ao mal; depois, e ao longo da resistência, é preciso vencê-lo, substitui-lo por hábitos bons, por virtudes, é preciso destruir o mal em você. E para derrotar definitivamente o mal, eles vão recomendar a estratégia da prática desinteressada do bem.

Temos, então, duas estratégias bem claras e bem traçadas para a construção das virtudes em nós: resistir ao mal e agir de maneira desinteressada no bem. E assim o mal será definitivamente eliminado do nosso mundo íntimo.

Note-se a importância dessa lógica: não basta resistir ao mal que está em nós; resistir ao mal é evitar que ele cresça, que ele tome conta, e isso é da maior importância! Mas simplesmente resistir é pouco; é preciso eliminá-lo para que não continue lá na alma querendo acontecer, para que a virtude que o substituirá aconteça espontaneamente. Então temos que fazer algo para que esse mal, e esse sentimento ruim, desapareçam do nosso mundo íntimo.

Nessa estratégia, os elementos de resistência estão presentes ao mesmo tempo em que as ações no bem estão sendo realizadas, possibilitando que de um lado se resista e, ao resistir, também se tenham os elementos para superar o mal e eliminá-lo da alma.

Então esses dois componentes atuam o tempo todo juntos; estamos separando-os apenas didaticamente: pratica-se a resistência ao mal ao mesmo tempo em que se trabalha para destruí-lo, ou seja, não há uma ordem temporal.

Para entendermos melhor a resistência, vamos pegar o mal moral da inveja, um tipo de paixão, uma das filhas mais perigosas do orgulho e do egoísmo.

Em que consiste a inveja? É um tipo de sentimento ruim que alguém pode ter como decorrência do sucesso alheio, do bem que o outro conquista. Quando alguém está se dando bem, seja material ou intelectualmente, quando alguém começa a crescer, e esse alguém tem uma certa proximidade, tem condições de competir com a pessoa, seja na profissão, seja por ser seu vizinho, seu parente, isso a incomoda, a pessoa se sente mal com o sucesso do outro: isso é o que se chama inveja. A pessoa sente essa paixão de tal maneira que esse sentimento a leva a usar da própria razão para desmerecer aquele bem que o outro conquistou, considerando sua conquista como incorreta e injusta.

De alguém que enriqueceu (e isso o está incomodando), o invejoso vai dizer “Também, ela é desonesta, ali tem corrupção, ela recebeu de herança, tudo veio facilmente!” Então o invejoso começa a tentar justificar esse sentimento ruim que está sentindo, por razões que o levam a acreditar que aquele bem que o outro conquistou não foi conquistado de forma justa, teve alguma coisa ali que ele não merecia.

A inveja é uma das paixões mais perigosas, porque ela leva o indivíduo a praticar o mal! Ao se sentir incomodado com o progresso, com o crescimento do outro, o invejoso passa a querer rebaixar o outro. Ao invés de trabalhar para que também cresça, para que também progrida, prefere rebaixar o outro.

Assim a inveja produz a maledicência! Quando estamos em uma roda de amigos, que falam bem de um indivíduo, o elogiam, e somos de alguma maneira concorrentes dele, começamos a querer colocar algum erro em sua vida, algum defeito naquela pessoa; nós nos sentimos incomodados, e começamos a procurar problemas naquela pessoa que neutralizem os elogios feitos. Isso é impressionante, como o ser humano pode se preocupar tanto com o sucesso alheio a ponto disso incomodá-lo profundamente e ele se sentir mal. Talvez a inveja seja, das paixões, a que tem criado os maiores problemas na vida social, na sociedade.

A inveja gera a competição desenfreada, desrespeitosa, desonesta; o indivíduo não é capaz de reconhecer o bem do outro, ele só reconhece o mal! Se o sujeito faz o bem, ele esquece, ele só destaca aquilo que faz de ruim, porque de alguma maneira isso o está incomodando.

Então veja o perigo da inveja: todas as pessoas que trabalham, que produzem, que realizam, seja materialmente, seja intelectualmente, sofrem fortemente com esse tipo de paixão. Sofrem quando possuem a própria paixão, ou sofrem quando a paixão está presente em seu concorrente.

Kardec foi vítima muitas vezes da inveja, mesmo de espíritas que frequentavam a Sociedade Espírita de Paris, que se sentiam incomodados com o seu sucesso, com seu trabalho, com as suas obras que começavam a ter sucesso e se difundir no mundo.

Com frequência essas pessoas buscavam denegrir a sua imagem, mesmo pessoas que conviviam com ele em sua intimidade, como ele vai relatar em Obras Póstumas. Em registros históricos que Kardec deixou, ele relata um pouco disso que ele sofreu, e o próprio Espírito de Verdade previu que ele o sofreria.

Então a inveja está aí; como enfrentá-la? Enfrentar uma paixão é não a aceitar. É não aceitar que se continue a senti-la.

Tem gente que acha que não controla sentimentos, que não pode dominar sentimentos; mas isso é um grave equívoco. No momento em que se sentir incomodado com o bem do outro, é preciso usar a razão, e questionar a si mesmo: “Por que eu estou incomodado com o bem do outro? Por que isso está me incomodando? Por que o sucesso alheio está me incomodando?” Pergunte-se a si mesmo.

Desta forma, comece a usar a razão para questionar o sentimento que você está tendo, e não se deixe entregar a ele. Quando alguém se entrega a esse sentimento de inveja, sua língua solta e ele começa a falar mal, a criticar o outro. E é fácil, quando estamos convivendo com alguém que tem inveja, percebermos isso pela crítica e maledicência a que a pessoa se entrega.

Então, quando estamos tendo esse tipo de reação, resistir é não aceitar o sentimento! Precisamos usar a razão, começar a dizer a nós mesmos: “Mas porque estou tendo esse sentimento?”; “Qual é o problema do crescimento do outro?”; não é bacana que ele esteja crescendo? Não é bacana que ele esteja feliz? Não é bacana que ele esteja se destacando?  Olha que coisa bonita, ele está crescendo, se destacando, ele está se desenvolvendo, por que isso me incomoda?” Na hora em que começamos a nos questionar, vamos buscar as razões para enfrentar esses sentimentos, não permitindo que ele tome conta do nosso coração.

Por fim será necessário usar várias estratégias de argumentos para convencer a si mesmo: se você é espírita, os argumentos serão melhores ainda, pois você sabe que cada um está aqui para aprender, crescer, se desenvolver! Então, que ótimo que fulano está crescendo, se desenvolvendo; “Olha lá, que bacana o trabalho que ele desenvolve”. Ao invés de ficar procurando defeitos no trabalho do outro, deixe-o trabalhar e faça você o seu trabalho, não se incomode com o que o outro está fazendo.

Esse é o primeiro desafio nosso, o de resistir aos maus pendores, usando da vontade e da razão! Combater os sentimentos, e não se entregar a eles. Não aceitar dizendo “Ah! Eu sou invejoso, mesmo!”. Não, você tem que deixar de ser, ou vai continuar na terceira ordem, vai continuar voltando em mundos de provas e expiações, não vai avançar como Espírito, não vai avançar na escala espírita.

Então esse é o primeiro desafio, enfrentar o vício, para que a inveja não tome conta. Ela tem que ficar sob controle do indivíduo, até que, pela prática do bem desinteressado, ele destrua essa inveja!

Agora é preciso traçar uma estratégia de praticar o bem renunciando ao interesse pessoal a benefício do outro.

Às vezes você tem a chance de puxar o tapete da pessoa que está se destacando, mas você resiste e não o puxa! Você a deixa ter sua oportunidade, mesmo que ela fosse sua; você deixa que ela cresça e se desenvolva no seu lugar. Você começa a renunciar ao seu tempo, dos seus recursos materiais, da sua oportunidade de projeção, para que o outro também cresça, também se desenvolva, para que o outro possa fazer a parte que lhe compete.

No momento em que se renuncia ao interesse pessoal a benefício do outro, por meio de ações concretas no bem, vai-se fazendo com que a inveja, a que apenas vínhamos, até o momento, resistindo, passe agora a ser combatida. E à medida em que se vai renunciando ao interesse pessoal a benefício do outro, descobre-se que a felicidade do outro não incomoda mais; muito pelo contrário, o sucesso do outro passa a nos fazer felizes.

E finalmente percebemos que aquele sentimento ruim que tínhamos foi desaparecendo, e agora aplaudimos o sucesso alheio com alegria, sem fingimento, sem pensamento oculto, sem hipocrisia; não é mais aquele sorriso externo amarelo próprio de quem sorri por fora, mas por dentro está se queimando de inveja! Não, não é esse tipo de sorriso; agora sorrimos espontaneamente, sentimos que a nossa alegria pode e deve conviver com a alegria do outro. Descobrimos algo precioso: que a felicidade do outro também é parte fundamental da nossa felicidade, e nesse momento olhamos o outro como sendo tão importante como nós mesmos!

Então, ao diminuir a importância da personalidade, como observa Fénelon no item 917 de O Livro dos Espíritos, vamos combatendo o egoísmo, o orgulho, e vamos aprendendo, pela prática da caridade, que é a renúncia desinteressada de si, que vamos eliminar as nossas emoções ruins.

Então a estratégia é relativamente simples: resistir ao mal e praticar o bem, renunciando ao interesse pessoal; isso vai levando o indivíduo a combater todos os vícios morais: o ciúme, a mágoa, a raiva, o ódio. . . todos eles!

Resistir e ao mesmo tempo buscar as ações desinteressadas no bem nos leva a eliminar por completo os vícios morais que trazemos em nossa alma.

O Livro dos Espíritos > Parte terceira — Das leis morais > Capítulo XII — Da perfeição moral. Comentário de Kardec no item 917

O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a caridade o é de todas as virtudes. Destruir um e desenvolver a outra, tal deve ser o alvo de todos os esforços do homem, se quiser assegurar a sua felicidade neste mundo, tanto quanto no futuro.


— Quer saber mais sobre o aperfeiçoamento de si mesmo? Assista à live “O bom espírita” no canal Cosme Massi no YouTube, ou leia suas transcrições neste BLOG!

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*Observação. O texto acima foi retirado de uma exposição de viva voz. Como todo ensino oral, esta colocação pode não ser tão rigorosa com os sentidos das palavras, por efeito da proximidade entre as pessoas que conversam. É preciso, por isso, considerar que as definições dadas podem ser provisórias, e que alguns termos são usados em sentido figurado. Em todo caso, o fundo da mensagem não deixa equívocos.


Cosme Massi é Físico, Doutor e Mestre em Lógica e Filosofia da Ciência pela UNICAMP. Foi professor, pró-reitor e diretor de diversas universidades no Brasil. Ganhador do Prêmio Moinho Santista em Lógica Matemática. Escritor, palestrante e estudioso das obras e do pensamento de Allan Kardec há mais de 30 anos. Idealizador do IDEAK (Instituto de Divulgação Espírita Allan Kardec) e da KARDECPEDIA, plataforma grátis para estudos das obras de Allan Kardec. Reúne mais de duzentas aulas de Espiritismo na plataforma KARDECPlay.


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